Pirão garranchodeamorailha

Publicado em junho 27th, 2011 | por Débora Rosseto

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GARRANCHO DE AMOR À ILHA

[Foto de Jerônimo Rubim]

Costumo lembrar que moro em uma ilha em duas situações: quando preciso sair dela e vejo que estou presa (como podemos viver tendo apenas uma saída?), ou quando vejo que todo mundo conhece todo mundo e imagino uma ilha-ovo auto-contida.

Uma ilha passa ao mesmo tempo as sensações contraditórias de se conhecer todo mundo e de ter muito a explorar. Afinal, a primeira coisa que se faz, ao atracar ou cair numa ilha, é tentar chegar ao outro lado. É preciso achar esse outro lado e o que ele guarda. Se possível. Toda ilha tem seus mistérios…

As ilhas não têm pra onde ir – isso as força a olhar mais para si mesmas. Vantagem ou desvantagem? Difícil saber. O fato é que nos relacionamos mais diretamente com uma ilha – parece que sabemos mais a sua dimensão, entendemos seus limites – que são mais ou menos como os nossos. Há algo de acidental e não-solene em uma ilha. Afinal, é apenas um pedacinho de terra perdido no mar.

Há ainda outra situação na qual lembro que moro em uma ilha: quando preciso explicar pra algum gringo onde moro e me parece muito mais poético falar que moro em uma ilha no sul do Brasil do que em uma cidade desconhecida com um nome que, além de vergonhoso pra mim, seria impronunciável pra ele. Quase posso ver a imagem que se forma na mente de quem escuta “uma ilha no sul do Brasil”. Isso porque quase todos imaginamos há muito tempo ilhas desertas e paradisíacas.

A pergunta “O que você levaria para uma ilha deserta?” nos lembra que não nos bastamos. Que precisamos de coisas além de nosso corpo. Que é impossível viver só – ao menos sem a preciosa ajuda de suas coisas favoritas no mundo. E é melhor mesmo levá-las consigo: em uma ilha, não há nada familiar a encontrar.

Além disso, é a possibilidade de realização de nossos desejos: afinal, “quem você levaria para uma ilha deserta” é o seu desejo mais puro, como se dependesse só de você. Como se fosse, na verdade, você e você mesmo. Que coisas loucas e proibidas e inimagináveis já foram feitas em uma ilha – nem que essa ilha seja apenas sua cabeça?

Ontologicamente, não há separação entre o que é uma ilha e o que é um continente. Continente. Continência. Ilhas contêm nossa incontinência, é como se nos fizessem sentar. Parar e olhar. Contemplar. Talvez por isso vejamos sempre mais belezas, estando nelas – porque vemos mais. Estar numa ilha tem um quê de prisão – mas sentir-se preso é preciso. Grandes batalhas se iniciam de sensações como essa.

Ilhas têm uma força centrípeta que parece agarrar a todos e a cada um. Ouvi uma vez: “Como sair de Manhattan?” – e ele se referia à Ilha de Florianópolis. Acho que nunca mais sairei daqui. Porque “depois da ponte”, ouvi outra vez, “é Chapecó”. É o que não interessa, quis dizer ela.

E antes que os separatistas peçam a independência das ilhas, não!, digo que é preciso que elas se espalhem (um pouquinho que seja) pelo continente que as cerca, sob o risco de perderem-se ensimesmadas. Como nós. Uma ilha somos nós. Nós somos ilhas. E faltam pontes.

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Sobre o Autor

Faz de um pouco, tudo e sonha com um mundo no qual possa existir por escrito.



4 Responses to GARRANCHO DE AMOR À ILHA

  1. diogo says:

    bonito texto.

  2. Marco Zimmermann says:

    E eu que sempre morei na ilha acabei em Chapecó… quer dizer, Coqueiros… um pedacinho de ilha perdido no continente.

  3. Thiago says:

    “Quase posso ver a imagem que se forma na mente de quem escuta ‘uma ilha no sul do Brasil'”. Muito bem dito. Eu sonhava junto com os muitos gringos pra quem dizia isso, imaginando uma lúdica e isolada ilha no sul brasileiro, mas a verdade é que somos menos paradisíacos do que gostamos de imaginar. Não somos afastados a ponto de ser Noronha, nem integrados o suficiente para agir como cidade continental. Grande pensata, Débora!

  4. Léo T. Motta says:

    Nós somos ilhas. E faltam pontes.

    clap clap clap!

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