On the road bruxelas

Publicado em setembro 13th, 2010 | por Thiago Momm

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VIVAM OS CLICHÊS

Ela está sozinha em um albergue em Bruxelas. Lê uma revista. 

Ao colocar um óculos na sua atriz francesa, um diretor dos péssimos contos eróticos do Multishow escolheria justamente aquele, preto, aros quadrados e grossos. Na escolha da atriz, o mesmo diretor talvez também procurasse aquela boca algo Cicarelli, meio bico de pato, e aquela peitaria un petit peu exagéré, um pouquinho exagerada, que só uma roupa de esquiadora ou de astronauta disfarçaria.

Você é um esperançoso e não vai deixá-la ler a revista.

Você a oferece uma cerveja belga bem gelada e um idioma muito parecido com o francês. A beldade sorri. Agradece. Diz que ainda bem que alguém puxou conversa com ela, porque é seu primeiro dia em Bruxelas e na manhã seguinte começa no emprego novo em Relações Internacionais, área em que acaba de se formar. As esperanças aumentam.

Um clichê diz que as francesas são safadas refinadas. A experiência deste blogueiro no assunto mais que confirma essa ideia. Pode ser uma experiência estatisticamente insignificante, mas pesquisa americana do Boston Consulting Group, realizada em 2008 com 12 mil mulheres de 21 países, resultou na mesma conclusão. No geral, uma a cada quatro mulheres disseram que sexo as fazem “extremamente felizes”; na França, duas a cada três.

Então vamos ao “refinadas” do clichê.

Do lindo bico de pato saem lindas palavras e línguas perfeitas. O francês você acompanha num diálogo de 200 metros rasos. No inglês vocês correm 1500. A partir daí o assunto cai em história dos séculos 19 e 20 e você tenta correr uma maratona em espanhol, sempre esbaforindo, sempre muito atrás dela.

Todas as línguas

A sua sorte é estar em ano sabático e ter se empolgado em estudar história. Mais que isso, história europeia recente, a partir do que uma estranha informação como a sequência de presidentes franceses desde Charles de Gaulle está fresca na sua cabeça. A linda francesa simpatiza com o brasileiro esforçado e acha que vale a pena dar para ele.

Aqui, claro, chegamos ao “safadas” do clichê.

A maior das safadas não é a que abre o zíper desesperadamente, mas a que sabe ter todo o tempo do mundo para as estripulias da alcova. Você tenta apressar os acontecimentos antes de viajar (em algumas horas está indo a Berlim), mas ela apenas o beija o suficiente para que você viaje afoito e volte logo.

– Vous brésiliens, vous parlez avant le sexe?

“Vocês brasileiros, vocês falam antes do sexo?”, ela pergunta. Você foi a Berlim, voltou correndo e está com ela em um quarto só para dois do albergue de Bruxelas. Ela o trata como um bebê grande. Uma safada refinada exigindo que você gaste todas as línguas, e mais não conto porque sou tímido com descrições textuais de sexo.

Vapor etílico

Semanas depois, você está num inferninho em Praga, República Tcheca. Por motivos diversos, não para de brigar com uma brasileira com quem está ficando. A cerveja é mais barata que no resto da Europa. Um copo de meio litro em plena balada sai algo como R$ 2,70, e vários copos seguidos potencializam a desavença toda com a brasileira.

Na mesa com vocês estão uma francesa e um inglês apenas mais ou menos juntos. Conheceram-se há algumas horas, trocaram alguns beijos. A francesa é arisca. Está viajando solta pelo mundo e não gostou do estilo lambão-apaixonado do inglês. Não é linda como a outra, a do conto erótico do Multishow, mas sim, é safada.

Mais que umas olhadelas cruzadas, ela te joga algumas frases em francês para que os outros não entendam. Sob aquele vapor etílico todo você também não entende muita coisa, mas a palavra “toilette” parece estar ali no meio.

Será que você ouviu direito?

Sim. No que você está no mictório, a francesa abre a porta de uma casinha do banheiro (sim, do banheiro masculino, que ela invadiu) e te chama. “On a pas beaucoup de temps” (“A gente não tem muito tempo”), diz. Essa é das que abrem zíperes desesperadamente. Talvez isso não diga muito a favor do refinamento, mas enfim.

Você é tomado de sensações diversas: a de que se dane a brasileira; a de que coitado do inglês, parecia tão gente fina; a de que fazer isso está vagamente errado, mas com certeza tem muito a ver com o que queremos dizer quando falamos em aproveitar a vida. No final das contas dane-se, vale a pena.

Tudo terminado, ela pergunta:

– Pourquoi tu n’invite pas ta copine pour venir ici?

“Por que você não convida tua namorada para vir aqui?”. Explico que a brasileira não é minha namorada e que, ainda mais pelo clima de briga em que a gente está, ela não faria isso. De qualquer maneira, vou lá e pergunto se ela não topa. Nisso claro, ouço alguns impropérios de volta.

Se ela topasse, seria muito clichê para uma noite só.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to VIVAM OS CLICHÊS

  1. Kelly Kill says:

    Me lembrei do bom e velho Henry Miller

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