Pirão motorheaddentro

Publicado em abril 26th, 2011 | por Léo T. Motta

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BARULHO

Cenário: entranhas e o maior órgão – a pele, veja bem – do corpo do rock catarinense, na iminência de um show do Motorhead na capital.

Acompanhei a movimentação de muitas bandas através das redes sociais, vídeos de qualidade sendo produzidos para campanhas, burburinhos, especulações e questionamento dos critérios da oganização; no entanto, quem dividiu o palco com a bateria do Motorhead ainda coberta foi uma baranga. Baranga é, por acaso, o nome dessa típica banda paulista de rock’n’roll que foi selecionada para abrir o show de Lemmy e sua trupe.

O som era algo como Velhas Virgens meets AC/DC, o que pode acabar soando interessante pra muita gente, com algumas pitadas dos inevitáveis clichês do gênero. Pra falar a verdade, foi tudo bem executado e condizente com a situação. Problema é que posso citar, sem dificuldade, umas boas dez bandas catarinenses que teriam feito à altura, no mínimo. Algo como xavecar uma baranga sem notar logo ao lado uma ruiva de olho azul – e calça de vinil -, encostada no bar dando piscadelas na tua direção. Sem deméritos pra banda, mas um ou outro pra curadoria do evento.

Drumfills, rimshots e blast beats

E eis que me vi a um metro de distância de Lemmy, durante a primeira música; ele e suas calças justas, botas imponentes, chapéu de caubói impecável e baixo Rickenbacker com sensacionais adornos steampunk. Um show barulhento irrompia em volta da bandeira com os dizeres The Wörld Is Yours, nome do último CD e da turnê que trouxe o trio a terras tupiniquins. Passada a zona de segurança para a imprensa – 3 músicas no começo do show e no more pics, caras, por favor – é tempo de repousar o sorrisão na cerveja e perceber as nuances no som bruto que gritava das típicas paredes de amplificadores Marshall.

O baixo ali absolutamente não soa como um baixo, é tão-sequer uma guitarra que o guitarrista poderia estar tocando-o e pouca diferença seria notada. Nada que deva ser desmerecido, era lindo de se ver; sabendo quem são – “We are fucking Motorhead!” grunhia Lemmy Kilmister – e o que já fizeram, fica difícil negar a magnitude dessa verdadeira entidade do metal. Anacrônicos monstros, sempre trajando chapéus e botas de fazer inveja em qualquer assombração que se preze. E dá-lhe Get Back In Line, I Know How To Die e tantas outras violentadas semânticas que nomeavam sons mais deliciosamente brutos ainda.

Lembro de trocar com o Flávio – meu parceiraço no Válvula e fotógrafo na ocasião – a ideia de que eles eram um tipo de Ramones do metal; representavam demais pro seu gênero e suas vertentes, mas sempre com músicas curtas e parecidas. E taí uma bela verdade que daria no saco, não fossem esses non-gentlemen britânicos que o fazem com a maestria de quem já brinca disso há décadas.

E surge a declaração: “Já fomos proclamados a banda mais barulhenta do mundo, então eu peço que façam silêncio e contarei até 3. Ao nosso sinal, queremos que todos façam tanto barulho quanto conseguirem e vamos ver até que ponto isso é verdade!” – só sei dizer que a resposta do público foi como uma versão estendida da seguinte onomatopéia de arena:

“AAAAAAVVVVVVWWWWWHHHRAWRRROAUAOUAAMSAMSMAOAEAOEOAOAGGGGHHHH ARF ARF AWWWW!!!!” – sim, mesmo quem não entendeu o discurso ali fez barulho, bastante barulho.

E como não poderia deixar de ser em qualquer show de metal que se preze, para tantos integrantes quanto houver na banda, haverão paradas para solos virtuosos. O de bateria foi bastante majestoso e cheio de viradas, drumfills, rimshots e blast beats. Mikkey Dee nem parecia velho de tanto que brincou de espancar sua bateria. Já o guitarrista Phil Campbell – há singelos 27 anos tocando com a banda – fez seu solo mais recatado, melódico, puxando notas épicas e trazendo à tona na memória o solo do Kirk Hammet em janeiro passado.

Pra finalizar, acho que nada mais justo que repetir as palavras do mestre: “Overkill! Overkill!”. Foi com essa música – regravada por ninguém menos que o Metallica em seu glorioso Garage, Inc. – que o trio deixou o palco. Só sei que foi tudo verdade porque meu ouvido seguiu zunindo nos próximos dias. Motorhead é uma banda universal e, pra quem perdeu dessa vez, vale lembrar que esse ano ainda os tiozinhos high on meths voltam ao país no famigerado Rock In Rio.

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



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