Pirão olavo_de_carvalho_590

Publicado em junho 19th, 2013 | por Thiago Momm

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ENTRE AÇÕES, REFLEXÃO

[Foto: O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho / Divulgação]

Em tempos de muita retórica, queria lembrar um texto valioso que escreveu o filósofo Olavo de Carvalho, que estimula a autocrítica.

Como é muito grande para caber aqui, seguem trechos.

O texto é uma introdução para Como vencer um debate sem ter razão, texto de Schopenhauer deixado incompleto mas depois transformado em livro. Olavo de Carvalho me fez refletir bastante, e espero que faça também os que gostam, como eu ou ainda mais que eu, de editorializar muito o que dizem, ainda mais em tempos de manifestações.

O que segue não tem nada contra as manifestações. Que venham mais, muitas! Não é o caso de parar para filosofar no meio da passeata, é só um convite (também um autoconvite) para deixar nosso falatório mais reflexivo, conciso e preciso entre as ações.

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“O objetivo deste escrito não é induzir o leitor a discutir com os outros, mas a dialetizar consigo próprio, na serenidade de uma investigação sincera, pelo menos até estar seguro de que suas opiniões não expressam apenas o desejo egolátrico de impor preferências, mas relevam algo da natureza das coisas e dos fatos. Este livro é, com efeito, uma galeria de maus exemplos, que mostram no que resulta, em desonestidade e perversão, dar livre curso à paixão de persuadir. Na maior parte dos casos, um homem tanto mais gesticula e dramatiza em defesa de suas opiniões quanto menos está seguro delas por dentro, por não as haver examinado bem.

Por isso mesmo, é bom lembrar ao leitor, com insistência, que a capacidade de argumentar, por necessária que seja nas circunstâncias práticas da vida intelectual, é habilidade menor e derivada em relação ao perceber e ao intuir.

(…) a clareza não se obtém sem um tremendo esforço de atenção que é quase um exercício ascético. Olhando fixamente para dentro de seu coração, um homem “lê” o que está inscrito na sua consciência íntima, como palavras de um texto supremamente auto-evidente. Ao subir para a periferia da mente – onde estão depositadas, como redes superpostas, a gramática do idioma pátrio, as regras de estilo, os usos do vocabulário comum, os esquemas argumentativos padronizados e as exigências da moda -, as palavras do discurso íntimo se embaralham, entrando por automatismo nesses canais e arranjos pré-moldados que desfiguram e as afastam infinitamente do significado originário. Então é preciso mergulhar de novo e de novo, até que a imagem do discurso interior fique tão nítida na memória, que as formas de linguagem externa se amoldem a ela como meras vestimentas, sem deformá-la ou incomodá-la.

Este é todo o trabalho do autêntico escritor: dizer exatamente o que percebeu desde o centro do coração, afeiçoando o discurso ao conteúdo intuído, sem que este se deixe arrastar pelas exigências daquele.

[Em uma discussão] quanto mais tentamos provar ninharias, mais excitado fica nosso cérebro e mais longe estamos do centro do nosso coração. É este o seu [do nosso adversário em uma discussão] verdadeiro propósito: tornar-nos iguais a ele, fazer de nós uns sonsos tagarelas, irritados, maliciosos, revoltados, cínicos, sem consciência nem inteligência. Uma vez neutralizada a diferença qualitativa que era nossa única superioridade, ele pode nos vencer pelo mais simples dos expedientes: reúne meia dúzia de comparsas e nos esmaga pela força do número.

Ir ao centro [de si mesmo] já é difícil. Ir e voltar muitas vezes, velozmente, é uma habilidade que não se conquista sem décadas de treino, e o melhor dos treinos é lutar contras as nossas próprias mentiras.

Somente um longo aprendizado de concentração habilita o homem a sair imune dessas controvérsias, de modo a poder retornar, sempre que queira, àquele centro de si mesmo, à fonte viva onde a alma e a verdade se interpenetram. Para quem não esteja seguro de possuir essa via de retorno, os combates de argumentos são uma dispersão fatal no mundanismo.

Ter invertido a hierarquia natural e justa, fazendo da opinião pública – rainha da tagarelice – o juiz da interioridade humana, é talvez o pecado original da cultura contemporânea, onde cada homem é obrigado, pela pressão exterior, a apagar de seu coração tudo aquilo que não seja confirmado pelo falatório dos vizinhos, até chegar à suma degradação de se ignorar por completo (…).”

(Olavo de Carvalho, introdução a Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, Ed. Topbooks, p.17 a 22)

P.S.: Ignorava que Olavo de Carvalho fosse abertamente de direita quando li este trecho. Não subscrevo nenhuma outra opinião sua, até porque nem as conheço e não me considero de direita. Acredito que o texto acima, se lido sem cismas ou paranoias, não pode ser visto como representante de qualquer visão político-ideológica.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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