Pirão

Publicado em abril 8th, 2014 | por Gabriella Figueiredo Santos

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#MEMÓRIA

Era uma manhã de domingo nublado e quente.

Saí para cumprir minha “to do list” do dia e encontrei uma senhora, que tratarei por Teresa, cuja elegância logo me chamou atenção. Usava bolsa Michael Kors, adereços finos, casaco lindíssimo e moderno. Aparentava seus 80 e poucos anos muito bem conservados. Bom, estávamos no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa e foi quando ela tirou da bolsa uma espécie de capa de livro com o título Liturgia Diária. Logo pensei que ela iria rezar, mas ao abrir estava repleta de fotos! Antigas e recentes, em algumas lá estava a senhora já muito bem vestida cercada por pessoas, fotos já amareladas de crianças, retratos de homens de bigode e mulheres de chapéus, mas ainda outras de jovens, aparentemente em viagens fora do Brasil.

Fiquei por alguns minutos hipnotizada, vendo o passar de dedos de Teresa. Foto por foto, momento por momento, pessoa por pessoa, memória por memória. Sua expressão facial modificava-se à cada mudança do cenário de vida que tinha na ponta dos dedos e no meio daquela Liturgia Diária. Pelo dicionário, este termo significa “reunião de elementos ou práticas que normalmente são adotados por uma religião”, é o desenvolvimento daquilo que podemos dizer ritual. E aqueles recortes não deixavam de ser exatamente parte do ritual da experiência de uma vida toda e cada fotografia era a prova da existência de cada elemento, de cada peça.

Teresa tinha sua memória em mãos, saboreando a “paupabilidade” que lhe era possível naquele momento. A memória cria essa disponibilidade para a presença e para o movimento em relação à experiência já vivida, às pessoas, aos lugares, aos sentidos e sensações. Aquelas fotos me abriram para a possibilidade de explorar perspectivas e interpretá-las. Mas, sabemos que o que configura a memória é sua individualidade, a subjetividade que implica no percurso rumo a si e à tentativa de encontro do outro. Uma vez que, independentemente do relato, apesar de ser individual, ele é sempre em relação a alguém ou a alguma coisa.

Teresa se foi em um segundo de minha distração, e levou consigo uma versão primeira do seu, do meu, do nosso Instagram. Brincadeiras à parte, fica a pergunta e assunto para outra conversa… Seríamos os mesmos sem nossas memórias? Sabendo que temos a capacidade de editá-las, física e mentalmente, somos mesmo o resultado de tudo aquilo que vivemos ou da interpretação de tudo aquilo que experienciamos?

[Foto: josefnovak33]

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Sobre o Autor

Estudante de Ciências Sociais na UFSC, tem trabalhado com Antropologia. Estudou Comunicação e Estudos Culturais em Portugal e na Inglaterra.



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