Pirão

Publicado em maio 14th, 2014 | por Gabriella Figueiredo Santos

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MUITOS ESTADOS UNIDOS

É a minha primeira vez nos Estados Unidos, e por mais que eu tentasse não pensar em senso comum sobre todas as coisas que falam deste país, ainda não sabia muito bem o que esta viagem me reservaria. Venho tentando resumir em poucas palavras como tem sido minha experiência aqui, mas parece que nunca foi tão difícil fazê-lo.

Acredito que as viagens já começam nos aeroportos. Mas ainda em Guarulhos, era assombrada (rs) por aquelas centenas de turistas indo pra Disney ou Miami, declamando guias turísticos de cor e de trás pra frente. E então, depois de algumas horas de vôo, minha próxima conexão começou a ficar interessante. Meus companheiros de assento eram um jovem senhor americano e sua esposa, formalmente trajados com o que há de mais indicativo de “gringos de férias em terras tropicais”. Conversamos sobre trivialidades e quando percebi, várias das fileiras estavam se relacionando. À minha frente estava um cara estilo Jay-Z, segurando com todo o cuidado do mundo uma caixa já aberta de Cinnamon Rolls, e suas correntes e pulseiras balançavam conforme gesticulava e levava à boca aquela delícia toda trabalhada na canela. Atrás de mim, havia uma mulher que viajava com seus dois filhos. O clã era quase uma estação de rádio: a mãe perguntava coisas às crianças em francês, mas eles respondiam em inglês, vez e outra cantavam em árabe e conversavam com as aeromoças em espanhol. Mal sabia eu que aquilo daria o tom de minha experiência por aqui. Olhos e ouvidos devidamente entretidos, chegamos ao nosso destino.

Meu primeiro “jantar globalizado” foi em um restaurante salvadorenho, La Frontera. A localização já é algo que chama atenção. Esse e outros restaurantes típicos ficam normalmente em pequenos centros comerciais que agregam outros serviços da mesma nacionalidade ou pelo menos das proximidades, geograficamente falando. Tive a impressão de que eram como pontos de encontro de comunidades com origens em comum. Apesar de estar hospedada na casa de americanos, eles parecem ter mais intimidade com a diversidade culinária do que eu. Já comecei adorando! O lugar mais parecia uma balada, havia um DJ tocando os sucessos de El Salvador, luzes piscando e girando. Sim, enquanto a comida não vinha tive muita vontade de sair dançando com meu par pelo salão. Só que não, era só um restaurante mesmo! O prato que mais gostei foi algo bem simples – Pupusas (tortillas de milho recheadas com queijo). O preço é incrivelmente barato; aliás, comer nos Estados Unidos me parece menos caro do que no Brasil. Outra coisa interessante é que foi ali que comecei a perceber como o espanhol está se tornando quase que fundamental nos EUA. Em muitos lugares há placas de sinalização e propagandas já nas duas línguas, e em estabelecimentos alimentícios típicos, por exemplo, alguns só falam espanhol.

A segunda incursão culinária foi em uma espécie de delivery jamaicano. Deste não posso falar muito sobre, pois não tive a melhor das experiências “pós comida”. O tempero era fortíssimo, cheio de personalidade (até demais rs), uma mistura de amargo com picante-picantíssimo.

Continuo descobrindo outros sabores por aqui. E ainda pensando como resumiria este país, diria que ainda preciso de mais tempo para sentir as terras do lado de cá… continuo brincando com a curiosidade

Foi quando meu estômago pediu um tempo e voltei a comer minha comida levinha. É incrível a dimensão da indústria de “alimentação orgânica, saudável” nos Estados Unidos. O supermercado referência no assunto é o Whole Foods; você pode passar um dia todo por lá e ainda não será o suficiente. Lá você encontra a “versão saudável” de tudo que precisa (ou não) para sobreviver – de produtos de higiene pessoal a “super comidas”, passando por todos os tipos de guloseimas “versão fit”, é claro.

Bom, mas voltando à rota… outra boa surpresa foi a popularidade da comida do México por aqui. E depois, conversando com pessoas e assistindo alguns programas, aprendi que a culinária mexicana hoje é considerada parte do itinerário alimentar americano. Sim, tacos e burritos concorrem com hambúrgueres e batatas fritas facilmente.

Depois de muita pimenta na veia, me veio a lembrança de antigos filmes norte americanos que costumava assistir. E uma das imagens que me marcou foi o “diner”. Podemos chamar de “American style diner”, mas nada mais é do que um restaurante mezzo lanchonete que serve lanches e refeições rápidas. Caracterizados com estilo anos 50, era o único lugar que eu queria estar naquela noite polar em Nova Iorque, depois de muito bate perna. A primeira coisa que pedi – “a creamy cold chocolate milkshake, please!” – é… cheio de adjetivos e emoção e esquecendo por alguns segundos o frio lá de fora, “just like that”. E engana-se quem pensa que naquele lugar nós estaríamos experimentando uma fatia somente da cozinha norte americana. O simpático senhor que nos atendeu era grego e contou que abriu aquele diner há anos com os irmãos, todos vindos da Grécia “em busca de uma vida melhor”. E em homenagem a eles, meu jantar foi um delicioso assado de berinjela, tomate, cebola, ervas e muito queijo feta.

Mas antes que me alongue mais ainda, não posso deixar de registrar minha iniciação à comida etíope. Era um restaurante de esquina, despretensioso, mas em uma área bastante abonada de Washington. Ao entrar, seus sentidos já são comovidos. Há um cheiro de algo que ainda não consegui descobrir o que é… algo entre água de flores e massala… uma mistura que nunca senti. O lugar se divide entre bar com happy hour durante a tarde, jantar até as 21h e balada a partir das 22h. A decoração é curiosa, há cenas pintadas de hábitos tradicionais da Etiópia, além de tapetes e uma espécie de carpete nas paredes. Soube que há alguns anos só se via nativos por ali, mas nos últimos dois ou três anos há frequentadores de todas as origens possíveis. Comemos um “prato” que é a base da alimentação daquele povo – o Injera, um pão redondo, esponjoso e feito de um grão (gluten free) chamado Teff. O Injera forra uma bandeja que é compartilhada por todos à mesa; sobre ele são dispostos refogados de legumes (wots), ovos cozidos e diferentes tipos de carne – frango, cordeiro, vaca. Nosso acompanhamento foi a sugestão tradicional da casa, o Tej – um vinho feito de mel, delicioso!

Enquanto isso, continuo descobrindo outros sabores por aqui. E ainda pensando como resumiria este país, diria que ainda preciso de mais tempo para sentir as terras do lado de cá… continuo brincando com a curiosidade.

See you, guys!

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Sobre o Autor

Estudante de Ciências Sociais na UFSC, tem trabalhado com Antropologia. Estudou Comunicação e Estudos Culturais em Portugal e na Inglaterra.



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