Pirão envy

Publicado em março 26th, 2013 | por Gabriella Figueiredo Santos

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INVEJA, EU?

Inveja é daqueles assuntos fáceis de gerar comentários.

Quase todos parecem diagnosticar certos sintomas ou ações como característicos da inveja. E aqueles que se abstém de juízos, ah… ainda assim acredito que tenham seus meios particulares de proteção. Cada um encontra seus caminhos para afastar o tão visitado “olho gordo”, de patuás, simpatias, banhos de cheiro ou de sal a minutos de bons pensamentos. Vale tudo!

Desde pequenas, as meninas são “educadas” sobre este sentimento: aprendemos a identificar na madrasta má da princesa que a inveja pode matar e que, naquele caso, ela é feminina. Mas, deixando para outo momento mais uma ironia dos contos de fadas infantis, a inveja é democrática, contempla a todas e todos. E fugindo dos lugares comuns, acredito que esse sentimento não segue parâmetros, uma vez que valores inimagináveis podem ser cobiçados. Há milionários que invejam a vida comum de seus funcionários, que fazem de suas folgas grandes acontecimentos, que celebram a viagem à cidade vizinha como quem acaba de descobrir um outro mundo. Há mulheres, que aparentemente orgulhosas de suas “conquistas maritais”*, invejam o frescor e brilho das solteiras, que saem abertas e bastante disponíveis às possibilidades de novas histórias. Há quem inveje as putas e putas que invejem outras putas. Há quem deseje a facilidade de elogio às passantes, que têm um grupo de pedreiros reunidos em uma construção. Há ainda aqueles que sonham em baixar os números da calça por métodos não tão confortáveis. Os desejos passam da linha da finitude e as configurações vão além dos algoritmos.

Nós, por algum motivo, temos prazer em causar inveja nas pessoas mais próximas

É quando o desejo latente encontra lugar nas ações. O indivíduo ensaia ser aquilo que almeja ou ainda torna-se o oposto daquilo que inveja e faz questão de afirmar a inferioridade daquilo que tanto nega.

Evitando generalizações, fui em busca de diferenças culturais a respeito do assunto. Sem muito sucesso, meus amigos europeus hesitaram em expor seu lado invejoso, um pouco diferente de meus amigos latino-americanos. Pude perceber que nós, por algum motivo, temos prazer em causar inveja nas pessoas mais próximas. É importante diferenciar-se dos comuns a partir de alguns marcadores de status, mas, como se não bastasse, é preciso anunciar as aquisições e conquistas para, talvez, legitimá-las.

Em contrapartida, percebemos o quão discretos são os ingleses e suíços, por exemplo. Os turcos e gregos não escondem seu medo da influência de más energias em seus planos de vida – os amuletos são parte do que são como povo. Portugal compartilha do mesmo receio de “agoro”, mas também não é algo a ser discutido abertamente. A proteção lusa está nos sinais da fala diária, ao serem cumprimentados por quem quer que seja, não demonstram prosperidade ou nada que possa despertar inveja no outro. É típico ouvir um “Vou indo!” em resposta a uma pergunta para saber como está.

Bom, espero que encontrem a melhor forma para lidar com a tal invejinha, mesmo com aquela que se denomine “boa”! Mas é só um lembrete de leve, pois também não acho que seja bom ficar chamando pelo seu nome o tempo todo…

…para então no fim, a inveja ser um problema apenas de quem a cria!

 

*Conquistas maritais: ao usar essa expressão, me remeto ao conceito de “capital marital”, muito bem trabalhado pela antropóloga Mirian Goldenberg.

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Sobre o Autor

Estudante de Ciências Sociais na UFSC, tem trabalhado com Antropologia. Estudou Comunicação e Estudos Culturais em Portugal e na Inglaterra.



2 Responses to INVEJA, EU?

  1. Dani says:

    Frango caril para isso?! … acho que faltou um pouco de tempero, viu? Mas no fim até que eu gostei do texto! Nós, brasileiros, somos assim mesmo, não é?! Causar inveja.. nem que o motivo não seja verdadeiro. O que vale é o discurso, a aparência! Também gostei que você citou a Marcia Goldenberg, super em alta.. aliás, não foi ela quem escreveu “A outra” e “Porque homens e mulheres traem”? rs.
    Beijos e até a próxima!

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