Pirão misterlonelypost

Publicado em setembro 17th, 2012 | por Leandro Pitz

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MISTER LONELY

Depois de atravessar uma geração flutuante e sem rumo, de amarelar o sorriso cínico com picadas de heroína e de levar um pé fulminante da sua amada Chloe Sevigny, nosso Director Lonely, que um dia fora Kid Lonely, foge da California e se isola numa selva do Panamá por 9 anos.

Jovem skatista, cheio de clareza sobre o fracasso da vontade e da América, Harmony Korine já tinha feito, ao seu modo enfant terrible, boas pérolas para o cinema, como os roteiros de Kids e Ken Park, filmados por Larry Clark. Seu debut como diretor de Gummo, aclamado como um clássico da blank generation dos anos 1990,  fez Herzog, o lendário diretor alemão dos loucos e desajustados, brilhar os olhinhos e considerá-lo a “salvação para o cinema americano”.

Acontece que em certo momento se chega na metade escura da vida e o adolescente eterno acaba se ferrando inteiramente para se transformar em uma criatura não menos estranha: o adulto. Nessa hora, saído da selva brutal, nosso não mais Kid e sim Mister Lonely retorna com esta película ainda bizarra, porém cheia de uma nova delicadeza e um olhar sobre a fé. Para ilustrar sua nova fábula contemporânea sobre a angústia e a busca por identidade, Korine, que sempre foi cru e realista nas suas imagens, agora adota a metáfora poética e nos apresenta um casal muito amado pelo mundo: Michael Jackson e Marilyn Monroe. Na verdade um casal de sósias, mas tão cheios de triste amor quanto os originais. Somado a isso, há ainda o conto de milagre e ruína de freiras que, numa comunidade isolada da América latina, descobrem o dom divino de saltar de avião sem paraquedas.

Ao som do velho Bobby Vinton, nosso sósia de Michael (Diego Luna), pilotando uma mini-moto junto ao seu macaquinho de pelúcia, olha para o céu: “Lonely, I’m Mister Lonely. Oh how I wonder how is it failed?”. Nosso coração já está aberto com tanta doçura que parece cantar junto: onde foi que falhamos? Imenso e azul, para todos os imitadores que somos, o céu não pode nos responder como foi que o milagre deu errado. Estaremos enganados para sempre se pensarmos que o erro está na imitação. Da mesma forma e no mesmo lugar, o céu também não saberia de nada. Quem você pensa que dirá que o pobre Michael está perdido? Ainda que estivesse fugindo de si mesmo, não seria verdadeiro ser um eterno fugitivo?

O sósia de Michael olha para o céu e canta “Lonely, I’m Mister Lonely. Oh how I wonder how is it failed?”. Nosso coração já está aberto com tanta doçura que parece cantar junto: onde foi que falhamos?

Para acompanhá-lo surge então uma bela e trágica mulher, sósia de Marilyn (Samantha Morton), espiando pela janela de um asilo um frágil Michael Jackson dançando para que os idosos sejam jovens pra sempre. Os dois se conhecem e ela o convida para morar nas Terras Altas, uma espécie de Arcádia perdida para imitadores, onde todos moram juntos, suspensos num mundo sem fim e sem começo, vivendo como seus astros para sempre reluzentes.

É assim que nosso diretor introduz seu sintomático conto de fadas: com Michael se rendendo ao amor por Marilyn e partindo para a terra do nunca, como na Neverland onde viveu aquele que foi seu ídolo. Lá o casal será acolhido por tipos que nos farão lembrar das criaturas de Tod Browning: um Chaplin que poderia ser Hitler, James Dean, Sammy Davis Jr., Madonna, Chapeuzinho Vermelho, Shirley Temple e vários outros que tentarão se salvar dessa estranha vida ensaiando o mais precioso espetáculo jamais visto.

Claro que encontram pelo caminho um grande vilão: o esquecimento, aquele mesmo do qual já participamos. Certamente no céu do nosso diretor, assim como no céu sobre as nossas cabeças, as estrelas enfraquecem e morrem. No cinema de Korine as coisas não seriam diferentes. Que assim seja e que aproveitem o show.

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Sobre o Autor

É formado em Design Gráfico e deformado em literatura e cinema da melhor forma possível. Prefere o grande silêncio mas sabe que pra isso é preciso falar. Convide-o pra beber mas não pergunte o que está pensando.



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