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Publicado em junho 30th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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FILOSOFIA À BRASILEIRA

A dívida internacional não é a única ficção a atormentar o sonho de liberdade de um país chamado Brasil: para muito além dela, nos confins de nossa memória e de nossa projeção há uma dívida espiritual que o Ocidente nos exige pagar e que nunca será paga, pois nunca poderemos pagar.

Pagá-la seria acabar com a possibilidade de nossa liberdade. Pagá-la seria inverter a fábula e dizer: “O rei não está nu.”

Esta dívida nos cobra que digamos um sim de reconhecimento e adesão a um modo de civilização que garante não ter economizado energias em desvendar o problema da liberdade para a vida. Seus próprios e maiores representantes, no entanto, desde pelo menos o começo do século passado, apontam críticas diretas aos mais sagrados e estáveis alicerces dessa aparentemente imensa e misteriosa construção que é o próprio Ocidente.

A palavra crítica, ela mesma, que tão facilmente nos vem aos lábios nos dias de hoje não quer dizer outra coisa em seu íntimo senão isso: em nosso contexto histórico universal, crítica quer dizer fim do modo de civilização ocidental, junto a ânsia pela reconstrução de um novo modo de vida. Onde o Brasil se insere nessa história é a pergunta.

Pouca gente sabe e a Europa finge até hoje não saber que temos uma das artes mais ricas da história do planeta: um ano depois do lançamento do livro mais marcante do século 20, sendo ainda o mais contemporâneo possível (o livro Ulysses de James Joyce, publicado em 1922), um dos brasileiros mais geniais de todos os tempos, rigorosamente o nosso primeiro filósofo, Oswald de Andrade, deu uma resposta absolutamente à altura desta obra com o seu Memórias Sentimentais de João Miramar.

Por “resposta à altura” quero dizer: Oswald entendeu e incorporou imediatamente todos os elementos “novos” da literatura de Joyce pela raiz e construiu uma obra que não só os utiliza como os coloca em confronto com uma nova possibilidade de visão do real: o Brasil.

A bossa nova é uma resposta à altura do jazz. Ninguém como Glauber Rocha se entregou de corpo e alma para desvendar o poder e a clausura do cinema, tomando-o como instrumento direto de luta pela liberdade, como uma arma. Não por acaso em seus filmes os principais intérpretes da realidade são guerreiros e não intelectuais. Seu texto Eztetyka do sonho deveria ser cobrado no vestibular e estudado nos cursos de filosofia. (Para quem quiser ler, disponibilizo-o no blog As pipas.)

O Sim

Vista diante do peso negativista que habita toda a literatura do século 20 (inclusive o surrealismo que é apenas o começo tosco de um Sim), a literatura de Guimarães Rosa aparece como o milagre que de fato é: Guimarães passa longe de tratar os temas do pessimismo, do suicídio, do niilismo, do “fim da narrativa”, da angústia etc. É dele a frase: “O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” (do conto Fatalidade, em Primeiras estórias)Muitíssimo longe de “esconder-se dos traumas e ameaças de uma realidade opressiva, em crise” (comentário tosco que pode passar pela cabeça de qualquer um de nós), Guimarães repete a maravilha e o sufocante esplendor da Vida para léguas e léguas além e aquém de qualquer coisa que a França e toda Europa pode sequer imaginar. Guimarães brinca com a morte.

É que sobre as não poucas vezes valente imaginação européia (Nijiinski, Buñuel, Salvador Dalí, Paul Klee, Duchamp, Joyce, Kafka e muitos outros) pesam séculos e séculos de uma história constantemente em crise, enclausurada em si.

Esta ânsia pelo Sim que ainda palpita em cada instante da expressão da vida no Brasil não é um luxo de nossa sagrada preguiça, nem uma simples breguice de um povo que recusa até mesmo a esplendorosa e mínima energia da guitarra elétrica. “O funk carioca é o samba de morro do século 21”, como diz meu amigo Gilberto Caldat, desafiando toda e qualquer subalternidade ao modo de pensar europeu.

Mais do que nunca em 2011 nós, jovens, com nosso imenso poder destrutivo, reconstrutivo e ameaçador temos posto diante de nosso nariz o fato de que nosso país nunca deveu nada ao rock, ao cinema francês, ao perfume francês, a Miles Davis (este gigante do pensamento), à Nasa, a Kafka ou Jorge Luis Borges, muito menos a Descartes e aos inúmeros professores de filosofia tansos que esperam pelo dia em que o natimorto racionalismo despontará em nosso país.

Nosso racionalismo é Deus e o diabo na terra do sol. Nosso balé é o futebol. Nosso scargot a feijoada. Nosso Kung Fu, a capoeira. Nossa conquista da lua a libertação final e decisiva da mulher, em sua forma mais heróica, sintética e esplendorosa, a mulher brasileira.

Termino o texto com um trecho do poema A um varão, que acaba de nascer escrito pelo maior poeta do mundo, Carlos Drummond de Andrade, versos que dizem tanto sobre tudo isso:

Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é rude tão bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho do teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso.


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



4 Responses to FILOSOFIA À BRASILEIRA

  1. Diogo says:

    Thiago,

    Meus textos são justamente um elogio a esses defeitos do Brasil, mas interpretados de uma outra maneira.

    Entendo o que queres dizer com “estado do bem estar social”, mas isso não é invenção da Europa do século XX. Este é um fenômeno cristão.

    Estamos num mundo (o tal Ocidente) cujo último grandioso fenômeno/evento é o cristianismo. Com isso quero dizer que todas as nossas categorias de luta pela liberdade tem raízes cristãs.

    O século XX é uma aposta na diferença ou seja na negação da necessarieidade da redenção. Não acho que a europa tenha se livrado do lado negativista do cristianismo, ou seja, dessa necessariedade.

    O Brasil não é nem uma coisa (redenção), nem outra (negação negativa da redenção, niilismo).

    Como diz meu amigo que sempre gosto de citar, o Gilberto, “o Brasil é crente e ridente.”

    O milagre, pra mim é o riso. O dinheiro, o perdão.

    abraço,
    Diogo

  2. Thiago says:

    Pois é. Os pensamentos nacionais sem dúvida, Diogo, merecem mais reconhecimento – os exemplos que você deu são excelentes e, pra acrescentar um mais recente, Reinaldo Moraes não se inspira em Bukowski, como dizem por aí com baixa auto-estima: ele é muito superior. O porém é que o tão mal-visto Ocidente (redutor ou não, usemos o termo como referência) criou, na Europa, um estado de bem-estar social que, entre 1945 e 1975, mostrou a força de uma sociedade com senso coletivo. E isso nunca veremos por aqui. Por mais que apreciemos nossas qualidades, elas não parecem muito úteis para recriar um país menos lei-da-selva-e-cada-um-por-si do que esse que temos. Parecemos apegados demais aos nossos defeitos, e temo que alguns dos nossos melhores escritores tenham, sem querer, incentivado nossa criatividade como a nossa redenção – e não é.

  3. Diogo says:

    Imagino o Brasil como sendo um lugar em que todos os povos se encontram para o bem e para o mal, sem um peso histórico como o dos países europeus, e a nossa loucura e instabilidade (nossa fúria) somadas à nossa inescapável abertura deixam como em nenhum outro lugar evidente o tamanho das pretensões do Ocidente.

    Estes artistas que gosto de citar (guimarães, glauber,milton, oswald, drummond, pelé) penso que encarnam muito de todos os povos e com um movimento novo para velhas perguntas…

  4. Débora Rossetto says:

    E será que não é assim com todos os países (ou grupos, ou línguas, enfim)? Afinal, o “Ocidente” enquanto construção é tão pequeno (e redutor).

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