Pirão amudançamobiliaria

Publicado em setembro 23rd, 2013 | por Julian Brzozowski

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A MUDANÇA MOBILIÁRIA

A casa parecia perfeita.

Sua metade restante (sendo a primeira ocupada pela família da tia já velha [meio gorda meio estranha] de dentes amarelados [02 salas conjugadas, 01 cozinha, 02 banheiros {sendo 01 da suíte}, 03 quartos {sendo 01 suíte}]) contava com cômodos o suficiente para todos os colegas de banda e suas salas de produção/escritórios individuais. No entanto, o obstáculo-mor de aquisição final encontrava-se não em questões financeiras – tampouco nas burocráticas – mas antes no negócio intra-familiar: pois o proprietário era o tio: não o tio da família que lá morava: o tio rico (o que lá morava era o tio pobre). O tio rico pergunta, com sorriso freado e voz trêmula, inquisidora, quem ia morar ali e como iam pagar e o que iam fazer e o que iam consumir—

A pessoa a ser consultada sobre todos os perrengues acima listados era o irmão. E que lugar escolheram os infelizes pra conversar! No auge da longuíssima escadaria duma arruinada e meio mofada estrutura grega, no topo de cá do deslize do vale de onde ouviam, os dois, os ecos da voz perdida do pai. No topo de lá, o horror: um antigo (bem antigo) e enorme (gigantesco) oráculo falido, cuja campana de bronze oscila no nível da água! Como se a vertigem inebriante do serpenteio do olhar dali do topo de cá (o da escadaria) até o topo de lá (o do oráculo), cortando os morros, não fosse suficiente, o volume da imensidão do vale se faz sentir pelo corpo todo: estão debaixo d’água!

Infelizmente, a claustrofobia, seja ela social, inter-pessoal ou de facto física (parece que, de alguma forma, como que numa última peçonhenta afronta, agora chove dentro do vale [sim, dentro do vale, dentro da água]), nunca morre: do irmão burro não vem nada; do pai distante só ecos de história.


Sobre o Autor

Necrófago, vigia diurno, capelão e torniquete; não enxerga diferença entre picolé de milho e margarina no palito.



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