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Publicado em junho 20th, 2013 | por Gabriella Figueiredo Santos

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E NÓS QUE ÉRAMOS DEUSES

[Foto: Stefano Maccarini]

Obviamente mudei minha pauta deste mês, assim, agora. Impossível não voltar à atenção para o que está acontecendo no Brasil neste momento.

Manifestações não são de hoje, tampouco a persistência de tantas reivindicações silenciosas ou silenciadas pelo Brasil. Mas sair às ruas e mobilizar tamanha quantidade de pessoas, inclusive aqueles e aquelas que vivem fora do país, é algo a se considerar, a se orgulhar e a “se esperançar”.

Também não é novidade que brasileiro tem sua fama: de memória curta à povo facilmente manobrável e alienável. Sabemos bem a imagem que vendemos. Estereótipos à parte, tenho a impressão de que nos achamos um pouco mais especiais que os outros. Como se tivéssemos certos dons únicos atribuídos à nossa nacionalidade e “gingado”, algum parentesco com os deuses, sejam eles quais forem. Quando penso nisso, logo me lembro de um amigo turco, Cenk – ele inclusive participou de todos os dias das manifestações na praça Taksim – que me dizia: “Vocês são brasileiros, vocês podem fazer qualquer coisa, tudo!”

Lembro de um amigo turco que participou das manifestações na praça Taksim e me dizia: “Vocês são brasileiros, vocês podem fazer qualquer coisa!”

É… realmente temos essa plasticidade que muitos não têm, disposição para a conquista dia após dia no trabalho, na família, na escola, na quadra, no sonho. Temos a estranha mania de celebrar uma realidade antecipada. Brasileiro é meio deus. Ou talvez brasileiro acreditasse ser um pouco deus. Porque convenhamos, o que estamos vendo é coisa de gente de verdade, de sangue corrente.

Enquanto deuses, o silêncio ou no máximo a placidez das irônicas harpas parlamentares. Onde estariam nossas respostas? Ah… para além dos deuses! O que lembra um poema de Fernando Pessoa: “Os deuses são deuses porque não se pensam”. Por isso o incentivo à despolitização, à crítica rasa, à educação descomprometida de qualidade, à saúde omissa…

Ontem éramos deuses da bola, das curvas, do bronze dourado e sambado entre os seios da Sapucaí. Hoje o Brasil começa a assumir sua humanidade, sua unidade. Claro, ainda é jovem, tem muito o que aprender. É menina, inquieta, curiosa, “atirada”, incomodada, um pouco desajeitada, mas de coragem irremissível e muito, muito pensativa.

Que venham quantas manifestações e ações forem necessárias para a transformação e sensibilização das vizinhanças, dos olhares, das escolhas, dos argumentos e de nosso posicionamento de cada dia.

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Sobre o Autor

Estudante de Ciências Sociais na UFSC, tem trabalhado com Antropologia. Estudou Comunicação e Estudos Culturais em Portugal e na Inglaterra.



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