Pirão melancholia_dentro

Publicado em setembro 21st, 2011 | por Revista Naipe

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DOIS MUNDOS QUE COLIDEM

[Por Everton Antunes]

Com o distanciamento histórico (de um mês) pude matutar melhor, e sem me preocupar com spoilers, sobre os dois grandes hits do festival de Cannes que passaram nos cinemas daqui: Melancolia e árvore da vida.

A árvore da vida faturou a Palma de Ouro enquanto Melancolia quase foi ofuscado pela polêmica do diretor Lars Von Trier ao dizer que compreendia Hitler. Desta vez a brincadeira não foi bem aceita no tapete vermelho (a cara de sem graça de Kirsten Dunst durante a coletiva é impagável) e hoje Trier é persona non grata, deixando o festival mais chato. Já o diretor de A árvore da vida, Terence Malick, é cultuado por uma carreira de poucos filmes mas de estilo próprio – em geral com uma grande fotografia como no drama de guerra Além da Linha Vermelha (1998) – e também por se recusar a dar entrevistas, o que lhe dá uma certa aura cult.

Os filmes praticamente tratam do mesmo tema: a pequenez da vida humana diante do cosmos. Mas o tratam de maneiras bem diferentes. Enquanto o dinamarquês Trier exercita seu niilismo com uma visão pessimista sobre a existência, o norte-americano Malick mostra o gênesis e a redenção da culpa cristã. Os dois filmes também têm estéticas bem diferentes entre si e muito próprias de cada diretor. Mas cada um tem pelo menos uma sequência catártica, no que muito se parecem.

No caso de Melancolia é logo a seqüência de abertura, toda em slow motion, com enquadramentos geométricos e cores sombrias, ao som da ópera Tristão e Isolda, de Wagner (cujo tema se repete ao longo de todo o filme) e que termina com os dois planetas colidindo, lembrando, claro, a sinfonia das esferas de Stanley Kubrick em 2001. Mesma referência parece ter Malick na enorme sequência que mostra as galáxias, o big bang, a luz se criando na escuridão e os dinossauros.

Melancolia me lembrou muito outro mestre da ficção-científica cabeça: Andrei Tarkovski. Talvez o maior cineasta russo durante a era da União Soviética (acabou exilado), Tarkovski abordou temas filosóficos em filmes densos e sempre com uma linda fotografia. Filmes como a primeira versão de SolarisStalker, que fala de uma zona proibida onde teria caído um meteorito na Rússia; e O Sacrifício, seu ultimo filme (1986), que muito tem a ver com este Melancolia – só que em vez do planeta em direção à Terra é a guerra nuclear que acaba com as esperanças da humanidade. Neste filme, feito na Suécia, Tarkovski aborda mesmas questões que Trier, só que com um tom mais otimista.

Vida adulta

Trier divide seu longa em dois capítulos. O primeiro é a cena de casamento da personagem Justine, de Kirsten Dunst, no que supomos (na nossa cultura judaico-cristã) que deveria ser o dia mais feliz da sua vida. Realmente, no começo ela aparece sorridente a tudo, gargalhando em qualquer situação banal. A todo o momento os convidados perguntam: “Você está feliz?”, mas quando ela foge dos olhares dos convidados a melancolia aparece.

Muita gente se perguntou qual seria a causa da depressão da personagem. Talvez fosse a intenção de Trier deixar isso em aberto, mas para mim fica bem claro nas cenas do casamento que a hipocrisia da vida adulta está no cerne de sua desesperança com a humanidade. É bastante interessante a cena em que o chefe de Justine apresenta (e humilha) um jovem rapaz que está começando no trabalho; Justine o cumprimenta de maneira ambígua dizendo: “Bem-vindo à vida adulta.”

No capítulo seguinte o foco da narrativa muda para a irmã de Justine, Claire (Charlotte Gainsboug), que tenta ser a mais equilibrada possível e cuida da irmã quando ela cai em depressão profunda. O planeta Melancolia, que durante o casamento era apenas uma estrela distante, agora é a base de teorias apocalípticas que assustam Claire, enquanto o marido (Kiefer “Jack Bauer” Sutherland, como uma luva no papel), um homem rico e confiante em si mesmo, desdenha da sensibilidade de Justine e da preocupação de Claire com o fim do mundo.

Mas Claire tem uma razão especial pra se preocupar – e não é a irmã ou o marido, mas o filho, que infelizmente morrerá ainda criança. Coisa que para Justine talvez seja melhor do que crescer nesse mundo horrível. Nisso também lembro de O Sacrifício, onde um velho intelectual ateu se relaciona com o neto, que não pode falar porque operou a garganta, e reza a deus para salvar o mundo da destruição unicamente por causa do menino.

O roteiro de Melancolia é muito bem armado, deixando a parte da ficção-científica como um pano de fundo para a crise existencial dos personagens. A mudança de foco também demonstra a mudança de atitude deles diante da tragédia anunciada, Justine se torna a mais lúcida e consciente enquanto os outros perdem as esperanças pouco a pouco. Destaco também a cena do “nascimento” do planeta Melancolia, observado como um belo fenômeno da natureza. Isso me despertou uma lembrança de adolescência – em 1994, acompanhei um eclipse total do sol em Criciúma. Trier conseguiu representar bem o mesmo clima de assombro e até as “ferramentas” para observar o fenômeno – como o arco que permite perceber se o planeta está se aproximando ou se afastando, o que significa a esperança ou a desesperança.

Dissimulação

Na minha modesta opinião, a Palma de Ouro deveria ir para Melancolia e não A árvore da vida. Mas talvez por eu próprio ser meio niilista.

A árvore da vida é quase um filme autobiográfico de Malick, inspirado em acontecimentos da sua própria infância (como o falecimento de um irmão) nos anos 50 num Estados Unidos suburbano. O filme fala das lembranças do personagem de Sean Penn (que só aparece no começo e no final, o que enfureceu o ator), um corretor de bolsa de valores aparentemente frio e calculista mas que guarda dentro de si lembranças profundas, tanto ternas quanto amargas.

Seu pai (Brad Pitt) é um chefe de família duro e forte, mas preocupado em ensinar os filhos a vencerem na vida, em contraponto à mãe (a novata Jéssica Chastain), que é doçura só e se torna porto seguro dos três filhos do casal.

Basicamente é isso. Malick alterna belíssimas cenas bucólicas enquanto os personagens sussurram pensamentos íntimos (no que também lembra o estilo de Tarkovski e suas poesias), com cenas das manifestações da natureza, trevas e luz, galáxias e até dinossauros nascendo e se extinguindo. A narrativa vai contando os acontecimentos lentamente, sem preocupações cronológicas, até levar a um processo de purgação da culpa que chega ao clímax. Então percebemos o viés bastante cristão de Malick, o que não é um demérito (mesmo porque acredito na sinceridade dele nesse ponto), mas a cena final me incomodou pela pieguice, algo que eu realmente não esperava do cineasta.

Outro ponto de convergência entre Melancolia e A árvore da vida está na importância da passagem da infância inocente (ou inconseqüente) para a vida adulta, onde temos que jogar conforme as regras, dissimulando, omitindo, fingindo… Em Melancolia isso está representado no personagem do jovem empregado, e em A árvore da vida nos “ensinamentos” do pai Brad Pitt, que parecem realmente levar o filho ao sucesso, conforme vemos nas cenas com Sean Penn em Wall Street.

2012

Coincidências demais? Na verdade acho que sim. Vistos separadamente, os filmes têm suas próprias forças, abordagens bem diferentes, e o próprio fato de outros cineastas do calibre de Tarkovski e Kubrick já terem feito coisas semelhantes entre si mostra que o tema é quase universal. Básico: desde que o homem tomou consciência de si ele se questiona sobre sua existência, de onde veio, para onde vai, se existe deus, ou um sentido, ou se de uma hora para outra tudo pode acabar. Outros filmes ainda vão tratar do tema sob outras formas.

Ou talvez alguma consciência superior acabou introjetando essa mesma ideia na cabeça dos cineastas para aproveitarem logo e fazerem seus filmes, porque 2012 é ano que vem.

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One Response to DOIS MUNDOS QUE COLIDEM

  1. marcio says:

    bom texto everton, mas a arvore mereceu a palma. e prefiro o otimismo do malick.

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