Pirão the terminal

Publicado em setembro 1st, 2014 | por Gabriella Figueiredo Santos

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COLETÂNEAS DE AEROPORTO

Aeroporto tem de tudo.

Gente de todos os credos, paixões e opiniões. Tem novo rico, tem riquíssimo, tem a nova classe média, tem teenagers indo fazer high school, tem jovens e velhos sonhadores, tem aquela família inteira que faz a mesma camiseta simbolizando a viagem do clã, tem padre e freira, tem médico e taxista, tem lojista e tem arrumadeira, tem segurança e gerente de negócios que incorpora uma espécie de missionarismo ao principado de Mônaco, tem hippie e aqueles que se autopromovem do hype. Tem executiva e tem madame, tem japonês e mexicano, paquistanês, nordestino, hindu, muçulmano, paulistano, holandês, norte-americano.

Tem sono, tem foto, tem selfie e nesse caso, tem aquilo que costumam nomear nas etiquetas dos produtos – a nossa brasilidade.

Ah, quantos traços, quantos moldes de rostos diferentes, expressões faciais e corporais, cores que encantam pela improvável combinação, formatos de corpos cobertos, ou não, por tecidos de texturas ímpares. E as línguas?

Em todos os lugares públicos ou privados, há um conjunto de regras de sociabilidade a serem seguidas. Mas o aeroporto foge um pouco desses parâmetros de previsibilidade comportamental. Se você sempre chega e logo decola ou se só voa na classe VIP, provavelmente perceberá aquilo tudo como uma multidão bastante homogênea. Mas se você costuma passar horas de espera entre um voo e outro, ou fazer aquelas escalas nos horários mais improváveis possíveis… meu amor, você há de perceber como um aeroporto é um verdadeiro não-lugar! Cunhado pelo antropólogo Marc Auge no livro quase homônimo Não-Lugares, o termo trata daqueles espaços destinados à passagem, ao provisório. Ele ainda nos ensina que um não-lugar é o oposto de lar, é o contrário do espaço personalizado. Porém, dada a sua complexidade e pelo fato de ser transitado por indivíduos tão profundos e imprevisíveis em sua diversidade, ainda assim, relações se desenham ali. Refazendo-se por instantes, um lugar.

E a coluna de hoje é uma espécie de registro de rápidos flashes de alguns desses instantes que vi e ouvi em 15 horas de espera por um voo, Guarulhos – Além Mar

Um menino bom
Aeroporto lotado naquele meio-dia. Não havia outra opção que reunisse melhor algo sem glúten, sem fila e com menor preço do que aquela omelete com salada. E lá estava eu, faminta, esperando meu prato e observando os passantes e as pessoas sentadas à minha volta. Foi quando uma mulher de meia-idade, loira, toda de branco e joias começou a falar ao telefone.

– Ele é um menino inocente, mas fugiu da escola inglesa! Agora voltou para o Brasil, quase morri quando os policiais me ligaram avisando que ele já estava no aeroporto! E agora? Já estava de passagem marcada pra Tailândia e vou ter que levá-lo comigo! Olha o absurdo, quase fali!

Use e abuse dos óculos
Ele fala baixinho para a mulher: “Você paga? ” – escolhendo uns óculos e trabalhando seu charme com as cinco vendedoras ociosas que estavam bem disponíveis para fazer ‘contatos’, diga-se de passagem.

O homem parecia estar saindo de férias para alguma ilha tropical. Já a mulher, parecia estar indo para uma reunião do trabalho.

Tem gente pedindo dinheiro em GRU
Era pré-Copa e o movimento de trabalhadores da expansão do aeroporto compunha aquela perspectiva de concreto de Guarulhos.

– Senhora, preciso de dinheiro! Trabalho aqui na obra, mas não tenho passagem pra voltar!
– Dona, tem dinheiro? Tem como me pagar a passagem? Tem como comprar um lanche pra mim?

Nunca havia visto pessoas pedindo dinheiro em um aeroporto. Havia muitos meninos de rua também ali, correndo por todos os lados, fugindo dos seguranças que vez ou outra os percebiam.

Quem eram esses trabalhadores das obras da Copa? Há atrasos nos pagamentos? Qual é o salário que esses homens recebem? Aqueles homens de uniforme atribuem uma nova estética ao aeroporto. Como é a integração dessas pessoas nesse cenário? Que reações despertam?

Perguntas com respostas que parecem óbvias, mas que ainda pairam por aí…

Postar, Amar, Rezar
Tailandês sentado no chão por horas e horas na mesma posição de prece (sim!), com o celular nas mãos. Como se não houvesse nada mais a sua volta – somente ele e o mundo pelo qual é conectado através do celular. Chinelo Rider, camiseta étnica e passaporte made in Thailand

China
Silvia? Silvia? Alô! Alô, Silvia? To indo pra China! … É, agora. Daqui a pouco! China! To indo. Tá! Tchau!

[Imagem: cena do filme ‘O Terminal’, 2004]

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Sobre o Autor

Estudante de Ciências Sociais na UFSC, tem trabalhado com Antropologia. Estudou Comunicação e Estudos Culturais em Portugal e na Inglaterra.



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