Pirão criticaacritica

Publicado em junho 17th, 2011 | por Revista Naipe

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CRÍTICA À CRÍTICA

[Por Diego Max]

Imaginei quase todas as formas de como iria iniciar esse texto.

Até havia separado clichês que tinha em minha manga. Pensei em citar algum escritor famoso para causar uma boa impressão. Li textos críticos que banhavam meus olhos de adjetivos, contradições e clichês rigorosamente em fila, tais como “de olho num novo olhar”, referindo-se a um velho fotógrafo, “não houve nada igual nos últimos anos”, sobre um genérico de Elvis e “ele é jornalista e autor de vários contos, entre outros livros”, mostrando a ausência de informação do indivíduo.

No tempo do “boom” da informação massificada, do miojo cultural, um enunciado basta para que internautas travestidos de “novos formadores de opiniões” e “críticos” profiram disparates por trás de seus computadores. Almir de Freitas me fez lembrar que existe uma crônica sobre o livro O Sal da heresia (1941, de Sérgio Milliet), na qual Manuel Bandeira, crítico implacável e cronista severo, esclarecia o título: tratava-se do “sal” que deveria temperar a boa crítica. “A verdade” escreve, “é que não havendo choque, aí sim, não existe necessidade nenhuma de crítica”.

Mas que discurso crítico estamos dispostos a consumir? O persuasivo, aquele que o autor pretende converter o gosto do leitor? Talvez não haja nada de mal nisso, de errado, é um impulso até honesto, mas às vezes jovens (e velhos) aspirantes que tem como verdade “quero me tornar um crítico” ou “sou crítico” agarram-se a esse rótulo como um salvo-conduto. Sem qualquer preocupação com apuração precisa, informações verdadeiras ou responsabilidade. Miles Davis não estava nem um pouco ligando (e cá entre nós nem precisava) para os críticos quando disse, em 1962: “Não ligo para o que os críticos falam de mim, sejam bem ou mal. Eu sou meu crítico mais exigente”.

Bons drinks

Ok, então o que hoje podemos escrever com liberdade? Podemos ser severos e irônicos, ser o mestre Lester Bangs e fuzilar qualquer um a nosso modo, ficar apenas com a irresponsabilidade e a pinta de idiossincrático? O que diferencia a minha ou sua técnica da faculdade de julgar e analisar da de Bukowski, Hunter Thompson e Burroughs? Uns bons drinks a mais? Ou alguns Darvons a menos?

Talvez, se a onda for ser chato, seja o caso de experimentar o excesso de acidez e sarcasmo, se classificar como eterno outsider, ler aos pulos biografias, notas, livros, fazer como outros que se esmeram em sempre conhecer e citar bandas, livros, filmes mais obscuros (ou se não soar gasto demais) “underground”. É possível contrapor-se a opiniões ou até mesmo jogar o livro de lado como fez Paulo Francis ao ler a biografia de Einstein e, ainda assim, questionar o biógrafo. Explorar e ir avançando às cegas. A identidade virá com tempo.

Não que isso tudo soe como ironia mordaz e que a crítica seja certeira de minha parte, mas você pode tentar criar um alicerce e colocar por terra toda a objetividade jornalística, talvez até consiga o título, hostil a qualquer door policy e a leões – de chácara. O fato é que existe esse ranço. Continuamos empacados e ancorados nas poses de escritores durões e meros imitadores. Tendemos a concordar com padrões existentes (não que isso seja ruim). Não basta você tirar o documento, é necessário identidade. Não sei se ainda existe por aí como princípio aquele modelo de escrita de lapidar, que lima, apaga, reescreve, burila.

Em um artigo Francis escreveu: “Atingi um nível de entendimento das coisas que considero satisfatório. Quer dizer, sei que sou ignorante, mas que tenho base para deixar de ser naquilo que me interessar”. E ao me abster de clichês nauseabundos e de discursos factivos, reflito e deixo por fim um fragmento de uma crônica (1933) de Manuel Bandeira que diz “A vantagem dos críticos está em não comprar livros; a desvantagem, às vezes em ler”. Sem mais delongas porque a vida urge.

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*Diego é viciado em café e internet, chato por opção, músico/produtor de quarto e editor/independente.

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Sobre o Autor



4 Responses to CRÍTICA À CRÍTICA

  1. Juliano says:

    Eu não gostaria que meu livro fosse lido por você… hahahahaha… muito bom o texto!

  2. Ariel says:

    Eu acho que o crítico é aquele que vive, que experimenta, e tem a tese da coisa. O que nos diferencia de Burroughs ou Bukowski? Aquiela vida. Tanto não é saber a vida por um livro, como não é a saber apenas pelos fatos. É o meio termo.

    Massa o texto.
    :)

  3. Léo T. Motta says:

    Sou suspeito pra falar, babei a cada referência literária que tu jogou ali… Mas afudê mesmo o texto, consegue ser ao mesmo tempo um conflito constante e uma resignação aceitável. Way to go, boy! Stache power!

  4. Gustavo says:

    Fala Diguito. Sensacional a crítica hahahaha é nois hermano! vembora

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