On the road venice3

Publicado em setembro 15th, 2012 | por Thiago Momm

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VENEZA EM LIVROS

Veneza motivou tantos escritores que em 1971 um inglês, Milton Grundy, publicou um guia diferente: uma compilação só do que já se escreveu sobre a cidade.

Tenho aqui a sexta edição (2007) deste ambicioso Venice – the anthology guide, ainda não traduzido no Brasil. O guia se baseia em nada menos que 116 livros com impressões ou sobre personagens, história e construções de Veneza. Disso resulta a possibilidade de visitar a piazza San Marco com o compositor alemão Richard Wagner, entrar na basílica de São Pedro com o escritor inglês Henry James, percorrer as prisões do Palazzo Ducale com Charles Dickens e avaliar as pinturas locais ao lado de John Ruskin, que publicando As pedras de Veneza (1886) deixou Proust e tantos outros instigados pela cidade.

Mas a referência talvez mais valiosa de Grundy não é alguém tão famoso. Jan Morris, hoje uma velhinha inglesa cabelos algodoados, nasceu homem, James, mas trocou de sexo. Dona de um texto caudaloso, ao mesmo tempo empolgado e descritivo, produziu mais de 40 livros, 18 deles de viagem, aí inclusa a compilação do que percorreu de mundo entre 1950 e 2000. Morris escreveu sobre a primeira chegada ao topo do Everest, em 1953, depois de conversar com os exploradores a mais de 6 mil metros de altitude.

“Os verdadeiros venezianos estão convencidos de que as habilidades, artes e ciências do mundo saem, em círculos que enfraquecem à medida que se afastam, da praça San Marco”, escreve Jan Morris

Venice, outro livro lamentavelmente ainda não traduzido, é uma descrição inspirada e inspiradora de uma cidade. A obra, escrita na década de 1960 e depois três vezes revisada por Morris (a última edição, a que tenho, é de 1993), foi declarada pelo Sunday Times como a melhor já escrito sobre Veneza.

“Os verdadeiros venezianos estão convencidos de que as habilidades, artes e ciências do mundo saem, em círculos que enfraquecem à medida que se afastam, da praça San Marco”, escreve Morris, que além de poética mostra precisão, por exemplo ao contar que Veneza foi fundada em 25 de março de 421 – ao meio-dia – ou que “Veneza foi um Estado de grandes homens longevos: Tintoretto morreu aos 76, Guardi aos 81, Longhi e Vittoria aos 83, Longhena aos 84, Giovanni Bellini aos 86, Titian e Da Ponte aos 88, Sansovino aos 91″.

“Veneza era um lugar de seda, esmeraldas, mármores, brocados, veludos, tecido de ouro, marfim, temperos, perfumes, macacos, ébano, anil, escravos, grandes galeões, judeus, mosaicos, domos brilhantes, rubis e todos os esplêndidos produtos da Arábia, da China e das Índias”, fala, sobre Veneza república.

Eis como se escreve uma história de cidade. Nada de progressões modorrentas sem vida. O envolvimento do autor com o assunto pode vir à tona sem gerar livros de ficção. Aos grandes fatos podem se mesclar detalhes. Registra Morris: “Houve um gato que se tornou uma celebridade internacional no final do século 19. Chamava-se Nini, e vivia em uma cafeteria onde havia o livro de visitas a Nini, no qual os clientes assinavam. Quando morreu, em 1894, poetas, músicos e artistas ofereceram exageradas condolências, e um escultor fez a figura do animal, que costumava ficar em uma parede ao lado da loja. ‘Nini!’, disse um obituário, ‘uma jóia rara, a mais honesta das criaturas’.”

O livro de Morris, e mais ainda o guia de Grundy, são, claro, para quem planeja uma viagem com tempo. Primeiro tempo para encomendar os livros e conhecê-los melhor. Depois, claro, tempo para os detalhes da cidade, como a também chamada Sereníssima merece.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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