Pirão Naipe-Gustavo J. Zanin

Publicado em outubro 18th, 2013 | por Júlio A. Kaempf

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ABANDONO

[Foto: Gustavo J. Zanin]

Abandono I

O Luisinho fuma a pedra

Mas só de vez em quando

E depois fica sentado na calçada

Vendo formigas nazistas a marcharem no horizonte.

Nos domingos abre a boca

E solta devaneios babados

Em frente ao posto de gasolina.

Pede dinheiro para comer

E para fumar a pedra.

Abre a boca,

Pois tem a boca aberta

De nascença – e não da pedra.

Foi criança um dia também

E ainda tem olhos azuis

Que choram e lacrimejam

Como brejeiro que apanhou da vida.

O Luisinho anda com más-influências

Tão sujas como ele

Que também fumam a pedra

Mas já não são crianças.

Em dia de semana vagueia pelas padarias

A pedir café e a pedir cigarro,

Comendo os restos das lixeiras

E o pão amargo da vida diária.

Até desperta empatia, o rapazito,

Por causa dos cabelos cacheados

Que lembram um antigo quadro de anjinho.

Mas o Luisinho já não é anjo

É apenas vagabundo

Sem eira nem beira

Sem cruz nem credo

Que mendiga para viver.

O Luisinho

– diz o respeitável senhor de setenta anos com filhos formados e netos e dois carros presos no trânsito e vinhos chilenos e compras em Miami e a cabeça feita pelo lixo midiático e a proteção do Deus cristão e a ilusão de que tudo é culpa do indivíduo e de que a vara deve ser dada e não o peixe porque a bolsa é compra de votos e acostuma à vadiagem mesmo que com pouco –

O Luisinho merece morrer!

Abandono II

A Cagada desce a esquina com o resto de um pão.

As migalhas caem sobre o casaco puído de lã.

Ele tem um Black Power e lhe faltam os dentes da frente.

Sorri, sempre sorri para o abismo

Quando o abismo fala com ela.

Está cagada de novo. Merda!

As pessoas desviam da ameaça marrom nas suas calças.

Será que a Cagada fuma a pedra?

A Cagada mora na praça onde os turistas colhem mentiras virtuais para provar que a sua vida não é mesquinha.

Eles a ignoram

Enquanto ele cochila nos bancos

E amontoa sonhos no Black Power.

A Cagada está sempre cagando e andando.

Mas um dia lhe cai um papel das mãos sebentas

E alguns adolescentes o pegam

E rodopiam ao seu redor

Lendo e rindo com estrépito.

A Cagada tem um nome e um foto no documento

E tem pai e mãe em algum lugar.

Ela gargalha inocentemente com eles

E fita o abismo insinuante

Pois o abismo falou com ela.

O seu riso é sincero e virginal:

Ainda não sabe que ela é a Cagada

E continua a ser a menina que era

Antes da pedra

Antes da praça

Antes do estupro.

 

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Sobre o Autor

Júlio A. Kaempf estudou filosofia e até hoje a considera o mais difícil dos gêneros literários. De resto, acha que todos os fatalismos são poéticos e que a poesia, o mais das vezes, é um convite ao pecado.



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