Pirão filosofo_dentro_1

Publicado em outubro 19th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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FILOSOFIA COM TRÊS TOPPINGS

“Como ultrapassamos as coisas pequenas, acreditamo-nos mais capazes de possuí-las; entretanto, não nos falta menos capacidade para chegar ao nada do que para chegar ao todo”.

Esta frase, tirada do meio do meu aforismo preferido do Pascal, diz tudo sobre o aprendizado que me domina nos últimos meses: o aprendizado do presente. Um mundo assombrado pela frase de Borges “eu poderia ter visto o rosto de Deus em um sonho” é um mundo com a intensidade dos abismos, mas tranquilo e perdoado. Perdemos e ganhamos o rosto de Deus a cada instante, pelo próprio respirar da vida. Sobra um alerta em forma de êxtase. E tudo começa do chão. O que a simplicidade ensina? Que os grandes esforços não tocam todos os segredos. Aqui na Lagoa há os vagabundos que trazem explicitamente nos gestos uma saudade imensa de fantásticas grandes batalhas, atos heroicos e estrondosos, cumplicidade viril com camaradas de grande caráter. Ainda ardem de horror em perder a imagem do grande homem. Enquanto o playboy acredita piamente na imagem da grande mulher.

17/07/11

Este morango traz o rosto daquele que traiu o exército, foi morar no deserto e lá aprendeu que para ser perdoado teria de amar com o risco do Nada. Este encontrou um cavalo, de fato nu, à beira de uma lagoa, e acompanhando-o por alguns instantes sentiu que a única condição da beleza é cair no tempo. Em 1202 este morango apaixonado ajoelhou-se na frente de um rio ordinário e disse, tendo juntado todas as suas forças: “Amor, me leva como ao tempo”. Seu próximo passo era superar a explosão nuclear. Este morango se parece com o monge que escreveu: “Só se pode aprender sobre o perdão e o gozo”. Morreu rindo diante da espada. 500 anos depois, um relojoeiro holandês proferiu: “Amaria a renúncia, arderia da superstição somente num mundo em que cada centímetro de carne não tivesse todos os perfumes.”

19/07/11

Último dia trabalhando na Lagoa. Esta loja ficará fechada até novembro, quando vem o calor e Florianópolis experimentao mundo. Hoje pensei que não há maior contestador do “mal estar da civilização” do que o sujeito que na rua me pede R$ 2. Sem precisar dizer, e para todos os que não nasceram com essa invejável habilidade de inventar uma falsa surdez, ele está dizendo: “Aqui, por R$ 2, tua mansão, teu trabalho, tuas roupas, mesmo tua infância. R$ 2 é o preço do teu esconderijo, tuas certezas, tua incerta religião, teu sarcasmo inatacável. Por R$ 2 te causo um assombro, ainda que passageiro. Cais no presente. Estavas prestes a conquistar tesouros definitivos, êxtases sensíveis, tua mulher gostosa vestida de lingerie vermelha. Tudo o que gozaste e estudaste em livros, discos e sermões aplica agora: amigo, tem R$ 2? Este é o preço, a gravidade, a física do meu perdão, quer o aceite ou não. E o teu, quanto sai?”

20/07/11

Primeiro dia no Floripa Shopping. No Egito toca uma música cristalina e pulsante, um mantra a indicar guerreiras verdes gritando que estamos próximos. A areia é azul, as pirâmides descem da eternidade para nos servirem licores de cereja, manga ou chás ácidos. As egípcias se abraçam a suas amigas de outra espécie, brancas, extraordinárias. Índias brasileiras vestem-se de aeromoças. O voo é o trabalho diário da poesia. O céu é próximo. Milhares descansam, ausentam-se, milhares amam. E um corredor de ar diz: “Por aqui”. Chegar ao outro lado é, no entanto, impossível, diz-se. O que há são estes passos e um globo a girar no pensamento possibilidades de ver um mundo em que todos os tamanhos, todas as alturas são possíveis. Ganha na loto quem esquece de rezar.

22/07/11

Qual a diferença entre fazer arte e fazer o instante? Entre enriquecer e viver num presente de renúncias e repetições? Estas diferenças nunca serão um dado. Pra mim, nenhuma questão da existência é respondível por meio de uma obra: nós somos a obra. O homem contemporâneo tem medo de ser dominado pela preguiça, pelo tédio, pela morbidez e pela loucura. Ou quer muito, histericamente, tudo isso. Por isso entrega, quase que impessoalmente, todas as suas energias para uma “exterioridade”, a obra. Ou a nega. Mas esta sensação de estar se doando para algo fora é uma ilusão. Assim como a negar. Nós somos a obra. Livre.

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Por Diogo Araújo

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



One Response to FILOSOFIA COM TRÊS TOPPINGS

  1. Antônio LaCarne says:

    Simplesmente extasiado com esse texto! Meus parabéns ao autor. Taí o tipo de coisa que acho o máximo ao ler.

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