Pirão pista_jivago

Publicado em março 29th, 2011 | por Débora Rosseto

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FLORIPA LADO B

[Fotos de divulgação]

Floripa Lado B. Bela etiqueta: todo mundo parece saber do que a gente tá falando.

Mais: todo mundo parece se interessar, de alguma forma. Se identificar. Mas o que é lado B? Qual, quem, onde – e por quê? Quando a própria origem do termo começa a se perder, é hora de questionar sua validade.

Em CDs ou nas mp3 que baixamos por aí, não há lado B. Estamos falando de (ou para, ou com) uma geração que, em sua maioria, quase não conheceu discos e fitas e, portanto, a idéia de um lado A (mais comercial e apelativo) e um lado B (mais obscuro e conceitual). Mesmo que tal idéia resista, é provável que, para eles, tais adjetivos não sejam necessariamente sinônimos, como insistimos em formatar: comercial = apelativo = ruim; conceitual = obscuro = bom.

Sim, historicamente essa distinção existiu: o lado A era pra tocar na rádio, e o lado B – as próprias bandas insistiam – era o som autêntico pretendido por elas. Porém, amigos, nada mais é tão “fácil”. Estamos na Era Gaga, que se vende (e muito) como conceitual. Estamos na era em que qualquer boate ou festa considerada “alternativa” toca Lady Gaga.

Nas palavras de Isaac Varzim, músico, DJ e produtor do Jivago: “Honestamente, acho que não existe um lado B em Floripa. Dizer que 1007, Jivago ou Blues são lado B é só uma forma de amaciar nosso ego ‘indie’, que sonha em viver eternamente num nicho intelectual alternativo. Acredito que estas casas desenvolvem formas bem criativas de revisitar ou até de re-significar o lado A, criando opções pro público que não aguenta a farofada estética dos grandes clubes, mas não dá pra chamar festas tocando Britney e Lady Gaga de Lado B. É como comparar um Big Mac com o Xis Salada do Hause: são bem diferentes, tem toda uma carga cultural diferente, mas no fim ainda são hambúrgueres. Podemos inventar o que quisermos nas nossas festas, mas ainda estamos bem mais próximos do Lado A do que do lado B.”

Agora chegamos exatamente onde queríamos: a noite “alternativa” de Florianópolis. Esse é o foco do documentário Floripa Lado B, de Cíntia Domit Bittar e Maria Augusta Villalba Nunes. Lado B? “As pessoas que são entrevistadas para o documentário costumam responder que o Lado B é o 1007 Boite Chik, o Blues Velvet, o Taliesyn, o Célula, o Jivago… E várias apontam que Lado B é o que ainda não virou mainstream. Mas o samba do barraco, que fica lá escondido, que poucos sabem a respeito e possui público cativo, também poderia ser Lado B, não?”.

Segue Cíntia: “Então o Lado B que é focado pelo documentário é bem específico e restrito. Seriam os lugares frequentados por pessoas que gostam de sair, de festas, de moda… São lugares que seguem tendências de cidades maiores e estão localizados na região central de Florianópolis. Possuem fácil acesso a um preço também acessível. Suas festas são divulgadas através do boca-a-boca e também das novas mídias, como as redes socias – através de cartazes e vídeos criativos. E seu público é feito de pessoas que buscam por boa música, diversão, encontrar os amigos; geralmente pessoas que estudam ou estudaram e, boa parte delas, que trabalham na área das Artes ou Cultura. Muitos já ficam conhecidos e sabemos quem é quem. Grande parte já foi ou é colega de trabalho. Portanto, o clima é mais intimista. E por serem frequentados por pessoas mais ‘mente aberta’, são lugares em que gays podem sair tranquilamente, mesmo não sendo localidades GLS.”

Rótulos?

Ficar aqui falando é fácil? Não, não é. Como falar de rótulos sem cair neles, ou escorregar em outros? Se eu proclamo um Lado B, suponho a existência de um Lado A que, a meu ver, é inferior a ele (apesar de maior). Ou seja, tudo aqui envolve, ainda, um juízo de valor. A existência de um valoriza/desvaloriza o outro, dependendo do ponto de vista. E isso já parece tão antigo, não? Infelizmente, não. É bastante comum, nesse meio, a discriminação, o torcer o nariz, o fechar-se em círculo. As pessoas ainda insistem em se fechar em guetos, demarcando seu espaço (?), tentando defender uma identidade que, agora, é muito mais aberta e mutante  (e democrática) do que fechada e exclusiva. Se, historicamente, foi preciso que as minorias se afirmassem e defendessem sua existência, qual o sentido disso hoje, quando todo mundo é minoria e maioria, tudo junto ao mesmo tempo agora?

São cada vez mais comuns – e desejáveis – posturas como a de Camylla Vitório, produtora de moda da Vitório-Schneider e freqüentadora assídua de todos os “lados”: “Não gosto de rótulos, posso muito bem amanhecer no 1007 abraçada na Évora e tocar direto para um almoço no Taikô. O diferente me agrada. Lado B/Lado A, do luxo ao lixo, do underground ao mainstream e por aí vai… Costumo sair sempre com os mesmos amigos e eles frequentam junto comigo tanto o lado B quanto o lado A. Porém tenho grandes amigos que não frequentam alguns lugares dos quais eu gosto de ir por causa do público, mas isso é uma escolha deles porque as casas noturnas estão abertas para receber todos da mesma forma.” Se não estão, deveriam.
Na análise de Isaac: “‘Playboy’ só gosta de farofada pra dizer que os que não são ‘bem nascidos’ não entraram lá, o povo ‘indie’ só gosta de suas festas por que sabe que um ‘playboy’ nunca entenderia aquilo… As nossas festas em Floripa funcionam como um híbrido disso tudo e talvez por isso gerem ao mesmo tempo tanto amor e ódio: o povo ‘alternativo’ curte mas reclama da ‘eldivinização’, os ‘eldivinos’ acham exótico e diferente do que sempre viram, e nessa relação de amor e ódio, como um casal que precisa às vezes se odiar pra continuar se amando, as coisas seguem num certo equilíbrio esquisito.”

Uma das diretoras do documentário, Cíntia, entende bem a falsa oposição: “A partir do momento que selecionamos um lado e o rotulamos como sendo ‘B’, o Lado A passa a ser também personagem. O título do documentário é Floripa Lado B. Lado B do quê? Eu, particularmente, acho essencial que existam esses dois lados e ainda acho que faltam outras formas de entretenimento na cidade. Principalmente para as pessoas que não se identificam muito com A, B ou C e que buscam um ambiente mais neutro, como pubs e bares. É uma questão de estilo de vida. De propostas diferentes de entretenimento. Alguns se identificam mais com um ‘lado’, por questão de afinidade; o que não impede que transitem entre um e outro. Já passamos do tempo de nos prendermos aos rótulos. O melhor é fazer o que gosta e estar em lugares onde se sinta bem.”

Toca do coelho

A questão fundamental, aqui, parece ser o acesso. O direito ao acesso, no caso das baladas – “patricinha” pode entrar em boate “indie”? E travesti em balada “playboy”? E também as possibilidades dele: tendo acesso direto a tudo de mais obscuro que pode existir no mundo – aquela banda incrível da Islândia ou aquela menina que faz vídeos tocando ukulelê em casa – alguma coisa ainda é obscura? O mais importante: são tantos os lados, que perde-se a oposição entre eles, entre um e outro, entre A e B. Você não precisa escolher um lado. Não há, na verdade, lado. “Pra mim o mundo hoje é um grande bufê a quilo, todo mundo tem as mesmas opções na sua frente, mas cada um vai fazer sua mistura exótica que vai demonstrar no fundo quem é. Uns misturam arroz, feijão e massa; outros comem só salada e frango; no fim das contas tudo veio do mesmo lugar, tudo é a mesma coisa”, diz Isaac.

“Lembro de um depoimento, na fila para entrar no 1007, onde a pessoa disse que esses lugares – do Lado B – são como a toca do coelho, de Alice no País das Maravilhas; você entra e nunca sabe direito o que vai encontrar”, relata Cíntia. Não é isso que queremos todos: descobrir, nos surpreender? E isso é possível em qualquer lugar. É só querer.

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*O documentário Floripa Lado B está em fase de decupagem do material gravado. Ainda não há data de lançamento, pois o filme é feito sem verba ou patrocínio. Estão previstas exibições nos mesmos lugares das gravações, além de uma tiragem de DVDs para venda. Há planos de exibir o filme em festivais e de estender o registro a outras capitais brasileiras, sob a mesma perspectiva, a de mostrar o Lado B de cada lugar.

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Faz de um pouco, tudo e sonha com um mundo no qual possa existir por escrito.



2 Responses to FLORIPA LADO B

  1. Belisa says:

    há tão poucas opções de diversão nessa cidade que se você se prender a rótulos, vai acabar sempre vivendo o mesmo.
    o bom é experimentar e se surpreender.
    ótimo texto, parabéns!

  2. isaac says:

    bom, muito bom

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