Pirão jamdentro

Publicado em abril 12th, 2011 | por Revista Naipe

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ALGO SOBRE 00H01, BEBIDAS E LIBERDADE

[Por Diego Max]

Estados Unidos, fim do século 19. Nova Orleans, às margens do rio Mississipi, está divida em duas zonas: cidade alta e cidade baixa.

O negro, libertado depois da Guerra da Secessão dos Estados Unidos, é obrigado a morar na cidade baixa, para onde os habitantes da zona alta expulsam as camadas mais pobres. Negros, creoles (mestiços com sangue espanhol), marginais: eis a população da cidade baixa. A área em que se concentram é Storyville, bairro de 24 quarteirões conhecido como “bairro das lanternas vermelhas”. A natural concorrência entre as casas é frequentemente definida em termos de música; cada uma mantém uma orquestra, ou um pianista apenas, não importa. O que vale é atrair clientes.

Nessa disputa vão se aprimorando formas musicais que são como que sínteses das canções trazidas da África há dois séculos pelos escravos negros. A maioria delas era entoada durante o trabalho, sendo por isso chamadas de work songs, para matar as saudades da terra que a contragosto os negros deixaram. Cantos tristes, de formas essencialmente folclóricas e de fundo religioso, que eram ao mesmo tempo um grito de liberdade. Além dos conjuntos que tocavam em estabelecimentos noturnos, em Storyville havia as brass bands, que até então eram chamadas para fazer a trilha de funerais, marchas militares e religiosas entre outras solenidades.

Nos intervalos, contudo, os músicos guardavam as partituras no bolso e começavam algo que iria reverberizar e ser categorizado anos depois, quando a música tocada em Nova Orleans iria começar a se utilizar da expressão “jazz”, que alguns atribuem à música “Jazzy”, fantasista, de Tom Brown. Ponderável corrente, por exemplo, sustenta que ela vem de uma espécie de interjeição sensual de um dialeto africano.

O certo é que a primeira orquestra a gravar com nome de jazz foi a Original Jazz Band em 1917, mesmo ano em que foram fechadas as casas noturnas de Storyville. Com isso, houve uma mudança na geografia do jazz. Procurando novos empregos, os músicos iniciaram uma debandada geral, principalmente para Chicago, capital do gangterismo.

Mais tarde a cidade ganharia outro titulo bem mais honroso, “segunda capital do jazz”. Nos Rivers Boats (barcos fluviais) que subiam o Mississipi geralmente havia orquestras tocando música de dança. Seus músicos, quase sempre saídos de Storyville, também aos poucos já se libertavam das partituras pra desenvolver estilo próprio.

Lei Seca

No ano de 1917 uma campanha contra bebidas ganha escala nacional de notoriedade, e em dezembro do mesmo ano o Congresso aprovou a 18ª emenda, a famosa Lei Seca. Passava a ser considerada “intoxicante” qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm cerca de 2%).

Apesar de ter o apoio de muitos setores da sociedade, a Lei Seca foi ignorada por milhões de americanos. Não importava a classe social: quem queria beber, dava um jeito. O Canadá foi uma porta aberta pra muitos que iam e voltavam com lanchas e caminhonetes cheios de whisky enquanto outros confeccionavam-no de forma artesanal em seus quintais. Todo esse cenário, ambiente e o clima da época ficou registrado e descrito também em vários livros, um dos quais de F. Scott Fitzgerald intitulado O Grande Gatsby, de 1925, que tem como protagonista um gângster contrabandista.

Também em Chicago a maioria dos consumidores começavam a subverter a lei então sancionada. Como? Se encontrando no submundo dos bares clandestinos, speakeasies, em tempos de Joseph Bonanno, O’Banion e Alphonse Capone. E quem ganharia destaque histórico enriquecendo ainda mais a cultura musical emergente da época seria o jazz.

A música vinda da África, entoada entre as colheitas onde os negros cantavam a saudade, agora já se estabelecia de forma livre. Devido a crise, muitos tinham como emprego apenas a vida musical. Isso tudo iria auxiliar o desenvolvimento do jazz, por que era aí que os músicos conseguiam emprego. Num desses bares é que surgiu a expressão “Jam Session” (sessão de Jam), realizada pelos músicos após seus trabalhos regulares. Abriam-se os barris clandestinos, e da capacidade de improviso e sensibilidade de cada músico dependia o êxito de uma Jam session.

Entramos agora no que me parece o foco que todo esse papo trouxe e acarretou até aqui, a categorização e a expressão por trás da Jam Session, que sempre foi algo enraizado na música trazida pelos negros. “Jazz After Midnight”, isto é, “Jazz Após a Meia Noite” inicias J.A.M. Essas sessões de improvisações livres eram realizadas apenas pelo prazer de tocar, improvisavam na mais completa liberdade, e isso se assumia muitas vezes como aprendizado e também elevação para o crescimento do estilo e dos próprios músicos que se passavam por alunos e professores um do outro.

Um disco recorrente ao termo, de Nat King Cole, intitulado After Midnight, explana um pouco das sessões. Assim como o disco de Ornette Coleman, Free Jazz, com todo seu jeito subversivo e nada convencional, trazia um ranço em contrapartida à erudição do “jazz branco“, mais depurado e menos espontâneo. As sessões livres deram uma identidade nesse estilo tão firme e ao mesmo tempo contraditório na sua maior beleza, quando os músicos deixavam de lado toda vaidade, alheios a todo eruditismo impresso nas partituras e virtuosidades para retornarem às raízes de quando o jazz era apenas uma a cappela entoada nos campos de algodão como grito de liberdade.

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4 Responses to ALGO SOBRE 00H01, BEBIDAS E LIBERDADE

  1. Gustavo Garcia says:

    E o cara tem bagagem pra escrever muito mais. Melhor que essa aula “do cacete”, é ouvir isso no buteco tomando uma e ouvindo um SOM
    nóis

  2. Franco Junior says:

    Muito bom, contextualizado, bela união de História + Música!

  3. Guilherme Ribeiro says:

    Po, muito boa a abordagem. Estética textual muito bem encaixada. Conteúdo com um altíssimo nível docaralhístico!

    Interessante ressaltar um detalhe. Os EUA acabaram por “dominar” o mundo pela cultura, mas pela cultura branca eurodescendente. O racismo, então, se intensifica no fato do lado cultural mais rico dos Estados Unidos não ser totalmente difundido quanto o POP, por exemplo.
    Isso ocorreu justamente por causa do preconceito e do pouco interesse da classe dominante em difundir uma cultura nascida no seio da comunidade negra, fruto de um de um isolamento social racista.

    Hoje o mundo inteiro come um cheese burguer, ouvindo Lady Gaga, abrindo a felicidade com Coca-Cola, andando no shopping com um Nike no pé. Mas manda falar o nome de um negro “importante” dos EUA pra ver se sai algo a mais que Obama.

    Quem nos dera se o Jazz tivesse tomado o lugar do Pop.

  4. Pê. says:

    Cacete, que aula! Texto sensacional.

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