Pirão godard_dentro

Publicado em março 24th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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CARTA A LUIS FILIPE, CONTERRÂNEO DO PRESENTE

Meu caro Luizón

Como vai? Eu, muito bem. Te mando esse recado pra avisar da mudança do meu turno no trabalho. Agora entro às 10 da manhã e saio às 7 da noite. Sobra mais tempo para dar um chego na gostosa Trindade e conferir o cheiro de suvaco e a ressaca de claridade e não-alegrias dos amigos, parceiros de jornada trabalhística.

Conferir se, com nossas esperanças por assim dizer reticentes na idílica reconstrução do homem de moral (em oposição ao de crítica), depois de tantos abalos, continuamos fugindo da UTI pra lutar no campo de fogo.

“Não, meus caros”, diríamos aos incautos, “não é na reconstrução da moral que acreditamos e sim no homem de moral, o homem que não espera a voz da norma mas assume o peso da fatalidade e encarna em si a plena coragem de ser, em cada gesto, o próprio ato de valorar: o homem que age com o coração.” Gesto que, antes que nossos cínicos esclarecidos abanem os rabinhos, é justamente o de levar ao extremo o não saber crer. Perdoar.

Meu pornográfico e elegante amigo, em quem admiro o esplendor da aptidão do perdão gratuito, a sede de sensualidade, o ouvido absoluto pro afeto da escuta musical, escute-me: vale a pena amar esta cidade? Ou como disse a Clarice da longínqua Berna, faltam demônios também em Florianópolis?

Desculpe a indiscrição das perguntas, meu caro, bem se sabe que a intimidade lavra de silêncio os profundos dilemas, mas é que, se estamos em tempos de absoluta redundância, você terá de me desculpar se eu acabar soando melancólico para além do nosso silêncio de melancolias.

Pois veja bem ao nosso redor, mesmo que tu saibas que eu sei que tu de tudo isso já sabes: nossos revolucionários são ardentemente revolucionários. Nossos reacionários, sabendo dizer exatamente aquilo em que creem, não veem estímulo nenhum nas ardências alheias. Que sobra para nós, diáléticos, irônicos, além da ironia?

Meu caro amigo cujo talento, como dizes e concordo, é a Vida: como é triste ver um estudante culto dizer: “A literatura de Oswald de Andrade, ao contrário de suas próprias previsões, falhou em se tornar popular.” Meu caro Luízon, dancemos mais um funk em homenagem a tão abominável besta! Dancemos a dança da garrafa! Há jeito de viver a vida, de “tentar a alegria” nesta ou em qualquer outra cidade sem dizer sim a tudo?

Quem somos nós? Somos os dionisíacos? Somos boêmios, ao menos? Intelectuais, então? Ou, como já compactuamos certa vez (“Lua, lua, lua/ por um momento/ meu canto contigo compactua”), estamos mais é para personagens sem costumes e sem desfecho, como o do cinema em que a invenção da vida é mostrada mais de perto?

Tom e Vinícius no Rio

Em nosso último encontro nos comparamos a personagens num filme do Godard. Clichê maior, em nossa faixa de idade e em uma cidade que se flagra a todo momento tentando a contemporaneidade, não poderia haver. Mas o fato é que acredito piamente que encarnamos mesmo novos Belmondos quando saímos de uma sessão de cinema rindo dos que falam onde não há nada para falar ou dos que esmiúçam cerebralmente os filmes que imploram é que olhemos com o coração aberto para fora da tela.
“A beleza é o começo do terror que podemos suportar” diz o próprio Jean-Luc em um de seus filmes. Meu caro Luís, Olívia está nascendo! E o que diremos pra ela? “Suporte, pequena, para além da beleza”?

Escrevo isso também porque acabo de voltar da primeira jornada etílica depois do turno diário. Passei pelo miolo labiríntico do Santa Mônica, conferindo seu silêncio e seu absoluto recolhimento. Perguntava às calçadas cheias de limo e às várias casas de surpreendente bom gosto o que esta cidade guarda em tanta sobriedade.

Eu parecia procurar, nada lucidamente e no vazio mínimo de uma esquina insignificante, singelos personagens do ar, numa era em que já gritaram e cansaram também todos os antipersonagens possíveis e imagináveis.Nessas horas lembro-me de Tom Jobim e Vinícius no Rio de Janeiro de áureos outros tempos. Experimento de novo a convicção de que o maior tesouro de suas obras, expresso em cada tom do afeto de seus cantos, é a demonstração, para o mundo, da preciosidade heróica do perdão.
“Per donare em latim, for-give em inglês” disse o Tom em uma entrevista que vi certa vez na internet: “O perdão é para dar, não para guardar”. E lembro que o bom e velho Don Camilo veio para cá por enxergar aqui algo da pureza intensa (violenta, mas também cheia de doçura) do Rio antigo.

Circulo por nossa ilha, faminto de sei lá o quê. Passo por Rodrigo de Haro e quase paro pra pedir a benção, sem motivo algum, tamanha e tão radiante é sua discrição e sua piedade – isso que nem o conheço.

Encontro Toicinho Batera (como Rodrigo, habitante mítico da Lagoa da Conceição) e me seguro para não pedir um abraço apertado, tamanho é seu calor humano, sua intensidade à flor da pele.

Meu bom amigo, permita-me ser franco, com todo respeito, você é um ser humano ímpar e maravilhoso: os gritantes convites homoeróticos seriam para nós quem sabe tentadores não víssemos duzentas capas de revista por dia, não fôssemos tão facilmente seduzíveis pelo que está perto.

Antiquados e ergonomicamente pouco inventivos, passamos por precaução longe dos gritos do Ceart (a graças a Deus minúscula representante de Paris – das muitas do mundo – presente em Floripa) e nos contentamos com a inútil paisagem, se nos adivinho bem.

Que pode um artista não adolescente em Florianópolis? Por que volta e meia nos perguntamos isto eu e você, assumidamente não-artistas? Que tristes todos discursos sobre arte, assim como todas obras cujos esforços são os de colocar algum misterioso objeto no lugar da vida! O que me importa se Dionísio se baba de lama, de leite ou de sangue?

Cá vamos nós para o nosso tempo, a todo segundo, bêbados, docemente obrigados a decifrar o silêncio de nossa cidade, Florianópolis: a verdade, nua e crua para mim é que estamos entre encarnarmos a visão do paraíso ou sermos o novo túmulo da alegria.

Forte abraço,

Diogo

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



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