Pirão bambaataa_dentro

Publicado em outubro 18th, 2011 | por Revista Naipe

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QUANDO PAGAR O MICO É O PREÇO JUSTO

[Por Emerson Gasperin]

Afrika Bambaataa desembarcou em Florianópolis para se apresentar no acanhado palco do John Bull a R$ 20 por cabeça e sobrou lugar.

Snoop Dogg fará show na megaestrutura do Stage Music Park e o primeiro lote de ingressos, de R$ 90 (pista) a R$ R$ 180 (camarote), esgotou com mais de um mês de antecedência. O abismo entre o “pai do hip hop” e uma de suas crias mais bem-sucedidas ficou claro para os pouco mais de 60 abnegados que resistiram até as 4h da madrugada de uma quarta-feira de feriado para assisti-lo. Envolve fama, exposição, sucesso, quantidade de hits, cotação no mercado, apelo, lenda pessoal. E, sobretudo, entretenimento.

Remanescente de uma era em que bastavam um DJ e um MC para animar manos e minas, Bambaataa foi fiel às suas raízes. Nenhum de nós estava em Nova York quando, ali pela metade da década de 1970, ele começou a usar toca-discos como instrumento para acompanhar rimas improvisadas com ritmo & poesia (rap, para os chegados). Mas devia ser algo similar ao mostrado naquela noite chuvosa, agora com o acréscimo de um notebook e de um guitarrista. Só que, por mais verdadeiro que parecesse, não funcionou. Não em uma época na qual os grandes nomes do gênero dispõem de produção esmerada e backing vocalistas calipígias para agradar a playboys e biatches. Nem depois de esperar a noite inteira.

Aqui é imperioso abrir um parêntese para se fazer justiça às bandas de abertura. Os Skrotes desafiaram a linearidade com sua concepção peculiar de música, que abrange de jazz a metal, de samba a rock. O trio é, disparado, a coisa mais original do cenário musical ilhéu, a ponto de o estranhamento da plateia ser normal. O groove da Sociedade Soul, como sempre, desceu redondo, alavancado pela performance invertebrada do frontman Gustavo Barreto. Não satisfeito em desfazer o carão dos b-boys do gargarejo, o vocalista e guitarrista ainda pulou para a pista e encarnou James Brown na dança.

Todo o arrebatamento e comoção provocados pelas duas bandas evaporaram com a aparição de MC Duarte. Não que o rapaz não tenha caprichado, revezando sua ladainha com o R&B de uma cantora vestida para matar. É que, a essa altura, a expectativa atingia seu nível máximo. Principalmente porque, assim que terminou a Sociedade Soul, Bambaataa chegou ao recinto. Enquanto o rotundo black vencia a escadinha à esquerda do palco que dava acesso ao camarim quase sem ser notado, o DJ Naomi mandou a clássica The Message, de Grandmaster Flash: “Don’t push me, cause I’m close to the edge/ I’m trying not to lose my head”. Já havia demorado demais para começar a atração dita histórica.

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Durante sua estada em Florianópolis, Afrika Bambaataa teve tempo para permanecer seis horas ao vivo em uma rádio e tocar cowbell (!) em uma jam com rappers locais. Além da agenda, do valor do ingresso, da casa em que se apresentou e do tipo de espetáculo que proporcionaria, o lugar onde se hospedou era mais um indício da distância atual que o separa de Snoop Dogg. O parceiro de Katy Perry em California Gurls deve desabar em uma suíte luxuosa no Norte da ilha; o fundador da Zulu Nation dormiu em um duas estrelas no centrinho da Lagoa da Conceição. Na véspera de seu show na cidade, ele conversou com a Naipe no bar do hotel.

Nascido há 55 anos no Bronx, Bambaataa pediu para que seu nome de batismo não seja mencionado. “Aquele é outro cara, que não existe mais”, disse, referindo-se a Kevin Donovan (como atendia antes de adotar a alcunha que o celebrizou, tirado do filme Zulu). O conflito entre ingleses e nativos na África do Sul retratado na película o marcou tanto que, mais do que uma alcunha, rendeu uma causa para o então líder da gangue Black Spades: lutar pelo povo negro. É esse o discurso que permeia qualquer declaração sua, sempre pontuada por “respeito”, “união” e “consciência”.

De boné, óculos escuros, camiseta preta com a inscrição “Thugs of War”, moletom azul-marinho e um par de Crocs em tom mais fraco sobre meias pretas, Bam – como gosta de ser tratado – contou que seria advogado se não tivesse enveredado pelo hip hop. “Para defender os mais fracos”, garantiu. De certa forma, é isso que ele vem fazendo, ao espalhar a “mensagem” via música ou palestras. Por isso, lamenta a maneira com que a arte que ajudou a forjar é tratada pela mídia. “Dependendo do rapper que está em evidência, aparece apenas o lado negativo, não o cultural”, queixa-se.

O discurso continua ao falar do que o motiva a prosseguir na ativa, mesmo sabendo da dificuldade de um ideal em competir com dólares. “Sou humildemente guiado pelo Poder Supremo, pela beleza do planeta, pelas pessoas que se juntaram para tornar o hip hop essa força que é hoje”, prega, qual um messias retinto. E fim de papo, que a van que o levaria até o Morro da Cruz para gravar chamadas para o show já estava estacionada na frente do hotel. Apesar da fé professada, Bam precisaria de muito mais do que as três palavras que elegeu como mantra particular para salvar sua reputação da danação eterna.

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À exceção dos óculos escuros, Bambaataa subiu ao palco do John Bull com o mesmo figurino que vestia no dia anterior, incrementado por uma bandeira do Brasil pendurada no pescoço e tênis preto em vez dos Crocs. Acomodou sua barriga atrás das pick-ups, apertou o teclado do MacBook e disparou sequências pré-arranjadas. À sua frente, o americano King Kamonzi encarregava-se da empatia com o público bradando clichês como “put your hands up”, “jump”, “make some noise” e “let’s say hey” em dueto com outro MC. Não foi um início dos mais promissores, mas talvez engrenasse no decorrer da noite.

A esperança transformou-se em constrangimento com o repertório avançando em variações do mesmo tema. Bambaataa, impassível, mantinha seu olhar vago, interrompido por scratches primários e uma conferida no monitor. “Ele está atualizando seu Facebook”, debochou o maroto fotógrafo da Naipe. Saiu o MC anônimo e entrou o dominicano Shaka Genaro para mais uma sessão de empulhação. E a vergonha virou certeza de que o negócio não ia passar disso quando, finalmente, a introdução inconfundível de Planet Rock bombou nos alto-falantes. Que deprê.

O hino surgido em 1982 da fusão de Trans Europe Express (dos alemães do Kraftwerk) com a bateria eletrônica da Roland TR-808, que originou o electro e serviu de base para o Miami bass e, posteriormente, para o funk carioca, foi assassinado sem dó nem piedade pelo seu próprio criador.  Desprezando o potencial de seu maior hit, ele trocou os versos da Soul Sonic Force (“Everybody say, rock it, don’t stop it/ Say Planet Rock”) por samples de “tá dominado, tá tudo dominado”. Sem chance, Bam. Que Snoop Dogg, em novembro, restabeleça a diversão que o senhor inventou – e fez questão de estragar com um show em que todos pagaram, literalmente, um mico-leão dourado.

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Veja fotos da noite.

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One Response to QUANDO PAGAR O MICO É O PREÇO JUSTO

  1. Ace says:

    quantidade não é qualidade.

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