Pirão fear-and-loathing_dentro

Publicado em novembro 25th, 2011 | por Léo T. Motta

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NOSSAS DROGARIAS

Crianças gordas abocanham seus McLanches Felizes, já prestes a comer o boneco de plástico da nova animação da Disney que veio na caixinha, enquanto os pais condescendentes observam com um sorriso no rosto.

Recém-casados, felizes ou não, passeiam por algum cenário genérico de shopping numa noite de domingo. Moleques pré-adolescentes saem em manada de uma sala de cinema, suas mãos engorduradas de pipoca gesticulando meio a comentários sobre a película, as cascas de milho ainda grudadas nos dentes. O famoso metaleiro predial não fica de fora; coturno nos pés e mochila nas costas, fones entalados nos ouvidos para apreciar o mais jurássico registro de guitarras sujas que se tem notícia. Há algo de gritante unindo cada um deles ao próximo, e não falo de crenças ou valores. Falo, abertamente, do relacionamento e dependência de todos com… Drogas.

Catarro, escarro, catarse, escárnio. Vomito uma dúzia de conceitos para ideias já conhecidas enquanto observo o mundo à minha volta. E as pessoas tornam-se coisas, os lugares parecem ganhar identidade. Até os ares me parecem mais coloridos e macios. Ensaio sobre o tudo e o nada e perco meu olhar no de alguém que passa, para poucos metros a frente amarrar o cadarço, antes de virar numa esquina em direção ao banheiro. É desse tipo de droga que estou falando. Ouço em minha cabeça vozes que falam a mim, como que me julgando. Tenho essas imagens estabelecidas e cada uma se liga com muita força aos estereótipos que observo. Nesse momento, o homem deixa o banheiro e  se encorcunda para tomar água no bebedouro. Drogas essenciais.

Drogas. Me sinto um agente treinado para lecionar PROERD ou em comercial de TV aberta falando assim. Mas não, falo de tudo. Todas elas. O peelingzinho aqui, a nicotina que se traga – só às vezes, só um pouquinho – quando nervoso, o happy hour diário, os antidepressivos na gaveta e até aquele último Engov, já à mão; vivemos nos drogando, em diferentes níveis, para diferentes tipos de convívio, social ou não. Coca-cola, senhor?

Até o açúcar branco, aquele que adoça o cafezinho que te faz sobreviver melhor ao cotidiano, se enquadra nessa tão horrenda categoria de consumíveis. Um dos muitos que faz essa afirmação é o nutricionista e escritor americano William Dufty, que argumenta um bocado sobre isso em seu livro Sugar Blues. Não precisamos aqui nem entrar no mérito dos aspartames como alternativa, creio eu. Estamos viciados, em diferentes níveis, para suprir vontades e necessidades próprias e do coletivo. E são vícios físicos, psicológicos, de linguagem…

Mulheres têm seus períodos, devidamente antecipados por uma breve (nem sempre) onda de irritabilidade, mudanças bruscas de humor e vontade descontrolada de drogar-se. Devoram barras de chocolate quando a tensão é extrema. Porque é mesmo um tesão quando as endorfinas batem no cérebro e você se sente comendo o doce mais cremoso e delicioso da história. Essas coisas têm poder. Ao final dos trabalhos hormonais é quase criminoso que não se ofereça um bom vinho – ou cerveja, uísque, champanhe, mojitos, caipirinhas… – para celebrar a alegria com drogas luxuosas e sedutoras. É disso que nossos pequenos sucessos são feitos. Aldous Huxley, de algum modo, previa isso tudo.

Aprendi, meio às minhas observações, que para cada tipo de droga há um tipo de ressaca. Há quem dance a noite inteira com pílulas goela abaixo, precisando de uma festa depois da festa; quem veja o nariz sangrar lavando o rosto pela manhã; quem acorde abraçando algum tipo de monstro humanóide, com gosto de guarda-chuva na boca, perguntando a placa do caminhão que o atropelou. Mas muitas das drogas, como bem nos ensinaram, não causam ressaca. Não fazem mal. Não viciam. São sociais e sociáveis. Movem sociedades. São o café da manhã dos campeões.

Outra verdade na qual acabo sempre tropeçando é que a maior das ressacas é a de cada um de nós, contanto que nos permitindo ser sinceros, ao balizar as drogas que administramos em nossas vidas. As drogas que ouvimos na rua; engolimos da TV; presenciamos, ainda que não intencionalmente, no trabalho; lemos em sites de notícias; digerimos em colunas sobre nossos temas não-tão-favoritos; as que compramos, vendemos e ingerimos. Quando nessa ressaca nos resta chamar a saideira. E mandar descer outra logo em seguida. Sei que a minha ressaca, se é que posso tomá-la pra mim, é uma só: a de viver intensamente e eternamente confuso.

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



5 Responses to NOSSAS DROGARIAS

  1. Ernesto says:

    Excelente texto, refletindo uma realidade nua e crua! Parabéns!
    Sou a própria droga do ser!

  2. Anderson says:

    Ótima reflexão. É um emaranhado de drogas a perder de vista, todas elas, sem exceção, vem do externo, de fora. Pra que descrevê-las? Faltaria espaço no espaço. Um eremita no meio dessa agitação toda passa desapercebido, enquanto essas drogas consomem as mentes perturbadas.

  3. Débora Rossetto says:

    é. “Essas coisas têm poder.”

  4. Joao says:

    Bom, maconha não tem ressaca.

  5. J.P says:

    Verdadeira droga, deturpadora de vidas e das mentes!!! Esse é o ser-humano… Psicotrópicamente Entorpecido por si só!!!!

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