Pirão sterblitch-capa

Publicado em junho 8th, 2011 | por Jerônimo Rubim

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“VOCÊS VÃO À MICARETA QUE EU SEI”

“Vida de artista é foda” solta ao microfone um mágico que se apresentava no salão, explicando o atraso do ator principal.

Talvez seja foda para um mágico de Florianópolis, mas para Eduardo Sterblitch e seu salário de estrela nacional do humor a vida nunca foi melhor. Talvez por isso o monólogo Minhas Sinceras Desculpas seja tão dúbio – para público e intérprete ao mesmo tempo.

O espetáculo foi apresentado sexta-feira na capital. Seu flyer dizia apenas “O ator que interpreta o César Polvilho e o Freddie Mercury Prateado no Pânico da TV”. A maior parte do público que lotou o Floripa Music Hall – cadeiras desconfortavelmente soltas, organização estranhíssima – esperava o humorista bobinho e hilário dos domingos de noite.

– O Jô falou que é bom e assistimos o cara todos os domingos. Estamos aqui pra conferir o que vier -empolgava-se o casal novinho Felipe Damiani e Ana Carolina Cirimbelli antes de tudo começar.

Com uma hora de atraso por causa das gravações do Pânico na TV – o próprio público já entrou atrasado, mantendo a tradição ilhoa –, o espetáculo começa invertendo expectativas. José, poema existencial de Drummond (E agora, José?…), abre a peça. Ninguém parece prestar muita atenção no que isso quer dizer. Sterblitch se desculpa quase nada pela demora e muito pelo que está por vir. Não dá pra saber se são sinceras as desculpas, mas fica avisado: sou ruim de texto, isso aqui é uma enrolação, vocês estão jogando dinheiro fora. Sorrisos amarelos nas cadeiras.

Depois dessa largada calculadamente fria, Sterblitch vai aquecendo a plateia com um humor genuinamente natural, um humor que brota sem esforço – mesmo quando é escatológico e de mau gosto. Foi para isso que o público pagou R$ 60, afinal. Para rir pela noite, e as caras bobas e trejeitos extraem risadas fáceis. E há uma banda, uma puta banda com vozeirão, metais e um cara que toca três guitarras ao mesmo tempo: “Eles vão fazer valer o preço do ingresso”.

Mas aos tenros 22 anos, Sterblitch parece estar com raiva. Como um adolescente hormonal, ele muda de atitude rapidamente. Quem esperava Sterblitch pintado de tinta prata é chamado de burro, quem não sabia o que esperar também é burro. “Vocês vão à micareta que eu sei”, metralha. “Vocês só estão aqui porque me viram no Jô e humor está na moda”. Uma senhora pede que ele faça o César Polvilho, pedido educadamente negado.

Comediante, ator

Algo está errado, muito errado nesse mundo, valores estão corroídos, a arte não é valorizada, cospe o ator As intenções vão ficando cada vez mais claras, e tudo começa a parecer uma tiração enorme de sarro – mas você tem que prestar atenção pra sacar, se desvencilhar das coçadas de saco de 20 segundos. O público ilhéu se agarra nas bobagens que ele vai lançando aos poucos, como um encantador de cobras desdenhoso.

– Não sou nada, eu sou o cara que imita o Tiririca. IMITA o Tiririca.

A internet está cheia de gente ofendida classificando a peça como lixo, outros a acham genial. A banda é inquestionável. O final, claro, é um anticlímax.

Pedro Lombardo, 22, disse que o monólogo/show é animadão, valeu o preço do ingresso, só o final “ficou a desejar”.

Vinicius Gucowski, 19, ganhador dos ingressos que a Naipe sorteou via Twitter, resume com lucidez:

– Dá pra perceber a frustração dentro dele. Acabou sendo conhecido pelo lado comediante, mas queria ser reconhecido como ator. Várias partes são engraçadas, mas também tem muita enrolação e coisas bobas. E muita coisa só fui entender depois. Gostei, é bem interessante.

E esse é o estranho caso do artista que só faz sucesso – e ganha muita grana – por causa de uma sunga minúscula e voz de criança na TV, mas renega o papel no palco. Sterblitch infantiliza domingos mas quer ser levado a sério no teatro.

É aí que está o mérito de Minhas Sinceras desculpas, dirigida e escrita por Sterblitch. A dubiedade que leva a uma lenta e pensante digestão.

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Sobre o Autor

Ex-editor da Naipe, morou cinco anos pelo mundo. É jornalista por DNA e, em breve, por formação.



One Response to “VOCÊS VÃO À MICARETA QUE EU SEI”

  1. Ana says:

    Achei GENIAL a peça!

    Não vejo Pânico pois acho forçaaaaaado demais.

    Mas minha amiga ia e decidir ir!

    Demais! o Cara mandou muito bem!

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