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Publicado em setembro 6th, 2013 | por Nathan Mattes Schäfer

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A SERRAGEM E O CASAMENTO

Pouco menos de duas semanas atrás estive procurando fotos antigas para entregar a minha namorada, em vésperas de viagem para a França.

As fotos, separadas e esquecidas em cima da escrivaninha, acabaram servindo a outro propósito: reavivar uma lembrança gasta, daquelas que permanecem em alguma caixa empoeirada dentro de nossa cabeça, sem que demos por conta. Mas, basta uma chave, uma faísca, para que a ignição aconteça.

A chave, para mim, foi uma daquelas fotos do tempo em que o futebol era o centro de nosso universo. Nela, estamos agachados eu e André. Em pé, Icaro, Dionísio e Gleison. O registro é de novembro de 1999, quando eu e André ainda não tínhamos uma década; Icaro doze; Dionísio e Gleison, dezesseis. Falta apenas Tiago, que sempre jogou conosco, mas que, por qualquer razão, não está ali.

Apesar da diferença de idade, gastávamos tardes inteiras jogando futebol no campinho de serragem que ficava nos fundos da casa de meus pais. A serragem, fornecida pelo pai de Gleison, dono de uma fábrica de móveis.

Ah, aquele campo de serragem. Desde que tivéssemos número necessário para jogar no campinho, empecilho algum. Mesmo no inverno, que em Erechim regula em temperaturas próximas às negativas, o futebol de sábado e domingo não parava.

Lá, descobrimos o chute Folha-Seca; arriscamos os primeiros elásticos; aprendemos a não bater de bico; a cabecear e tocar de primeira. Mas, ainda que o aprendizado futebolístico tenha sido produtivo — Icaro e eu chegamos perto de uma carreira — o que realmente ficou foram os valores.

Do pouco que sei sobre a vida, aprendi com eles. O resto foi confirmação ou cristalização de valores e experiências por que já havíamos passado. Posso citar a vez em que, cansado do oportunismo de Icaro, sempre na chamada “banheira”, tomando a bola em frente à goleira e marcando, juntei um punhado de serragem e joguei nos olhos de meu primo. Assim que ele recuperou a visão, é claro, apanhei. Ou quando fui visitar meus avós, no Centro, e levei comigo a bola, sem ligar para os protestos, sendo hostilizado durante duas semanas.

Do pouco que sei sobre a vida, aprendi com eles. O resto foi confirmação ou cristalização de valores e experiências por que já havíamos passado

André, por exemplo, aprendeu que sacrifícios são necessários: perdi a conta das vezes em que ele mastigou formigas para que Gleison jogasse. Não parece existir relação entre coisa e outra, mas era uma das exigências de nosso primo mais velho. Eu ficava encarregado de comer a ração do Guri, um gato amarelo, gordo e insano que morava na casa de minha vó Angelina.

Corríamos, pulmões e narizes ardendo, por uma, duas, três, quatro horas. E era o sol sumir de vez para subirmos escadas, tomar banho e continuar o jogo em meu Super Nintendo, no Mega Drive de André ou no Playstation de Gleison.

De 1999 para cá, passaram bons quatorze anos. A casa foi vendida, o campinho virou estufa, o vento levou a serragem ou algumas camadas de terra podem estar lá, por cima dela. O casamento de Gleison, em janeiro próximo, está aí para atestar: o tempo passa e nós ficamos.

— Mas, que tem a ver campinho de serragem com casamento?

Talvez porque o convite estivesse embaixo das fotos, o texto que começou relembrando tardes de futebol tenha desaguado no casamento de meu terceiro ídolo de infância — na frente de Gleison, apenas Romário e meu avô.

É como a frase que minha mãe acaba de soltar, na tentativa de auxiliar no arremate do texto e parafraseando D2 sem perceber:

— Diz que faz tempo que vocês saíram da serragem, mas que nunca se esqueceram dela.

Faz tempo que saímos da serragem, mãe, e ela insiste em permanecer conosco.

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Sobre o Autor

Escreve em cadernos sem pauta, remendando até não poder mais. Acredita na salvação em Pedro Páramo e na vida como caminho ondulante: "sube o baja según se va o se viene. Para el que va, sube; para él que viene, baja."



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