Pirão nordicos_dentro

Publicado em outubro 9th, 2011 | por Thiago Momm

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A VIA DO MEIO

Em seis anos de graduação na UFSC, não ouvi falar muito nos nórdicos.

Foram dois anos de Direito e quatro de Jornalismo, com aulas de sociologia, ciência política, economia e outras disciplinas ligadas à história mundial.

Ouvi muito sobre extremos de socialismo e capitalismo. De mundos ideais ou perdidos. Sobre o estado de bem-estar social europeu escutei pouco. E menos ainda sobre o estado de bem-estar social dos países nórdicos, exotismos que vinham à tona muito raramente e em forma de desdém: as altas taxas de suicídios, uma suposta perfeição aborrecida e indesejável, um modelo de sociedade louvável mas impossível de se aplicar ou adaptar por aqui.O assunto “países nórdicos” é desagradável, esnobe. Se for mencioná-lo, fale daquele filandês emaconhado e cachaçado com quem você conversou num ensaio do Olodum no Pelourinho. Fazia 42ºC, o gringo suado cor cereja sambava de alpargatas e cheirava o cangote de uma bunduda. “No final das contas eles querem mesmo é ser como a gente. A gente tem a alegria que eles não têm”. Dizemos coisas assim e seguimos em frente.

Suécia + sol

Na universidade tudo parece seguir mais ou menos como há alguns anos, pelo que me contam alguns alunos: muitos professores insistem nos extremos, gerando eufóricas divisões ideológicas – outro dia, ouvi alunos do Direito desqualificando colegas de curso como “os comunistas”. Até que mais tarde todos eles, formados, pensarão parecido, compartilhando a mesma descrença na nossa política e população.

Mas por quê? Por que nem ao menos tentar se inspirar em um dos melhores resultado sociais já obtidos até hoje na realidade? Estamos falando de um exemplo palpável, afinal. Então cismei com isso e passei a ler bastante sobre os países nórdicos após conhecer a Dinamarca e a Suécia, há dois anos.

Na década de 1930, o americano Marquis Childs lançou a fórmula “Suécia, a via do meio”. Conta o quinto volume da série francesa A história da vida privada que o país passou a ser considerado, desde então, a “utopia materializada”. Em 1964, o presidente francês George Pompidou definiu seu ideal sociopolítico como “a Suécia com um pouco mais de sol”.De qualquer maneira, os suecos não gostam de deixar o país em maio e junho, aproveitando suas 24 mil ilhas e seus 96 mil lagos. A noite, que no inverno chega antes das 16h (a foto acima foi feita por aí), no verão só chega lá pela 1h.

Apoiada pelo Estado, a igreja luterana promoveu no país, a partir de 1686, uma ampla campanha de ensino para que todos os fiéis aprendessem “a ler e ver com os próprios olhos o que Deus ordena e comanda através da sua Palavra sagrada”. O resultado: a despeito da forte conexão estabelecida com a igreja (sua separação oficial do Estado só ocorreu em 2000), 80% dos suecos já sabiam ler em meados do século 18, um índice muito acima de países como a França.Antes de 1914, a educação já era universal e abrangente na Suécia e seus vizinhos. Em 1946, se torna obrigatório nas farmácias suecas a venda de diferentes contraceptivos. Na década seguinte, é oficializada a educação sexual. O país, conhecido por ser permissivo (suecas libertinas viajando juntas não existem apenas na imaginação onanista planetária), já em 1964 ganha uma versão feminina da Playboy.

Pobres

Diversos outros motivos contribuíram para o desenvolvimento dos países nórdicos. São muitos e complexos, mas aqui cabem mais alguns. Em 1809, a constituição sueca (naquele tempo, também norueguesa) criou o sistema do ombudsman, porta-voz entre população e governo (mais tarde, mundo afora, também entre clientes e empresas). Foi instituído até mesmo, em 1973, um ombudsman para a infância, a partir do que a voz das crianças passou a ser oficialmente escutada. Para implementar as mais variadas medidas o país, aliás, sempre contou com grandes pesquisas públicas.

Para os que apregoam a generalização da vida franciscana, vale dizer que o êxito material, naquelas bandas, é “socialmente valorizado, como nos EUA”. Mas ao mesmo tempo as declarações de renda se tornaram passíveis de consulta por qualquer um; a denúncia de fraudes fiscais foi “quase institucionalizada”; os lucros privados são taxados e redistribuídos “implacavelmente” em benefício público.

Em Pós-guerra – uma história da Europa desde 1945, Tony Judt menciona outra vantagem escandinava: “Ao contrário de quase todos os demais partidos socialistas ou socialdemocratas no restante da Europa, os socialdemocratas escandinavos não foram afetados pela antipatia instintiva voltada às regiões rurais, tão característica da esquerda europeia, em virtude da observação de Marx quanto à ‘idiotice da vida rural’ e à aversão de Lênin aos kulaks”.E segue: “No futuro, essa aliança entre trabalhismo e agricultura – facilitada pela rara independência dos camponeses escandinavos, reunidos em fervorosas comunidades protestantes livres da tradicional subserviência rural ao padre ou ao senhor da terra – formaria a plataforma sobre a qual seriam erigidas as melhores democracias sociais da Europa.”
O exemplo nórdico é ainda mais impressionante se levado em conta o fato de que a depressão dos anos 1930 também ventou forte por lá. O desemprego foi crônico, com 40% de adultos desempregados na Dinamarca e na Noruega. Mesmo historicamente a Escandinávia podia, diz Judt, ser considerada pobre – “uma região com florestas, fazendas, comunidades pesqueiras e um punhado de indústrias primárias”.

E onde está a virada? Em ter se livrado do radicalismo que ainda afeta, em 2011, uma parte dos nossos professores: “Se no período entre as duas guerras a Escandinávia – principalmente a Suécia – não seguiu a trilha de outras sociedades economicamente deprimidas e situadas nos limites da Europa, o crédito, em grande parte, pertence aos socialdemocratas. Depois da Primeira Grande Guerra, os partidos socialistas escandinavos, de certo modo, abandonaram os dogmas radicais e as ambições revolucionárias anteriormente compartilhadas com os movimentos germânico e socialista da Segunda Internacional; e, ao longo da década de 1930, tais partidos começaram a buscar uma conciliação histórica entre capital e trabalho.”

Coisa feia

Mas há, como sempre, algo vergonhoso. E mais vergonhoso que o matador norueguês que deu cabo de 77 pessoas em julho deste ano, um nacionalista possível em outros países, não só no de melhor IDH do planeta. Falo de algo mais antigo. Conta Tony Judt que, entre 1934 e 1976, programas de esterilização foram desenvolvidos na Noruega, na Suécia e na Dinamarca, sempre com o conhecimento dos governos socialdemocratas. Foram 6 mil dinamarqueses, 40 mil noruegueses e 60 mil suecos (90% mulheres) esterilizados com propósitos “higiênicos”, para “aperfeiçoar a população”.

Vergonhoso, e nenhum ombudsman investigou tudo isso. Por essas e outras razões, o mito sueco começou a cair em descrédito a partir dos anos 1970: “Racismo, xenofobia, suicídios, alcoolismo, o modelo sueco não cumpriu suas promessas”, diz artigo do quinto volume de História da vida privada.

Bem, à parte essas questões e a lástima sem tamanho da eugenia praticada, o que se vê por lá hoje ainda se parece com a tal “utopia materializada”: museus espetaculares, paisagens idem e pessoas excepcionalmente conscientes do que é viver em sociedade, com as centenas de benefícios que isso implica – grande parte dos quais ignoramos por aqui.Então o exemplo não deixa de ser válido. Todos os países nórdicos estão entre os melhores IDHs do planeta. Merecem, portanto, ganhar um pouco do espaço do velho e simplificado embate socialismo-capitalismo nas salas de aula.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to A VIA DO MEIO

  1. Emilio Guerreiro says:

    Parabéns pela idéia central da produção.
    Acredito que tomar como referência países com sociedades mais conscientes é o primeiro passo para evoluir nossa convivência em grupo.
    Ainda, acredito ser possível tomar essa iniciativa dentro do nosso próprio círculo social, com atitudes locais que, embora centralizadas, se realizadas pela massa terão um alcance comunitário maior.
    Quem sabe o próximo passo seja criar [ou ao menos ponderar] paradigmas concretos destes atos e formas de pensar em conjunto com a sociedade, e não esperar isso das – falidas – instituições de ensino, que deveriam ser vanguardistas sobre o assunto.

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