Pirão judt

Publicado em agosto 16th, 2010 | por Revista Naipe

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A HISTÓRIA MAIS TRISTE

Mesmo com doença progressiva diagnosticada em 2008, historiador Tony Judt continuou publicando

Por Thiago Momm

16/08/10

No seu último livro, Reflexões sobre um século esquecido – 1901-2000, o britânico Tony Judt lamentou o desaparecimento dos intelectuais – e agora ele mesmo, um dos maiores historiadores contemporâneos, se foi.

Sim, Judt sabe que o termo se tornou pejorativo. O dicionário Houaiss tem seis definições neutras ou positivas para “intelectual”. Entre elas, “aquele que vive predominantemente do intelecto” e “que domina um campo de conhecimento ou que tem muita cultura geral; erudito, pensador, sábio”.

Um dicionário que ousasse traduzir o senso comum atual, no entanto, provavelmente também diria: “Desajustado que gasta energia demais refletindo e perde as melhores coisas da vida” ou algo assim. Pelo menos é o que se pode deduzir de reality shows como Beauty and the geeks e seriados como The big bang theory, em que os intelectuais parecem, nos melhores momentos, bobos simpáticos dignos de comiserativos cafunés.

Mas nem é do intelectual desse tipo de programa – sujeitos cultos de óculos que torram permanentemente os neurônios com esquisitices – que Judt fala no seu livro. Os intelectuais que lamenta terem “desaparecido nas três últimas décadas do século 20” eram os que influenciavam a sociedade e a política dos seus países, e às vezes além, a partir do seu engajamento em ideias, dogmas, projetos.

“Em Estados onde a oposição pública e a crítica eram (são) reprimidos, intelectuais assumiram de facto, individualmente, o papel de porta-vozes do interesse público e do povo, contra a autoridade e o Estado”, escreveu. É fácil esquecer aspectos positivos assim e ridicularizar engajamentos políticos antigos que depois se mostraram equivocados.

Livraços

Tony Judt é uma leitura ideal para universitários. Na universidade, o estudante tem uma tendência de acumular muito mais opiniões que informação – até por culpa de professores exaltados demais. Judt vai na contramão disso. É claro que tem suas convicções, mas elas nunca estão acima dos fatos devidamente contextualizados. Mesmo Eric Hobsbawn, hoje com 93 anos e apontado pelo próprio Judt como o historiador mundial que “não só sabe mais como escreve melhor”, mantém cismas comunistas a ponto de tornar, de vez em quando, um pouco viciado o que diz e publica.

O livraço de Judt Pós-guerra – uma história da Europa desde 1945, um tijolo de 848 páginas com fonte tamanho 7 ou 8, merece ser tão lido quanto o cult-que-se-tornou-relativamente-pop A era dos extremos, de Hobsbawn.

Além de Pós-guerra, Judt tem outros dois livros traduzidos para o português (em inglês, são sete livros significativos publicados). No menos recente, Um passado imperfeito – um olhar crítico sobre a intelectualidade francesa, Judt aponta poréns de figuras como Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir. No mais recente, Reflexões sobre um século esquecido, Judt reconhece esses poréns mas, como mencionado aqui, lamenta o desaparecimento de grandes pensadores. Os 24 ensaios do livro se dedicam a isso e a reflexões sobre o enfraquecimento do Estado ou nossa arrogância de esquecer as lições do século 20 descartando-o como uma era de “extremismos políticos, erros trágicos e escolhas equivocadas”.

“Somos céticos, quando não ostensivamente desconfiados, de todos os objetivos políticos abrangentes: as grandes narrativas da Nação, História e Progresso que caracterizaram as famílias políticas do século 20 parecem ter sofrido um descrédito irreversível. Por isso, descrevemos nossos propósitos coletivos em termos puramente econômicos – prosperidade, crescimento, PIB, eficiência, produção, taxas de juros e desempenho do mercado de capitais – como se esses não fossem apenas meios para atingir metas sociais e políticas, e sim objetivos necessários e suficientes em si”, escreveu Judt, pisando no calo neoliberal.

Recentemente, Tony Judt estava mais lúcido que nunca, dando diversas entrevistas, mesmo rapidamente consumido pela esclerose lateral amiotrófica. A doença foi diagnosticada em 2008. No ano passado, retirou seus movimentos do pescoço para baixo, e, no último dia 6, o matou aos 62 anos.

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