Pirão piroviolenciadentro

Publicado em maio 11th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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HERÓIS

Para Gilberto Caldat

Meus heróis são novos, não gregos. Glauber Rocha, Pernalonga, John Coltrane, Maitê Proença, James Joyce, Romário, Frida Kahlo, Mussum, Kerouac, Salvador Dali, Jimi Hendrix, Pica-pau, Ivete Sangalo, Bob Marley, Milton Nascimento, Amy Winehouse. Neles vejo sangue. Carne. Espírito. Bondade. Maldade. Intensidade. Santidade. Irrealidade. Non-sense. Desejo intenso, heróico, de sentir a vida.

Aprendo sobre a crueldade, a sensualidade da dor, a diversão, aprendo que a noite é com certeza jovem com Hendrix, Bob Dylan, Billy Corgan, Cazuza, Lou Reed, Cobain e Vedder, Morrisey, Yorke. Todos eles? Todos eles são heróis: da sensualidade, do puro-sexo, do desperdício, da vaidade, do niilismo voluntário ou involuntário e até mesmo da paixão e do sacrifício. Sou obrigado a conviver com eles e é difícil conceber que já houve algo como o gosto.

Aprendo sobre perdão e promessa, sobre conversa de afeto com Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aprendo a sacanear com o maior veneno da ironia: a ternura e o silêncio que não mostra que qualquer coisa possa com certeza ser afirmada: “Fui sacaneado ou não? Calar é minha melhor resposta”. Aprendi sobre os limites do gozo puramente íntimo com eles, com Villa-Lobos, com Mussum e com meu amigo Don Camilo.

Não é o aprendizado planejado, mas meus heróis são violentos. Esvaziam a realidade como Kafka ou Faustão. Cantam-na como Drummond, Cartola ou Cazuza, Gianfrancesco Guarnieri ou Regina Casé, Bussunda, Hermes e Renato. Viram-na do avesso. Mostram-me que ao menos minha carne tem de ser vasta. E eu aceito.

Um herói tocou notas diretamente para Deus, gravando um disco que podia tocar em todo e qualquer tempo, como a gravidade mesma, nua e crua da vida: John Coltrane e seu A Love supreme. Mas também Hendrix, Bob Marley, Stravinsky, Milton Nascimento, Charles Mingus e Miles Davis, meus monstros supremos da música.

O desenho animado, o filme trash, o sarcasmo, os heróis estilo Jaspion e Jiraya, o humor ingênuo dos loucos e dos normais na tela da TV ou do cinema, são meus mitos: destruíram completamente um mundo de peso que não fazia sentido fora da tacanheza dos seres humanos.

Com eles aprendo que é possível tanto “inventar” um Pernalonga quanto reinventar um Malcom X, tanto Batman quanto Forrest Gump, tanto Tyler Durden, quanto Truman Burbank. Bruno Aleixo, Family Guy e Jack Nicholson estão na dianteira nos últimos novos mitos inscritos no Paideuma. São eles, estão na ponta da língua de meus amigos e amadas, acabo sabendo quem são, o que faz de cada um ser o que é. Jeff Buckley e Lenny Kravitz. Chapolin e um elemento sem nome, inclassificável, apelidado de Cid Moreira.

Para as mulheres próximas que tanto lutam, ponderam, negam e me deixam passar solidão digo que muito aprendo com elas enquanto elas. Edith Piaf e sua eroticidade infantil, Elis e sua paixão viril pela intensidade, Frida Kahlo por permitir existir a mulher do futuro, Maitê Proença não preciso explicar, Vera Fischer e Daniela Winits também não, Nina Simone também não, Gal Costa, Billie Holiday idem e as brutas Janis Joplin, Maria Bethânia, Amy Winehouse e a soberba Ivete Sangalo também não. O mundo é sua imagem e semelhança.

Filosofia

A todas as minhas fortes paixões que fingem que sabem que eu quero o amor violento (por não saberem que suportam, sim, o amor mais violento) terei de perdoar. As que não sabem deixar o desejo ser leve e intenso, idem. As que eu demorei e ainda demoro a me apaixonar, peço que tenham paciência. Tenho forte crença na existência do Viagra do futuro. Às distraídas, não perdôo, nem vou perdoar. Todos achariam pura canalhice se eu dissesse que na verdade me apaixonei absolutamente por todas as mulheres que conheci. Por isso digo assim.

Aprendi muito com meus amigos Luis Filipe, Wslley, Camila. Com muitos outros aprendi, mas com eles mais. Com o mestre Toicinho Batera. Tenho um irmão espiritual chamado Gilberto Caldat. Tenho 5 musas absolutas. Algumas acharão que estão na lista e não estão. Outras acharão que não, mas estão. Deixo para descobrirem a verdade no mais fundo do meu silêncio rouco.

Cresci com pessoas maravilhosas. Trabalho com pessoas maravilhosas. Sou filho dos meus pais, para o muitíssimo bem. Há muito estranhos que acabarei por me encantar; por sadismo ou comiseração, por paixão, por renúncia imediata a tudo o que passou em nome de mais intensidade no que há por vir.

Nunca consegui realmente dividir o mundo entre esquerda ou direita. Entendo Mandela e Padre Marcelo Rossi. Tenho de me sentir nauseado com a hiper-ultra uniformização da cultura e tenho de parar para pensar o que a morte de um terrorista quer dizer. Bebo até cair, escondido ou não, e às vezes isso é que mostra o coração das coisas. Choro como o menino Jesus e nosso santo vinho.

Por algo que ainda é um luxo no meu país, procurei a filosofia. E estudei a vida com os mestres Hebeche, Selvino, Luis Felipe Ribeiro e o com certeza futuro mestre-total  Gilberto de Mello Caldat: tive de absorver do sangue da mais nova, violenta, futurista e inteligente arte que já houve para dar conta da loucura do pensamento. Anotem esses nomes: Glauber Rocha, Paul Klee, Robert Bresson, Kafka, Joyce, Borges, Guimarães, Salvador Dalí, Stravinsky, Coltrane, Miles Davis, Jimi Hendrix, Darcy Ribeiro, Foucault, Oswald de Andrade, Frida Kahlo. Depois pensem na violência de Pixinguinha, Dorival Caymmi e Cartola. Junto a muitos outros estes com certeza serão lembrados por descreverem o mundo do futuro. Converso com Caetano Veloso todos os dias. Brigamos e nos embriagamos –mas cada um na sua.

O Brasil é um país que abraça toda essa dissonância com a devida violência. Nossa aflição e nossa paixão pela vida, somadas, nos explicam. Uma hora o mundo pode nos ouvir. Vai comigo a sede de mudança de uma contestação de verdade que é o MST. Saúdo meu amigo Altair Lavratti.

Nasci em Florianópolis. Esta cidade precisa e por isso chama grandes espíritos, pessoas apaixonadas. Saúdo todos os músicos daqui. Não sei não amar violentamente. Não sei amar anonimamente. Por isso procuro essas palavras, por óbvio que seja. Não sei não amar violentamente. Como meu tempo e todas as suas contradições somadas ao mesmo tempo: a violência.

Jogo tudo para o alto e quero que grite aquilo que arde no meu dilacerado e delirante coração.


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



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