Pirão dinheiro

Publicado em outubro 25th, 2013 | por Roberta Ávila

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DEUS NÃO MORREU, ELE É DINHEIRO

“Tudo que você pode fazer aqui é comprar”. Essa frase é parte do começo do filme “O Terminal”.

O personagem de Tom Hanks, Viktor Navorski, de uma hora para a outra se torna um sem-pátria e fica preso no aeroporto, que pode ser chamado de um não-lugar, o lugar oposto ao lar. Ouvir essa frase do funcionário do aeroporto talvez não tenha significado nada para Navorski, que mal falava inglês, mas que bela frase é essa para se dizer a uma pessoa.

Comprar é parte essencial da nossa vida. Quantas pessoas não se comportam exatamente como se essa afirmação fosse verdade e resumem suas vidas a um ciclo: ganhar dinheiro para depois gastá-lo, sem que nenhuma das duas funções tenha qualquer significado além do ato em si e da fútil e breve satisfação que ele traz.

Recentemente me deparei com uma citação do filósofo Giorgio Agamben, que em entrevista afirmou: “Deus não morreu, ele tornou-se dinheiro e os bancos tomaram o lugar dos padres e manipulam e geram a fé. É no dinheiro que as pessoas depositam sua esperança. É a ele que aspiram. É nele que acreditam que está a felicidade, a saúde, a prosperidade e a beleza”.

Nos anos 1990, foi discutida a ideia de que com a evolução da tecnologia os homens passariam a trabalhar menos e teriam mais tempo para viver. Com isso, acreditava-se, existiria a necessidade um ócio criativo, teoria de Domenico de Masi. Isso, é claro, nunca aconteceu. As pessoas continuam trabalhando oito horas por dia, não importa o quanto a tecnologia avance e nos poupe tempo. As pessoas continuam pegando o carro todo dia para enfrentar algumas horas de congestionamento e ir trabalhar.

Poderíamos fazer conferências via skype, poderíamos trabalhar em casa conectados na internet com os colegas e livres da interferência constante do telefone, dos chefes, da criação incessante de novas prioridades e da falta de hierarquização das tarefas.

Esse comportamento foi classificado por Domenico de Masi, em visita a São Paulo, como loucura. “São Paulo é um grande manicômio. Eu não consigo entender como os milhões de pessoas que vivem aqui passam horas no carro a caminho do escritório, com tantas ferramentas tecnológicas disponíveis para trabalhar de casa”. Pois é.

Ao mesmo tempo, análises sobre a produtividade mostram que as pessoas passam boa parte do dia no trabalho protelando as tarefas. A produtividade geral do país pouco ou nada avançou nas últimas décadas e a nossa escala de valores de mercadorias não faz sentido quando comparada com a de outros países.

Esse assunto está em evidência tanto no editorias de jornais como também no cinema. Em Elysium, blockbuster que mistura (por algum motivo que foge à minha compreensão) Matt Damon, Jodie Foster, Alice Braga e Wagner Moura e se passa no futuro, a relação do homem com a tecnologia e a distribuição de renda são temas centrais.

O personagem de Matt Damon é tratado como cidadão de segunda classe por policiais robôs e tem que tratar sobre sua condicional com um androide que pergunta: você parece agressivo e agitado, gostaria de falar com um humano? Não chegamos ainda a esse ponto em que o trato com os humanos é opcional diante da quantidade de robôs (exceto na telefonia celular e caixas eletrônicos, que já nos proporcionam experiências adoráveis). Será que chegaremos?

Quando o culto da vida de uma pessoa é prestado ao dinheiro não é de estranhar que o resultado seja um vazio, mas será que outros tipos de culto fazem sentido?

O personagem de Matt Damon, com o braço quebrado, se vê, obrigado por seu superior, a entrar em um local onde acaba preso e contaminado por uma dose de radiação que é sua sentença de morte. Diante da hesitação do funcionário em se colocar nessa situação fofa, o chefe afirma: entre aí ou está despedido, se não quiser entrar aí, tem quem queira.

O filme é simplista, mas é interessante que coloque isso em questão. A tecnologia avança, mas as condições de trabalho e de vida não. Essa situação do assédio moral do chefe, que deixa claro que você é descartável e que se você não quiser aceitar determinadas coisas ou riscos não interessa mais para a empresa é clássica. Faz parte, talvez, das carreiras de todos nós.

O mesmo tema é abordado em uma animação chamada El Empleo, que ganhou (pasmem) mais de 100 prêmios nos últimos anos com um filme de poucos minutos sobre a situação dos empregados no mercado de trabalho. No filme, as pessoas substituem as coisas. Existe a pessoa cabide, a pessoa mesa, a pessoa armário, semáforo, e claro, a pessoa capacho, que no fim das contas, somos todos nós.

Quando o culto da vida de uma pessoa é prestado ao dinheiro não é de estranhar que o resultado seja um vazio, mas será que outros tipos de culto fazem sentido?

Cada vez que passo por um desses hippies que vivem em torno das praias no verão e das calçadas durante o resto do ano, vendendo brincos de penas e filtros de sonhos, me pergunto: será que essa pessoa não se sente deslocada defendendo ideais e vivendo, em geral, como se estivesse na década de 70?

Que vida é possível se viramos as costas para esse deus, o dinheiro? Que vida é possível se o cultuamos?

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Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



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