Pirão shera

Publicado em maio 28th, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

1

A VOZ DE SHE-RA

para SBS

Perdoem-me se a princípio eu soar batido: você é de Marte e em sua primeira visita à Terra encontra um homem contemporâneo, um macho, sozinho ou com seu círculo de compadres.

Conselho: mesmo sem saber o que é, faça um comentário sobre viado ou uma mulher “cavala” e, se você escolher palavras relacionadas, em 99,999% dos casos acertará em cheio o grande alvo que abre a flor do bom humor do ente em questão. E mais do que isso: você ganhará um amigo, alguém que estará do seu lado, pois, quase sem querer, você deu o primeiro passo para a conquista da tão criminal e charmosa cumplicidade masculina.

Não espere pela inspiração. Não espere pela novidade. Apenas faça a piada que sabe que funciona e fique quieto. Aliás, ria. Aliás, gargalhe: estude, ensaie uma gargalhada. Relaxe e siga o fluxo. Você não precisa fazer esforço para ser considerado o engraçado da turma. Deixe isto para outro grande homem. A hora de rir é sempre a mesma, mas as invariações serão infinitas.

É muito simples. Tudo é uma questão de estar a salvo. Nossos machos ganham dinheiro. Também fazem sociologia. Treinam seus filhos em várias habilidades manuais que fazem parte da cartilha de gozo e satisfação com a posição de macho humano no planeta Terra. É impossível enganar ou encurralar este macho, pois ele próprio te garantirá repetidas e repetidas vezes a existência de uma barreira mística intransponível a vigiar 24 horas por dia a sua intocabilidade, expressa, talvez simbolicamente, na intocabilidade de seu próprio ânus. “Sei me defender! Eu sou eu! Morro, mas não dou o cu!”

Ah, meu caro machão! Eis meu ponto. Eu acho que você anda se descuidando. Vendo de perto todas as tuas atitudes, tua visão de mundo, teus valores e, principalmente, a falta de limite para o teu ego (a fantasia da inteligência), vejo que tanta expansão do teu sentimento de segurança vai é acabar em traição, ou em outras, palavras, vejo que muita, mas muita, mas muita gente mesmo faz o teu cu não uma, mas inúmeras vezes, a hora que bem quiser.

Meu amigo marciano anda te estranhando. Você é um paga pau absoluto de muitos machos – ainda que muitos deles coincidentemente ausentes. Eles fazem o que quiserem com teu traseiro porque a parte a princípio mais determinante do teu corpo, a cabeça, já fizeram há muito tempo, e pela razão simples de te poupar do trabalho de construir uma vontade própria.

O pau do macho é seu grande totem. Ergue-se naturalmente para as horas devidas. E pronto. Peça para ele fazer circular o sangue da cabeça de cima e será inútil. Peça palavra de novidade para o homem contemporâneo e tenderás ao nada

Tu não sabes educar teus filhos, já que é óbvio que apenas repetes para alguém inocente truques do mocinho que diante dos teus ídolos nunca serás; tu preenches uma conversa com clichês de opinião política que se repetem pela história inteira, como uma vaidade; tu temes silenciosamente homens calados formados em filosofia e não sabes dizer porquê e é porque tu sabes que tu deves muito e não é ao mundo, mas à tua autenticidade, de ti pra ti. A miséria humana é o patrimônio mais inatacável do homem contemporâneo. E, além disso, este não sabe nem olhar para o próprio pau.

Senão, vejamos. O que pensa o homem sobre o seu mais determinante instrumento? Repare bem, meu amigo marciano. Por alguns instantes vasculhemos a eventual atividade cerebral do macho, do trabalhador, do escravo, do artista, do viajante, do patrão, do corajosamente covarde homem contemporâneo.

(O macho ri das piadas feitas pelos seus superiores, ou das piadas que seus superiores estão rindo, mesmo que só tenha ouvido o final. Como? Haja autoconfiança! Que macho! Eu te imagino montado num touro, macho contemporâneo, só que, com tamanha convicção, talvez, na hora do salto no escuro, o touro esteja virado de barriga pra cima.)

Adoras a cerveja, homem contemporâneo? “Sim.” Adoras a buceta? “Sim.” Adoras o pau? “Não! Só o meu!” É mesmo? Só o seu? Puxa vida! Que espirituosidade! E o que o seu pau tem de tão exclusivo para ser adorado? “Ele é meu!” Ah, ele é seu? Bom, se a questão é propriedade, não falta gente querendo te fazer o agrado de te conceder mais um. Aonde o pau em questão entraria na história isso não se pode dizer de antemão, mas o certo é que ele seria só seu.

O pau do macho é seu grande totem. É uma figura mais do que ímpar. Para ele não há palavra, valor, ou explicação. Escondido, realiza única e exclusivamente os caprichos de rei do dono. O pau do macho se ergue naturalmente para as horas devidas. E pronto. Peça para ele fazer o sangue da cabeça de cima circular e ele será inútil. Peça palavra de novidade para o homem contemporâneo e tenderás ao nada.

E tem mais: você ama seu filho, mulher, família? “Sim, como todo bom macho!” Sacrificaria o seu cu para os ver mais felizes, para os libertar de uma vez do trabalho e do desconforto material? “Meu cu? Mas de onde vem essa ideia, o que tem a ver uma coisa com a outra?” Digamos que fosse uma espécie de jogo, parecido com um desses que magicamente faz você trocar o bem sagrado da família pela companhia de muitos machos. “Claro que não, meu cu? Ah, isso não! Meu cu é intocável! O trabalho dignifica!” Certamente… Certamente muitos homens trabalharão por cima das tuas vontades.

É isto mesmo, homem contemporâneo! Faça dinheiro, torne-se um gênio na sua área de atuação, mantenha sua honra com valores intactos, escreva um tratado de filosofia e jamais toque de fato no fruto proibido que é a palavra sobre o cu, o pau, a mulher, a liberdade do filho, a insubmissão absoluta do desejo.

Sobre este último tópico, escute “O que será (À flor da terra)”, a música de Chico Buarque e Milton Nascimento, e medite bem, ao menos uma vez na vida, sobre o que é esta charadinha! O que será, que será? Depois pense no destino de teu filho, que vai cuspir na tua pseudo-infalibilidade assim que descobrir até onde pode ir o gozo dele em relação ao teu nojinho, não só em relação ao cu, mas à coragem que exige viver plenamente, sem ser escravo do medo da morte e do Nada.

O macho não sabe, pois seu pensamento não chega até lá, mas o cu é na verdade o primeiro sacrificado de sua vida de sacrifícios. Eis o extremo da sensibilização: colocar peças num altar. O filho cumprirá a pena, ou da delícia ou da apertação.

Cara feminista, tenha mais calma: não é você ou seu gênero que são colocados sozinhos na condição de objeto. O próprio homem contemporâneo, “dono do poder”,  se auto-coloca em igual enroscada, pois é incapaz de dar uma opinião própria, sequer sobre suas partes íntimas. No homem, o nojo do cu revela o medo absoluto de uma dor fantasma.

Eu estou tirando sarro da palavra. Eu quero uma rave infinita de silêncio, caminhada e coragem

Aliás, ele é muito mais que um objeto, ele é um robô: ele teme a palavra, ele é programado pela palavra, é, em resumo, enrabado pelo verbo, pois se indigna e enfurece contra ele e, na melhor das hipóteses, transformará sua história em quadrinhos para “adultos”.

O homem contemporâneo é o robô que ele próprio quer ver na sua frente, à sua imagem e semelhança, e para se tocar disso aplica toda a sua sagacidade tecnológica. Prova desse raciocínio é que se você repetir um tipo de discurso que afeta os “seus” valores mil vezes, mil vezes ele se indignará, como uma presa na teia da aranha.

Eu quero um carnaval com amor e armas. O homem contemporâneo tem medo da violência da vida e por isso monta disputas de esgrima infinita com palavras e equipes de força que servem somente para desafogar histerias. Eu estou tirando sarro da palavra. Eu quero uma rave infinita de silêncio, caminhada e coragem. O mais evidente no homem contemporâneo? A submissão à morte. Dizem que querem a luta, os meninos capricham na cara de bravura sensual, mas querem mesmo é voltar pra casa e a cama quentinha. Bando de burros! Hipócritas!

Largue da mama farta do eterno! Pise no tempo! Deus está na sua frente!  Ou estará atrás… O ocidente precisa enfrentar o seu apego ao nojo. Ou não é no escarro, na prova contra o nojo, na palavra que restitui a assepsia que redundam todas as gloriosas ações de coragem? “O Brasil é a cloaca do universo.” (Glauber Rocha) Bravos são os marcianos que vêm curtir o soninho de todo anjinho bobinho que dorme bonitinho roncando e soltando o arzinho!

Tags: , ,


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



One Response to A VOZ DE SHE-RA

  1. marcelo paes says:

    Tags: hipocrisia, homem contemporâneo, macho
    sério? não faltou nada nesse tags aí não?

    Mas sério mesmo eu gosto desses seus textos-desabafo-esculachotapanacara-trauma-fim de garrafa.

    Pensando em ver gogol bordello aí em curitiba fim de setembro, se for te visito.

    bj garoto!

    p.s. contei 15 cus e um cuzinho. Parabéns pela maior quantidade de cus colocada em um único texto.

Subir ↑