Pirão amarcord

Publicado em outubro 11th, 2013 | por Nathan Mattes Schäfer

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AMARCORD

Na cidade em que nasci havia um pedinte mudo e desdentado.

Chamavam-no Mudinho. Carregava um apito, destes que vendedores de picolé costumam usar, percorrendo escalas em poucos segundos. Mudinho, que também era alcoólatra, parecia encontrar diversão no incômodo. Tomava fôlego; sorria; apitava. Aguardava reações. O procedimento era repetido à exaustão — dos outros, é claro. Em maior parte do tempo, o homem era inexpressivo. Mas, bastava uma carranca armada para a banguela escancarar-se: aparecia um arremedo de sorriso, espécie de arco irregular no rosto judiado a expor gengivas esbranquiçadas.

A imagem do homem baixo, sacos de lixo sobre as roupas e garrafa de cachaça sem rótulo em mãos, é quase onipresente desde o início de minha pesquisa sobre enfermidade mental. Mudinho surge em sonhos, é um figurante que permanece encarando a lente quando deveria permanecer invisível. Movo a câmera, mas ele insiste em acompanhar-me os travellings.

Em campo, seu rosto ocupa o de entrevistados. Turva vistas, embaralha juízos.

Saberei o que é Mudinho ou João ou Waldemar?

A boca desdentada se mistura e sobrepõe aos (poucos) dentes de João.

Não faz muito que, após fichar um estudo de caso de Luria, sentei-me na poltrona de vinil amarelado, tentando digerir um pouco daquela estranheza. Tinha nos joelhos um bloquinho, para o caso de precisar tomar notas, e mirava a parede branca, acima da cama. A cabeça ia longe mas, cansado que estava, não demorei a dormir — e sonhar.

Em meu sonho, os quatro Beatles do quadro, guarda-chuvas em punho, eram Mudinho. O Playmobil, escorado em Guerra e Paz, transfigurava-se em uma versão liliputiana. Nada mais forte, porém, que a área nua da parede branca. Nela, projetava-se imenso e supersaturado retrato do mesmo cidadão, em ares revolucionários.

Tencionei gritar, pedir arrego; nada feito. Por mais que abrisse a goela, voz alguma. E as imagens ali, estáticas. Apenas imagens. Deslocadas, pois é sabido por todos, de Itaparica a Gaurama, que sonho é cinema, não fotografia.

Não fosse sonho, passaria náuseas e medo. Medo das imagens, ainda estáticas e incrivelmente reais, em nada condizentes com os sonhos fragmentados que costumo ter — ou recordar.

Ao despertar, estava lavado em suor. Ainda que a lembrança estivesse fresca, o bloco, esquecido no braço da poltrona, permaneceu virgem de caligrafia. Não pude escrever; senti a cabeça oca, vazia. Fechar os olhos, mesmo cansado, também não podia. O efeito era pior, porque parecia conservar o homem na cabeça.

Escorreguei para a cama e adormeci.

Pela manhã, os latidos de Charlie me acordaram. Grogue, meu primeiro pensamento foi um tanto imbecil: seria esta sensação parecida com a que sentem loucos em crise?

Você escreve nesse bloquinho pra depois dizer que sabe quem sou eu e achar que entra na minha cachola, mas não entra. Queria ver eu escrever o que acho de gente que usa bloquinho e pensa que entende a cabeça dos outros

E é o que me pergunto também agora, tomando notas por precaução e encarando João, o que tem poucos dentes. Seu olhar, embora opaco, em nada denuncia a condição em que foi enquadrado há trinta e sete anos. Barba aparada, pele conservada, cabelos alinhados. No exterior, não se encontra indicação de anormalidade maior que a visível em nós todos.

João é pródigo em solilóquios:

— Vim pra cá por causa que meus pais não me queriam. Epilético não era gente, não naquela época. As coisas mudaram, hoje. Não tinha remédio. Ficava numa babaceira, mas eu perdia o juízo de mim e não sentia nada. Quem sentia era os outros, entende? É que nem uma pessoa que caga, quem sente nojo é quem tá sentindo. A pessoa própria, ela não sente nojo dela nem se incomoda com aquilo. Ou ver sangue dos outros, também. Tudo nos outros é ruim, na gente é normal. Por isso que as pessoas não aceitam quem é diferente delas, porque elas não enxergam elas nos outros, e aí não consegue gostar. Se fosse ao contrário, por exemplo, e achasse que o juízo era errado e o desjuízo certo. Mas, não é… E por isso é que você escreve tudo nesse bloquinho pra depois dizer que sabe quem sou eu e o que eu tenho e achar que entra na minha cachola, mas não entra. Queria ver eu pegar o bloquinho e escrever o que acho de gente que usa bloquinho e pensa que entende a cabeça dos outros. Aí eu queria ver!

A partir daí, perco o fio da meada. Mudinho reaparece, rouba o pouco de luz que carrego nos olhos e me põe em espécie de transe. Minutos depois, o enfermeiro gordo que se aproxima e diz por hoje acabou, rapaz, talvez tenha nos percebido iguais: eu, João e o espectro de Mudinho. Sorumbáticos; insossos; inertes.

Irmãos — de retina, ao menos.

*Amarcord, 1973, é o décimo sétimo filme de Federico Fellini. É, segundo o documentarista do sonho, a tradução fonética de io me ricordo (eu me lembro), expressão usada na região em que nasceu.


Sobre o Autor

Escreve em cadernos sem pauta, remendando até não poder mais. Acredita na salvação em Pedro Páramo e na vida como caminho ondulante: "sube o baja según se va o se viene. Para el que va, sube; para él que viene, baja."



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