Pirão stage_texto_leomotta_dentro

Publicado em fevereiro 7th, 2012 | por Léo T. Motta

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CONDICIONAL

[Foto de divulgação]

“Livre pra poder sorrir, sim, livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”. Liga não, sempre quis abrir um texto com um quote escroto de filósofo de rodoviária pra mostrar como qualquer um compõe qualquer merda e cai no status de citação foda hoje em dia.

Existe um ponto quase que utópico dentro da nossa condição humana (sic) que chamamos de liberdade. Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade. Não fosse a liberdade que tenho para escrever, você e a pessoa que está lendo por cima do seu ombro não teriam como apreciar ou odiar o que estou dizendo. Não fosse pela sua própria liberdade, jamais teria chego arbitrariamente ao site da Naipe, ao Pirão e muito menos ao meu texto. Digo isso tudo porque, como bem sabemos, a liberdade tem limites. Um deles diz respeito à liberdade homogênea entre nós todos; a consciência de que minha liberdade termina onde começa a sua, assim como a sua só será garantida enquanto não interferir na minha.

Se escolho ir para o Summer Soul Festival em Floripa, por exemplo, é porque tenho liberdade pra isso. Mas não posso – ou pelo menos não devo – alugar um caminhão pra dirigir entre as duas pistas, atrapalhando assim a de quem mais estiver na estrada. Enfim, imbuído de todas as minhas liberdades peguei a estrada com amigos e namorada pra ver Florence Welch rasgar os ouvidos do público com suas belas melodias, acompanhada por sua exímia – máquina – banda de apoio, The Machine. Claro que a alma music clássica ainda que contemporânea da cantora Rox também muito nos atraía e Bruno Mars levantava uma espécie de, no mínimo, curiosidade otimista.

Foi graças ao livre arbítrio individual – pra não ficar usando a palavra-chave dessa pensata à exaustão – que cada um dos dois ocupantes do carro aproveitou a parada no Beiramar Shopping para comprar suas entradas por 160 pilas, para mais tarde descobrir que na mão dos cambistas os preços flutuavam facilmente entre R$ 80 e R$ 150. É questão de liberdade cair no truque VIP de Jurerê Internacional, quando lhe oferecem uma vaga no estacionamento pelo dobro do preço, por motivos que você totalmente desconhece e não valem, na melhor das hipóteses, dez pilas. Como sou livre, escolhi tomar umas boas Itaipavas antes de entrar na fila em ziguezague que estalava a proporção de 3 mulheres por homem ou coisa do gênero.

Já lá dentro, parte de minhas escolhas passaram a ser sacrificáveis pelo bem coletivo; afinal, não dói ficar logo à frente da mesa de monitores ao invés de logo atrás. Sei conceder a qualquer um a liberdade condicional de passar pelo local onde estou parado assistindo o show. Cabe a quem passa, pela lógica, ter o bom senso de não parar imediatamente na minha frente pra curtir o show se aproveitando da minha vaga.

Não que eu possa reivindicar tanta liberdade num espaço com boas dez pessoas por metro quadrado, mas certas questões que nos são impostas começam a colocar nossa liberdade em cheque. Acabei, eu mesmo, me colocando em sinuca: livre que sou, relatei isso tudo pra reclamar de algo que aconteceu, mas agora me sinto sem jeito de ter dedicado uma pauta inteira a criticar o trabalho de alguém. Mas, pensando bem, a crítica não é exatamente ao trabalho da pessoa, é ao gestor que deu a sugestão de colocar uma meia dúzia de funcionários com bandejas pra vender chicletes e cigarros em meio ao público.

O tiozinho transeunte do isopor que vende meio litro de água a R$ 8 e a lata de cerveja a R$ 10 passa eventualmente entrecortando os poucos caminhos meio ao público, mas até aí tudo bem. Sede mata, de fato, e o isopor costuma ficar em cima da cabeça, sem comprometer o já limitado espaço para se curtir o show. O que me deixa fulo (pra não dizer full house, ou puto da cara mesmo) é quando resolvem que as pessoas merecem chicletinho e isso é prioridade. Quando a organização resolve, por bem, comprometer a experiência musical de quem pagou caro pra estar ali em detrimento de um ou outro preguiçoso que “precisa” comprar uma carteira de cigarro a R$ 10 e não pode esperar o show terminar pra isso.

Num mundo ideal, a prioridade dentro de um evento musical seria a do público pagante, que viabiliza a realização dos shows; isso sem entrar no mérito das cotas de patrocinador, imprensa, camarotes blasé e tudo o mais. Devia ser passível de punição enfiar um funcionário nessa massa humana, portando uma bandeja que o faz ocupar quase 1m², em favor do capitalismo superfaturado e da comodidade de alguns poucos. Sacrificar a qualidade da experiência musical para a grande maioria visando 140% de lucro sobre a venda de cigarros e guloseimas não é boa ideia em ocasião nenhuma.

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



3 Responses to CONDICIONAL

  1. Everson says:

    Na verdade, “Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade” é uma paráfrase da Cecília Meirelles (e, IIRC, já é uma citação parafraseada de forma poética de um texto do Mills).

  2. Léo T. Motta says:

    Pois é, fiquei sabendo depois desse esquema. Entramos por onde a puliça indicou e as opções eram estacionamento comum (R$40) ou VIP (R$80) – não sei se os bolsões estavam inativos ou eles providencialmente esqueceram de avisar sobre..

    Em tempo: a citação “Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade” é de autoria de Julio Cesar Mendonça e consta na música Respiração, que está por vir no álbum Luaria da Casa de Orates.

  3. Thiago says:

    Ô, rapá

    Não usasse os bolsões de estacionamento a R$ 10? Realmente estão funcionando, um esquema notável. Agora nossos carros já podem ir ao show sem pagarem tanto – por enquanto, pelo menos, eles ainda não parecem se importar se ficam com as rodas em alas VIPs ou não, hehe.

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