Pirão Mulheres da Terra - Juliaro

Publicado em julho 29th, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

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CARTA AO FUTURO

Acabo de fazer uma refeição esplendorosa.

Comi no meio dos trabalhadores. Estes, por mais que estivessem tristes, entraram frutificados, entraram trazendo junto consigo uma imensa quantidade de energia que, mesmo que eu recusasse, também se fazia minha.

Nossas refeições são simples: carne, vegetais, um ou outro cereal ou semente. Para acompanhar, um líquido gasoso extremamente doce e forte que, contrastando com o salgado e como que o envolvendo, faz a visão ver através da matéria, para o esplendor, pelo tempo de uma fração de segundo.

Baixamos a cabeça, pois não temos a palavra. Nenhum de nós tem. Não custa dizer: o que mais há são trabalhadores que não olham diretamente nem para o fruto do próprio trabalho, nem para o dos outros. Esta presença da energia que vem da cabeça, do corpo do espírito de um trabalhador qualquer, é, simplesmente e por quase todos, ignorada. Poucos a tomamos como puro alimento.

Oficialmente não. Em um qualquer encontro “já se sabe” que cada um veio do trabalho e que cada um vai para o repouso. Mas o que um encontro de mediação entre os dois caminhos (uma festividade qualquer, seja alimentar, seja sexual) representa de fato para o rito é soberbamente ignorado. Aparentemente não há nenhuma palavra que deixamos de dizer.

Os reflexos disso são claros: antes de sentir qualquer energia imediatamente presente, os contemporâneos sentem e se fazem sentir por palavras: “homem”, “mulher”, “chefe”, “pessoa”, “concorrente”, “silêncio desafiador”, “parente que está cumprindo outras ordens”, “amante soberbo esforçado”, “vizinho feliz não incomoda”, “gostosa moderna”, “elegância e força”, etc.

Tudo está vestido. O nome da roupa chama-se cultura. Poucos dentre nós cultivam a sensação por ela mesma. Poucos chegam, cumprimentam, sentam-se e sentem, podendo estar calados. Não: o que vive e luta para ser a única fonte forte do fato é uma presença alegre que nunca pode estar ausente sagradamente. “Hoje não há respeito aos mortos”, parecem dizer repetida, silenciosamente.

Há pequenos milagres, sim. Muitos. O amor está expresso em vários dos nossos pequenos gestos.

Não por acaso, “oração” é uma palavra hoje com pouco sentido. A obrigatoriedade que os contemporâneos sentem de aceitar o estupro da cultura (muitas vezes encarnando eles próprios, sensíveis à liberdade ou não, a composição da obra do deboche “feio” e desobediente) lhes tira a possibilidade de cogitarem, dentro de seus dias, uma tal habilidade, por assim dizer, Feminina.

A explicação pelo status da vida (a vida pública, total, a vida do “nosso tempo”) ainda é evitada: não se disse sim a nada, não se disse não a nada. Como disse um filósofo: “está-se-aí”. Palavras de conteúdo universal como “mundo”, “vida”, “Brasil” “humanidade”, servem para alimentar uma força neutralizadora que, através da palavra, aproveita para decidir tudo, não decidindo nada. É como se dissessem: “A verdade é que outros estão enganados. Não se preocupe. Nós apenas estamos aí.”

Há pequenos milagres, sim. Muitos. O amor está expresso em vários dos nossos pequenos gestos. Às vezes parecemos com os macacos, no melhor sentido possível, quando estes se sentam um do lado do outro e se acariciam, dão de comer um ao outro, e parecem apenas estarem, mas sem qualquer indício de que vão hora ou outra perder o amor.

Há ainda, e cada vez mais, caldeirões de energia, onde muitas vidas se juntam e explodem e prometem e plantam muita, cada vez mais luz. Acordados, procuramos no outro a violência da nossa própria noite, adormecidos.

“Isto me faz mal”, diz um homem ou mulher com o mal na mão.

Ensaia-se a palavra direta, a palavra do amor: “Filho, sabes morrer?”

Uma criança de 10 anos pergunta ao relojoeiro se ele opera o sol.

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



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