Pirão estavaperdidodentro

Publicado em agosto 25th, 2011 | por Revista Naipe

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ESTAVA PERDIDO

[Por Camila Dias]
Objetos perdidos e objetos engavetados, quem não tem esquecido num canto um acúmulo de bugigangas?

Canetas, cadernos, livros, guias, folhas, fotos, CDs… Objetos esquecidos não são necessariamente objetos enterrados. Digo isso pela quantidade de peças que estão em pleno revival. Você já repararou na quantidade de objetos sendo ressuscitados?

A venda de vinis mostra crescimento significativo, mesmo na década dos minúsculos reprodutores audiovisuais. Como também as câmeras lomográficas, aquelas tão almejadas que dão um efeito amarelado e nostálgico. As duas peças ressurgiram dos anos 80, onde foram muitas vezes utilizadas por nossos pais nos encontros de família e registros da infância de seus filhos. Hoje, em pleno boom das mídias sociais e cybercultura, substituímos o digital, o pixel e o USB pelo analógico, o rolo de filme e o inesperado. Exemplos de ressurreição de antiguidades não faltam.

São câmeras, LPs, skullcandies, artigos de brechós e sebos. Também podemos observar pela indústria da moda – onde aqui não caberia somente uma visão míope – e sua tendência em ser cíclica; ela é também conduzida pelos desejos e comportamentos observados nas ruas. Agora ela é pensada de forma inversa, das ruas para as passarelas, e nas passarelas encontramos o crochê, o manual, o artesanal. Voltamos às mãos. Vivenciamos o paradoxo armário atual x armário da avó. As referências são diversas; vemos a volta do conservadorismo dos anos 40, 50 e 60 por meio de hotpants, camisas, saias e sapatos. Tudo volta. Os anos dourados voltaram em forma de objetos.

Porém, por que essa busca?
Pensando além do modismo como necessidade de estar inserido em um grupo que consome determinados produtos, acompanhamos infinitos exemplos em que o próprio mercado se adapta e produz essa necessidade retrógrada. Temos, por exemplo, vários artistas produzindo em vinil: Arcade Fire, Radiohead, Raconteurs, White Stripes, Metallica, sem contar toda a produção do grupo Dead Weather, feita de modo 100% analógico, e a brasileiríssima Apanhador Só, que lançou em 2011 Acústico Sucateiro em fita K7.

Talvez tenhamos nos tornado sensíveis e o desejo de reciclar e reutilizar os objetos ficaram maiores, assim os brechós e sebos tornaram-se mais visíveis onde muitas vezes são inseridos em roteiros de viagens. No início dos anos 90, nossa evolução passou a ser a transição entre o macro e o micro; microprocessadores, microcomputadores, microjogos, microblog…

Hoje parecemos querer nos desgrudar dos micros e resgatar as referências da era macrológica. Como é encontrado no site How to be a Retronaut, um arquivo online de retrospectos históricos temáticos, transformando-se numa grande viagem no tempo. Ou como quando usamos uma joia de família e nos tornamos únicos, nessa época em que o compartilhamento de referências é tão comum.

Talvez essa ressurreição seja uma busca pelo definitivo, algo palpável. Em uma era em que o caos tecnológico nos deixa extasiados e o fato de começarmos uma coisa e terminarmos em outra é normal, essa ressurreição é algo que nos conforta e nos leva novamente aos tempos em que a espera era mais tranquila, não um fardo. Pode-se dizer que seria mais um culto ao manuseio do LP, um modismo implícito no ato de lomografar ou simples resignação vintage, mas o mundo atual mais parece nos atirar nas lembranças e resgatar a calmaria do que nos afundar num emaranhado de cabos.

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3 Responses to ESTAVA PERDIDO

  1. Camila Dias says:

    Pouquíssima coisa, mas esse trecho dele “Cada estação da moda traz em suas mais novas criações alguns sinais secretos das coisas vindouras. Quem os soubesse ler, saberia antecipadamente não só quais seriam as novas tendências da arte, mas também a respeito de novas legislações, guerras e revoluções.” caracteriza – e muito – a moda.

    Obrigada!
    Camila

  2. diogo says:

    belo texto, Camila! dá o que pensar.

    eu acho que a galera (“o mundo”) tá começando a se tocar que os prazeres se alternam: uma hora é a experiência do artificial e do genérico é que se abre como nova. outra cada objeto, fato ou rosto fala por si e damos voz à máxima singularidade. de tanto se alternarem, vamos percebendo o nosso próprio ritmo em apreender as coisas. isso se chama filosofia e a moda é, mais do que nunca, altíssimo pensamento. já leu os comentários do walter benjamin sobre moda?

    saudações,
    Diogo

  3. Léo T. Motta says:

    “Ou como quando usamos uma joia de família e nos tornamos únicos, nessa época em que o compartilhamento de referências é tão comum” – o mais firme pilar da era Tumblr!

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