Pirão saimosdofacebook

Publicado em junho 17th, 2013 | por Roberta Ávila

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A 1ª MANIFESTAÇÃO DA GERAÇÃO Y

Acompanho pelo Facebook dezenas de amigos que participam das manifestações contra as passagens em São Paulo.

As postagens são emocionantes, corajosas, orgulhosas. São meus amigos na rua pela primeira vez, lutando por uma São Paulo melhor. São Paulo em que praticamente nenhum deles nasceu, mas que todos amam (e odeiam). As pessoas postam seus endereços próximos a locais de confronto e afirmam: se tiverem problemas venham para cá, todos são bem vindos.

Nunca na minha geração vivi essa experiência. Nunca antes meus amigos estiveram sujeitos a tiros de balas de borracha, nunca antes relataram que a multidão grita “sem violência” e recebe em troca bombas de gás lacrimogênio. Nunca antes os mesmos amigos abriram suas casas a manifestantes em fuga. Citam até o Hino Nacional para dizer que não fugirão à luta. E eu aqui, tão longe.

Entrei no site do Estadão e da Folha para ver mais informações desse momento histórico e sem querer meu olhar vaga para uma caixinha que diz “comentários recentes”. É um pecado sem tamanho ler comentários sobre assuntos polêmicos na internet. Sempre há quem defenda as coisas mais absurdas e ataque as mais belas usando tamanha ignorância e agressividade que dá vontade de abolir a internet, só para que essas pessoas não tenham onde destilar seu veneno horrendo (e muito menos onde encontrar seus pares, coisa extremamente perigosa).

Eis que os últimos cinco comentários no Estadão xingam os manifestantes. Dizem que a polícia deveria ser ainda mais agressiva e que é um absurdo essa manifestação. Quem são essas pessoas?! Quem são esses seres que acham que se manifestar por um transporte público acessível é indigno?

Um dos contos de Julio Cortázar publicados no livro Bestiário chamado “Casa Tomada” relata uma história que se aplica a São Paulo. Dois irmãos vivem em uma casa ampla e que eles adoram. Eles cuidam da casa e curtem cada cômodo. Um dia, sem mais nem menos, uma parte da casa é tomada. Em seguida outra e outra. Até que os irmãos se veem expulsos de casa, com uma mão na frente e outra atrás. Em nenhum momento Cortázar revela o quê ou quem tomou a casa, apenas o fato dela ter sido tomada e o conformismo dos irmãos, que vão abdicando das partes tomadas como se fosse a única coisa que pudessem fazer.

Pois bem, São Paulo é uma cidade que foi tomada. Nos últimos 15 anos o trânsito da cidade foi se tornando cada vez mais intransitável. Mudei de cidade para fazer faculdade e quando voltei, em 2008, costumava parar o carro depois de mais de uma hora no trânsito, para esperar que a coisa voltasse a andar, me perguntando como a situação tinha piorado tanto em apenas quatro anos e como as pessoas achavam aquilo normal.

É ridícula a velha afirmação de que brasileiro ama carro. Não é amor a carros, é pavor do transporte público

Vivemos no Brasil um fenômeno em que os carros se expandem com tamanha velocidade e quantidade que as cidades se tornam grandes estacionamentos e congestionamentos. Onde estacionar o carro é a grande questão, seja para ir à padaria, a um show ou ao trabalho. Comércio é fechado, prédios históricos são demolidos porque estacionamentos são mais lucrativos. A outra grande questão é como escapar das imensas filas que se espalham pelas cidades. São Paulo, Rio, BH, Porto Alegre, Florianópolis… Cidades tão lindas, tão intensas, com vistas deslumbrantes, estilos únicos. E tão impossíveis de transitar.

É ridícula a velha afirmação de que brasileiro ama carro. Brasileiro não ama carro, brasileiro depende do carro para ir e vir com segurança e tranquilidade. Já que o transporte público é ruim, indigno e caro, é melhor comprar um carro. Com a ascensão da classe C e D e uma política pública que só enxerga carros, não pessoas, muitos fazem sacrifícios para comprar seu carro, escapar da saga sem fim dos ônibus que mais parecem latas de sardinha em que todos trafegam absolutamente desconfortáveis e sem segurança. É prioridade escapar dessa rotina terrível para muita gente. Não é amor a carros. É pavor do transporte público.

Não pode ser normal passar quatro horas no trânsito todos os dias. Não pode. A prefeitura de São Paulo viu essa situação evoluir ao longo dos anos e não fez nada. Não fez trem de superfície e inaugurou apenas meia dúzia de estações de metrô que já começam a funcionar atendendo uma demanda superior à sua capacidade. Não existe duplicação de via ou construção de corredor de ônibus que resolva o transporte numa das maiores cidades do mundo em que os ciclistas e pedestres são violentados e o carro é a única opção.

O direito de ir e vir é um dos mais fundamentais do ser humano. Está diretamente ligado à ideia de liberdade. Ser livre para ir como quiser, aonde quiser, como quiser. Assim também é o direito de se manifestar. Não há ser humano que seja capaz de viver sem manifestar seus sentimentos e ideias, seja de que forma for.

Recentemente, em férias, acompanhei em Berlim uma manifestação a favor de alimentos orgânicos. Garoava e a massa se aproximou de uma das principais ruas da cidade com guarda-chuvas coloridos, faixas, música e enquanto alguns caminhavam tranquilamente, outros dançavam e a polícia acompanhava ao lado, tranquila. Era lindo de ver. Assim como é lindo saber que finalmente os moradores de São Paulo cansaram de não reagir. Quem sabe depois tomem as ruas exigindo trem de superfície, metrô, ciclovias, transporte de qualidade com opção e preço justo, afinal quem paga uma das maiores cargas tributárias do mundo merece ir e vir em paz.

Não ter carro é um luxo que o brasileiro ainda não compreende. Mas um dia vai compreender. Assim como as pessoas vão sim entender que os 20 centavos de que tanto se fala são apenas um estopim. Manuel Castels estava em SP no dia da manifestação de quinta, a mais violenta. Recomendo muito a leitura do que ele escreveu sobre o assunto.

No Brasil, na Turquia ou na Grécia não nos sentimos representados pelas instituições democráticas, mas desrespeitados por elas

Castels disse que a questão em São Paulo não é sobre o transporte. Esse é só o fato que traz à tona uma indignação maior que revela que os cidadãos do mundo, seja aqui, na Turquia ou na Grécia, não se sentem representados pelas instituições democráticas. Se sentem desrespeitados por elas. E por isso a manifestação assume vários motivos, conforme cada pessoa se sente.

“O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais”, disse Castels.

Quem sabe um dia São Paulo seja só motivo de amor e de orgulho, um lugar que pessoas do mundo inteiro queiram conhecer pela vida cultural, pela noite, mas também porque vão poder usar o transporte público, excelente, sem pensar duas vezes. Quem sabe um dia o ódio pelo trânsito interminável fique para trás junto com a lenda do amor dos brasileiros por carros. Quem sabe um dia eu diga a meus filhos “já levei duas horas para ir da Consolação até Pinheiros” e eles riam e achem isso ridículo e passado demais. Vou contar então das manifestações, das balas de borracha e do gás lacrimogênio. Dos amigos que abriram as casas para abrigar outros amigos, manifestantes. E eles vão ouvir como eu ouço sobre a Segunda Guerra Mundial. Sem conseguir conceber que aquilo tudo seja verdade, mesmo sabendo que é.

Não custa sonhar. Ver que o mundo inteiro manifesta apoio a essa causa é tão bonito faz até pensar que, apesar de todos os pesares, ainda podemos sonhar juntos.

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Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



One Response to A 1ª MANIFESTAÇÃO DA GERAÇÃO Y

  1. ricardo bevilacqua says:

    Cara Roberta,

    Apesar de certo tom ingênuo — que gostaria de fazer de uma manifestação contra o Estado uma passeata de guarda-chuvas coloridos — o seu texto está muito bonito. O que não me agrada é essa pequena referência pejorativa aos partidos, pensando que eles foram superados pela internet. É preciso lembrar o que eles fizeram pelo Brasil até os dias de hoje; o próprio PT, hoje um capacho da globalização, foi outrora um partido revolucionário, que incentivava a mesma sorte de luta que agora estamos vendo. Hoje, partidos como Psol e o Pstu lutam diariamente suas lutas invisíveis, que podem parecer pequenas em momentos como este, não obstante existam e sejam muito importantes para certos setores da sociedade que se organizam mediante greves e outros protestos. Critico esse seu tom porque, no fundo, vivemos numa situação democrática que depende dos partidos, e postular um mundo onde eles já não sejam necessários para as mudanças políticas profundas — pelo menos por ora — é um anseio libertário “pequeno burguês”, para dizê-lo em termos marxistas; é algo que revela pouca consciência política, pois ainda são os três poderes que decidem a vida do país. Por que nas próximas eleições todos nós, os manifestantes, não elegemos alguém que possa nos representar? Crer que não haja ninguém com vontade de trabalhar seriamente na política, pois, é entregar-se ao mesmo derrotismo que nos impele a desistir das manifestações. Essa é a crença que a “burguesia”, acostumada a todos os tipos de barganha, quer que compremos. Há, porém, muitas pessoas honradas nesses partidos que citei que ainda podem fazer muito pelo Brasil, contanto que lhes demos a oportunidade. Eles o fazem diariamente, em péssimas condições, mas motivados por um idealismo nobre que se justifica toda a vez que o povo se levanta como tem feito agora. Em suma, só queria dizer que embora “o poder imbecilize”, como afirmava Nietzsche, ainda há partidos que não foram imbecilizados e que, por seu desapego e seu sincero amor à causa do povo, merecem uma oportunidade.

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