Pirão varandas_sinuca (6)

Publicado em setembro 21st, 2012 | por Diogo Araujo da Silva

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A INTELECTUAL LAGOA

Ela tinha a explícita aura dessas moças extremamente duras e que não deixam passar um gesto sem o tornar expressão de algo maior, uma espécie de conceito, na verdade um traço forte de suas personalidades.

Percebi que se tratava dum desses tipos que vive à flor da pele, ao menos para provar o seu tipo, claramente feminino, as suas liberalidades e selvagerias acentuadas ousadamente para o viril, como se a toda hora tivesse de aderir aos  consensos dizendo: “Sim, sou mulher, mas não ouse me chamar para um desafio de resistência, de glutinice, de sarcasmo que o senhor ou os senhores certamente sairão perdendo.” Havia um quê defensivo nas silenciosas ocupações da intelectual que encontrei bebendo na Lagoa da Conceição.

Frequentemente estas moças não percebem que genuínos companheiros – e companheiras – de bar jamais aceitam uma peleja fácil. No boteco, as psicologias são pelo menos tão resistentes quanto ativas ou artísticas. Quando alguém parece a toda hora estar prestes a botar todos os seus dotes de sonâmbulo na mesa o mais certo é que é hora de pagar a conta e ir embora.

Mal percebia ela que também os machos, para tipos como os dela, continuam condescendentes. Dão-nos todas as fichas, obrigam-nos a tanto: quem escuta é quem autoriza. Mas se o mote era poesia, ela citava Pessoa e Pessoa e Pessoa, se o mote era samba, ela esganiçava (a meu ver desrespeitosamente) o Paulinho da Viola, se o assunto era futebol ela se contorcia em dribles imaginários e visuais parecendo ser capaz de bater na mesa e tornar tudo definitivo soltando um belo arroto de gol. “Que podemos fazer, que movimento nos é permitido, diante de um macho tão evidente?” –perguntávamo-nos, os homens, aos olhares.

Mal percebia ela que também os machos, para tipos como os dela, continuam condescendentes. Dão-nos todas as fichas, obrigam-nos a tanto: quem escuta é quem autoriza

Quando, por um pedido geral, certa música antiga foi tocada em um volume mais alto, nossa amiga, certamente por desconhecer a canção, ficou quieta, perturbadamente absorta. Ficou reduzida a si, desarmada, obrigada a ser passiva, espectadora.

Mas havendo tempo para que se recompusesse, pude perceber que a moça tinha ainda mais qualidades para ocupar o cargo de Intelectual Lagoa. O canal de defesa desse tipo costuma ser um só, desembocar em um só lugar, como um filtro inerente ao significado de todos os seus movimentos refletidos, voltados ao exercício livre da emancipação: “Sou à flor da pele; sinto desejo intenso; o sexo para mim é um ramo artístico; meu hedonismo é inevitável e imprescritível. E, depois daquilo tudo, escrevo poemas, pinto aquarelazinhas.”

Pensei em dizer-lhe, ou melhor, em imprimir em uma camiseta para sair às ruas do centrinho e ir a todas as baladas da Lagoa com a consciência limpa, a seguinte boa velha nova: “Depois do gozo, o diabo também pode rezar.”

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



3 Responses to A INTELECTUAL LAGOA

  1. Luiz Hebeche says:

    Bela crônica, Diogo. Agradável de ser lida. Você sonda as personagens do centrinho; na Lagoa, ultimamente as persongens feniminas de que costumo falar são as tainhas, as anchovas e as corvinas. Saudações, Luiz Hebeche.

  2. ERICSON DEMARCHI says:

    Sensacional!

  3. Tonho Martins says:

    Aguarde que as balzaquianas do ”estreito ” vem aí” cheia de experiencia e empirismo, com suas magrelonas, seus corpos yogados e loucas para testar os seus pompoarismos, que contrai tanto na base do malabarismo….( versão moderna do sado -masoquismo.)

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