Pirão Sexo Débil - Laura Gilardenghi

Publicado em setembro 2nd, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

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CARÍSSIMA LAURA GILARDENGHI

Ontem olhei o seu quadro “Sexo débil” a noite inteira, na sala da casa de sua irmã Diana, durante um churrasco para o qual nem fui convidado.

Não entendo nada de artes plásticas, mas surpresas como a do seu quadro me fazem gostar de não entender: graças a isso me sinto sujeito a grandes espantos como o de ontem à noite. Graças a isso sinto que posso reconhecer um talento com naturalidade: iludo-me e da ilusão brota um grande gozo.

Você capturou o esplendor e a brutalidade quase absoluta de uma mulher no gozo. Pintar uma mulher tocando o próprio sexo daquele jeito, naquela posição curva, quase auto-punitiva mas ao mesmo tempo furiosa e libertadora, me pareceu uma mostra de coragem e de compreensão profunda da mulher e do nosso tempo.

A simples escolha da postura daquela mulher revela que você conhece também o poder da literatura – coisa rara em artistas “não-literários” hoje em dia. Dos milhares de olhares que lancei ao quadro este era o aspecto que permanentemente me espantava, como se eu olhasse todo o resto sempre através dele.

É uma espécie de começo grandioso para uma obra, como um primeiro verso que fosse tão forte que abrisse as portas para que o resto do poema apenas surgisse espontaneamente, sem compromisso algum com o lirismo e a sutileza.

A maneira como você pintou aquele rosto é também corajosa e belíssima. De longe as linhas me remeteram diretamente aos traços das caricaturas do Paul Klee, mas, ao me aproximar, vi que na verdade se tratavam de linhas absolutamente grotescas, grosseiras e intensas. Aquele rosto cor de rosa, todo arredondado, com um nariz triangular, extremamente deformado, sôfrego, mas ainda assim alegre e generoso foi a segunda coisa que mais gostei em seu quadro.

Ele me remete a outra coisa que me impressionou muito: as cores. O fundo verde, o ventre azul, o sorriso amarelo, o intensíssimo vermelho a compor uma aura de fúria e torpor em torno da cabeça curva (tão curva que o pescoço simplesmente não aparece) e as nuances de cores entre o braço esquerdo (extremamente grotesco, parecendo um pernil de porco e em contraste com o outro braço, que tocava o sexo e quase se escondia de tão torcido) e os seios me pareceram maravilhosos. Aquelas cores quase me faziam tocar um movimento.

No corpo da mulher transparece absolutamente cada nuance, cada milímetro de suas taras, suas fantasias, sua fome, sua delícia

Apesar de ter tirado algumas fotos do quadro a impressão é tão viva que não recorro a elas pra escrever isto. Até porque as fotos ainda não chegaram até mim, estão presas no celular de um amigo. Mas, para não me sentir ainda mais tentado a cometer um roubo à casa de Diana e Edson, tive que tirar estes retratos.

Em certa hora da minha autista apreciação, três moças lindas se sentaram no sofá que fica embaixo do seu quadro. Devem ter me achado um imbecil, ou um bicha, ou ainda um arrogante: não dirigi meu olhar para elas em nenhum momento. Só me interessava o quadro “pornográfico” desta tal Laura Gilardenghi.

Gostaria de ter me explicado às moças, desculpando-me. De fato talvez seja por isso que escrevo esta mensagem a você: como qualquer homem, me desculpando com honestidade a uma, sinto que é possível que eu esteja me redimindo perante todas as mulheres. E justificando todos os homens.

Se soubessem o que se passava na minha cabeça, entretanto, as moças só teriam duas possibilidades: ou ficariam rubras, ou ficariam excitadas. Minha opinião é a de que deveriam me puxar para um quarto e me fazer feliz, sem demora. Mas elas não sabiam ou fingiam não saber: olhando para aquele quadro eu as contemplava concretamente nuas, ali mesmo – a elas e a todas as mulheres.

Admirava, sem sarcasmo e quase com carinho, a intensidade e a solidão da mulher, toda força dos seus interditos e falsos mistérios, toda a imensa história quase anônima e apócrifa de suas transgressões que somente as mais ingênuas pensam ser de fato secretas.

No corpo da mulher transparece absolutamente cada nuance, cada milímetro de suas taras, suas fantasias, sua fome, sua delícia. Justo porque, ao contrário do que se pensa, é a partir do corpo da mulher que o desejo nasce, cresce, mede-se e ganha aquela força que ameaça permanentemente destruir a arte e a poesia.

Os homens fingem-se de desatentos, acreditando mesmo na própria distração, apenas para acomodarem melhor em seus silêncios desastrados toda agressividade e todo êxtase de uma mulher que, com simplicidade, apenas caminha e respira, vestida, em qualquer rua, longe de possuir a si mesma.

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



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