Pirão

Publicado em novembro 6th, 2013 | por Danilo Calegari

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MANUAL DE DESCONSTRUÇÃO ENOLÓGICA

O abade Wilhelm Von Hirsau, em 1085, dizia que não era preciso falar para pedir vinho no refeitório da abadia de Hirsau. Bastava unir o polegar e o indicador, em frente ao rosto, e fazer uma pequena rotação de pulso.

Durante a Idade Média, abades e monges foram os grandes aperfeiçoadores da vinicultura. Entretanto, plantavam sem beber; ou bebiam pouco e vendiam muito. Grande parte da produção era destinada à venda. Os rituais de catarse etílica faziam parte das culturas pagãs. No mundo cristão, reinava a sobria ebrietas. O êxtase espiritual devia vir através do jejum e da meditação.

Muito antes disso, por volta de 6000 anos A.C, os armênios já esmagavam uva. Faziam os vinhos mais antigos do mundo. Dali em diante, a uva e o vinho sempre acompanharam o homem.

São vários os relatos sobre o vinho nas culturas egípcia e grega. Papiros nos mostram que os faraós iam para o além acompanhados de uma múmia de gato e ânforas de vinho, entre muitos outros pertences.

Tanto a Ilíada quanto a Odisseia são regadas a passagens vinificas. Pobre Polifemo! Perdeu o único olho que tinha porque Ulisses o embebedou com vinho puro.

E quanto a Noé? A tradição judaico-cristã diz que foi ele quem, após o dilúvio, plantou a primeira parreira no monte Ararat (fronteira entre a Turquia e a Armênia) para depois se embebedar e amaldiçoar Canaã.

A mitologia é vasta. As histórias em torno ao vinho também. Para cada época, a bebida proveniente da uva obtém uma relevância. Mas atualmente, qual a importância do vinho?

Hoje o vinho é elegante, sinônimo de coisa refinada. Geralmente, quem tem o poder de entendê-lo, tem também certo ar elevado. Tanta superioridade que as palavras escorrem.

Na verdade, se fala muito do vinho. Mas se fala tanto que, quando vejo mais um sommelier explicando a acidez, o odor de lenha queimada, os buquês, etc… me vem vontade de tomar cachaça.

Porque nem o Brasil nem os Estados Unidos possuem uma cultura vinifica abalizada. Isto é coisa recente nestes países. Então, o surgimento de tantas pessoas falando sobre o vinho e o glamour que o produto porta tornam-se embaraçante. A questão aqui é a produção e o escoamento demasiados. É preciso vender garrafas e então se ponta uma clientela. Quando se trata de vinho, ao menos no Brasil e nos Estados Unidos, a clientela é “de gente bonita, elegante e sincera com poder para dizer mais sim do que não”. A suposta chiqueza do vinho atrai poucos e bons compradores, porém acaba afastando uma quantidade muito maior. Através da propaganda que se faz, a apreciação do vinho parece ser alcançada somente por uma casta exclusiva de pessoas.

O vinho não é chique, muito menos bebida de gente rica. O champanhe e o prosecco não são feitos para serem servidos somente nas festas de Jurerê Internacional… Eles são nossos! Bebei-vos… todas as garrafas, em taças… de plástico!

Este derrame enológico não é só exclusividade nossa. Acontece também na França e na Itália. Tanto um quanto o outro sabem o que é vinho. Não conhecem somente o produto acabado. O conhecimento sobre o vinho vai muito além disso.

Há muito tempo, a região onde hoje é a Itália era chamada de Enotria (terra dos vinhos) pelos gregos. Uma combinação de geografia e condições meteorológicas fazia daquele lugar o melhor para a vinicultura.

Atualmente, é a França que se beneficia com o culto ao vinho. Maior produção, maior consumo, melhores vinhos… Em 2012, as vendas do champanhe geraram uma cifra de mais de 4 bilhões de euros, sendo mais da metade do valor em exportação. Esta vocação não vem por acaso, é fruto de condições territoriais apropriadas, trabalho e estudo da vitivinicultura e, além disso, uma legislação que mantém elevado o já alto nível de qualidade.

Mas por que a falácia em torno do vinho nesses países? As novas gerações se afastaram do produto. O vinho deixou de ser a bebida convivial. O distanciamento das pessoas faz com que se criem novas mitologias em torno do produto, que já é carregado de significados. Essas novas crenças se inflam e ocupam um espaço, adaptado à transmissão de imagem de um produto sofisticado e exclusivo, invertendo o sentido do que é beber uma taça de vinho. Não! Não, minha gente! Beber vinho é antigo. Mais antigo do que nós todos. O vinho é um elixir da vida eterna que não nos deixa jovem. É coisa de velho.

E o que mais incomoda um velho que gosta de beber seu copinho é o charlatanismo daqueles que receberam a benção de uma entidade divina, tornando-se capazes de apreciar e dividir o conhecimento sobre o vinho. Sobretudo hoje, quando, em prática, o produto vinho passa por um período nebuloso. Mesmos gostos, sabores, cores, odores, perfumes de lenha queimada… O comércio em escala global exige. Uma padronização, da produção a degustação, e até do discurso dos sommeliers.

O vinho não é chique, muito menos bebida de gente rica. O champanhe e o prosecco não são feitos para serem servidos somente nas festas de Jurerê Internacional… Eles são nossos! Bebei-vos… todas as garrafas, em taças… de plástico!

Antes de acabar e de que isso vire um manifesto marxista contra os apreciadores de vinho e sommeliers, me lembrei de uma conversa com um maestro manezinho que morou na Alemanha, terra da cerveja. Ele era “especialista” em vinho e uísque com “w” e me perguntou, pois eu havia morado tanto tempo na Itália e na França, qual era o vocabulário a ser empregado depois de degustar a bebida dos “deuses”. Para responder, lembrei o Wilhelm Von Hirsau e inverti a sugestão. Disse que, depois de beber o vinho, em qualquer copo, era obrigatório fazer silêncio.


Sobre o Autor

Mora em Trento, Itália, onde trabalha como art coacher e colhedor de uvas entre agosto e setembro. Mudaria tudo se na próxima vida nascesse surfista e pescador no Farol de Santa Marta, em Laguna.



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