Pirão Ilha Bela - Aquarela por Dudi

Publicado em setembro 27th, 2012 | por Roberta Ávila

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DESENHANDO COM DUDI MAIA ROSA

Aqui na aula não tem o certo e o errado mas tem o dó de peito, tem aquele desenho que bota a bola no chão, que é sincero.

Tem desenho que é de quem sabe desenhar e tem aquele que é fruto do trabalho. Eu admiro muito aquilo que vem da dificuldade e do esforço, que não é só da habilidade, da pessoa que senta lá e faz. Quando eu era pequeno sempre tinha aqueles meninos que desenhavam super bem, faziam o carrinho, o avião nos mínimos detalhes, o visor, o ponteirinho. Eu nunca fui assim, para mim sempre foi na dificuldade.

Eu tenho um amigo que um dia me perguntou “poxa, arte é um coisa tão micha, porque é que você faz isso”? E eu respondi que eu sou um cara micho. Quando eu era mais jovem toda vez que alguém ia jantar lá em casa eu levava no meu ateliê para ver as coisas. A gente tem uma necessidade de se validar, está sempre se perguntando se é bom o suficiente, achando que está aquém de alguma coisa, que não sabe, que não consegue. E é isso que temos que deixar para trás. A gente começa a desenhar e parece que está a mãe da gente ali do lado na nossa orelha dizendo “o desenho tem que ser bonito, tem que parecer com o modelo, desenha direito!” e não é assim. Cada um tem seu desenho e a gente tem que deixar ele acontecer. Tem que gostar de desenhar e desenhar por prazer, não por prestação de contas. A gente vive prestando contas na vida, mas não precisa prestar contas na arte. Se o seu desenho não ficar parecido com o modelo, e daí? Ninguém questiona se os desenhos de Picasso são bons. Talvez ele mesmo questionasse.

Cada um tem seu desenho e a gente tem que deixar ele acontecer. Tem que gostar de desenhar e desenhar por prazer, não por prestação de contas. A gente vive prestando contas na vida, mas não precisa prestar contas na arte

O que você acha daquele desenho? Mas calma, não é José Celso Martinez, não vamos te tirar a roupa aqui, mas promover o diálogo. A gente sempre é mais duro, mais rígido com a gente mesmo, por isso que é importante expor os desenhos no final, porque os outros vão ver qualidades e beleza no seu desenho que a sua autocrítica não te deixou ver.

É por isso que é bom a gente desenhar com a mão esquerda (ou a direita, para os canhotos), porque aí a gente se permite desenhar em paz, a gente não fica pensando que tem que ficar perfeito, que tem um padrão a ser alcançado. Às vezes, quando a gente vai desenhar uma galinha, por exemplo, você pode vir aqui e desenhar o que se espera de um desenho de uma galinha ou você pode tentar desenhar a galinha com seu movimento, considerando como ela anda, como ela cuida do pintinho, como ovo, como experiência muito mais completa.

Acho interessante explorar essa sensibilidade sem ser indicativo. Você passa o lápis para a mão esquerda e o que era difícil vai ficar impossível e você vai desistir de resolver e vai surgir uma coisa completamente nova. Não se preocupa com o resultado. A esquerda é para isso. É como se você resolvesse virar bêbado e se desse uma chance de vivenciar essa experiência, vivenciar o desenho. Tem gente que acha que desenhar com a esquerda é roubar no jogo, mas eu acho que a conversa entre os dois lados do cérebro é que é o jogo.

Esse negócio da mão esquerda é que nem uma vez em 1969, quando a gente estava voltando do Marrocos e tinha um português com a gente que nunca tinha fumado maconha, aí passaram um baseado para o cara, ele experimentou e disse “ai pá, acho que vou me dedicar à droga”. Quer dizer, uma vez que você experimenta essa liberdade do lado esquerdo, às vezes a gente nem quer mais saber da mão direita, mas é o equilíbrio entre os dois lados que a gente tem que procurar para conseguir uma sintonia fina no desenho e tem infinitas maneiras de fazer isso.

Esse aqui, por exemplo, é um desenho que é igual aquele cara que chega na sua casa sem avisar, abre a geladeira, come tudo, xaveca sua mulher. Ele tem uma oferta muito grande, vai, volta, tem uma coisa barroca, mas tem também aquele aluno que chega todo pronto, mas cheio de dúvidas. Ele domina a ferramenta mas se pergunta como é que vai ser da próxima vez em que for desenhar. Ele vai repetir a fórmula? Ele tem uma fórmula? Ele tem que desconstruir a fórmula toda vez e começar tudo de novo para que seja válido? Ou ele tem que aperfeiçoar a fórmula? No fundo é aquele pobre menino rico, tem grana, tem carro, mas não sabe para onde ir e fica perdido ali na rua Augusta.

O que eu posso dizer é que você não vai encontrar uma resposta, vai ter que viver para ver. Isso eu aprendi na terapia. Qual o sentido da vida? O sentido da vida é senti-la. E a gente se reconforta nessa experiência. Da mesma forma que quando a gente encontra aquele desenho “primeiro amor”, é uma pena se distanciar disso, perder essa pureza. Mas não cai nessa da mão espertinha, deixa sangrar, deixa correr a linha.

Acho que essa é a parte mais difícil do meu curso, a parte divisora de águas. Quando a gente é jovem e se depara com a abstração às vezes sente medo de que a abstração te leve a um sem padrão, uma perda

Cuidado para a mão não ser mais rápida que o olhar. Tem que ser o equilíbrio do olhar com o desenhar, mas quando a gente consegue isso é como quando aquele cara que é bom e coloca a bola no chão. Aí não tem quem segure: ele vai jogar bola. A resposta padronizada, programada, não tem entusiasmo. É na parte sensível que o desenho mostra a que veio.

Por exemplo, esse desenho aqui tem alguma coisa de história em quadrinho pow! pá! quer dizer, talvez esse seja um elemento do nosso tempo e a gente tem que se adaptar, não tem resposta absoluta. Mas a gente sempre pode pegar uma carona nos mestres.

Vamos copiar obras do Picasso hoje. E aí, o que vocês acharam? Eu achei que o resultado foi muito legal. Quer dizer é assim com todos os grandes mestres, eles incluem, não tem um mestre que exclua, eles dizem “vem que dá!”. Quer dizer, cada um dá o que tem, mas eles têm isso de instigar, de inspirar, de movimentar a gente.

Agora nós vamos desenhar a nossa respiração. Agora os ossos do nosso corpo. Agora o equilíbrio. O filósofo Rudolph Steiner dizia que a gente não tem só cinco sentidos, a gente tem dez sentidos e um deles é o equilíbrio. Acho que essa é a parte mais difícil do meu curso, a parte divisora de águas. Quando a gente é jovem e se depara com a abstração às vezes sente medo de que a abstração te leve a um sem padrão, uma perda, mas na verdade a gente vê que os elementos do abstrato conversam com os elementos do figurativo e isso é enriquecedor, traz crescimento para o desenho. E é legal essa experiência porque ela é uma experiência de presença. Ela não te indica um lugar onde você vai chegar, é uma coisa que você vive ali.

Quebre esse contrato de que as coisas têm um jeito só de serem feitas.

*Texto escrito a partir da experiência da jornalista Roberta Ávila no curso de desenho que fez com o artista plástico Dudi Maia Rosa. A imagem que ilustra este post é a aquarela “Ilha Bela”, do artista. Saiba mais sobre ele aqui.

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Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



2 Responses to DESENHANDO COM DUDI MAIA ROSA

  1. Roberta Ávila says:

    Brigada, Julia! É muito bom fazer alguma coisa em que você não tem como errar, porque não existe errado, não é? Acho muito interessante o processo da gente aceitar nosso próprio desenho. =D

  2. Julia Back says:

    como ilustradora sempre pensei isso das aulas de desenho, desde o tmpo do colégio. até mesmo na faculdade de design muita gente repete o mantra “não sei desenhar”.
    mas é assim mesmo, quem tem mão sabe desenhar (as vezes até sem), e cada um desenha de um jeito. é justamente aí que está a graça da coisa. a versão de cada um
    deveriam parar de forçar padrões, e ensinar isto só para quem esteja interessado em reproduzir alguma coisa fielmente. técnica é uma coisa, arte é outra.
    muito bom o texto!

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