Pirão

Publicado em maio 18th, 2014 | por Lucas Pasqual

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DO VELHO MUNDO*

Eu durmo numa cama muito espaçosa.

É até meio cruel ficar sozinho todas as noites naquele espaço monstruoso. Tento ocupar o vazio com uns travesseiros e sempre levo textos pra terminar de ler antes de dormir. Levo também o celular e o iPad. Não quero nem pensar em ficar desconectado logo ao acordar.

“Preciso ler meus e-mails.” É meu primeiro pensamento naquele estágio meio alfa, em que a gente percebe que não tá mais dormindo, mas ainda não abriu os olhos pra encarar um dia novo. Então eu abro um olho de cada vez, ligo o iPad e acesso minha caixa de entrada. É raro ter mais que três e-mails novos. A última coisa que eu fiz antes de dormir foi justamente atualizar aquela caixa de entrada.

Hoje minha rotina não foi diferente. Pensei nos e-mails, abri os olhos, dei uma conferida rápida, fechei o iPad. Uma hora depois, quando eu já estava quase pronto pra sair de casa, o porteiro passa um envelope por baixo da porta. Ao menos eu imagino que tenha sido o porteiro. Não abri a porta pra conferir. Fiquei ali na sala tentando entender a situação.

Ninguém nunca passa envelopes por baixo da minha porta. Tem uma caixa de correspondências no térreo pra isso. Tudo vai pra lá. Eu só preciso destrancar a portinha e retirar as contas de lá de dentro. Geralmente são contas.

Mas não dessa vez. O envelope estava ali, no chão da sala, parado entre eu e a porta. Havia um envelope no meio do caminho. No meio do caminho, havia um envelope. O que raios havia dentro do envelope?

O remetente estava em branco. No destinatário, meu nome e endereço completos. Meu coração já foi a mil. Tinha certeza que era a carta de um admirador secreto. Talvez o vizinho novo da frente. Ou o cara que morava no andar de baixo, sempre simpático, sempre sorridente. E era o meu admirador secreto, porque o envelope estava endereçado a mim, e não pra menina que mora comigo. Óbvio que era pra mim. Lógico que era o meu admirador secreto.

Um sorriso aberto ia de canto a canto na minha boca. Queria abrir o envelope, mas não queria estragar nem rasgar nada. Nunca se sabe, essa poderia ser a primeira prova de amor em um relacionamento pra vida toda. E agora? Usar uma faca? Uma tesoura? Acender o fogão e esquentar o envelope até que a cola se soltasse naturalmente? Funcionava nos filmes, deve ser assim na vida real também.

Esperei uns quatro minutos. Não tinha mais sorriso no meu rosto, eu estava era impaciente. Maldito fogo que demora pra esquentar. Aflição, aflição. Até que abriu, de repente. Toda a parte superior se soltou. Desliguei o gás e já tirei o papel que estava dentro do envelope ali mesmo, na porta da cozinha.

O papel era meio amarelado, com cara de velho, feito do mesmo material grosso que o envelope. Só um lado estava escrito. No alto, a data. Ao pé do papel, uma assinatura. Era uma carta.

E não era de nenhum admirador secreto. Minha vaidade ia diminuindo à medida que minha alegria aumentava. Olhei novamente para o envelope e só então percebi os selos e o carimbo do Royal Mail. O remetente era uma amiga inglesa, que conheci havia oito meses e que me prometera, quando nos separamos, que me escreveria. Eu só não esperava que fosse uma carta. Achei que receberia um e-mail, ou uma mensagem fofa no Facebook. Vá lá, até um depoimento no Orkut, esses ingleses são excêntricos. Mas não, era uma carta.

Não sei se foi choque, surpresa ou euforia, mas fiquei segurando aquele pedaço de papel amarelado por uns quinze minutos. Dane-se a aula, dane-se a vida, eu precisava responder minha amiga naquele instante, antes que o sentimento fosse embora.

Liguei o iPad, abri o Facebook e mandei uma mensagem bem bonitinha.

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*Escrevi esse texto há um ano e um mês, exatamente. Ainda não enviei uma carta em resposta à amiga inglesa, mas meu Facebook tem posts diários.

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Sobre o Autor

Jornalista mato-grossense criado pela avó. Dispensa botinas e troca café por chá gelado sem pensar duas vezes. Equilibra o vício declarado por post-its com citações de seus seriados favoritos e acredita que o mundo seria um lugar melhor se RuPaul chegasse às massas.



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