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Publicado em junho 30th, 2011 | por Revista Naipe

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MÚSICA TRASH: ATÉ QUANDO?

É sábado à noite e você está na balada com aquela sensação: é hoje. De repente, algo acontece.

O DJ saca do coldre uma Britney Spears anos 1990, em seguida solta uma pokebola em forma de Kylie Minogue e, três minutos depois, digivolve para Aqua (aquela de Barbie Girl). Não tem jeito, todo mundo sabe o que vem a seguir: Spice Girls. O que você faz?

a) abraça seus amigos e dança como se não houvesse amanhã;
b) fica um pouco desgostoso, mas adere à catarse coletiva ao seu redor;
c) vai embora da balada considerando o set-list uma ofensa pessoal;
d) pra você, a música é mera coadjuvante da festa: se tocasse Leandro e Leonardo, dane-se.

A Naipe já presenciou todas essas reações e há muito anda intrigada: a que se deve o sucesso da música trash nas baladas? O trash rouba o espaço de outros sons? Viveremos para ver um desgaste do trash?No recém-lançado romance Um dia, do inglês David Nicholls, um personagem faz, na década de 90, piadas com remotos salgadinhos dos anos 70. Ou seja, homenagens póstumas a produtos bisonhos que duraram pouco parece algo inevitável na cultura pop. O fenômeno parece não ter fim à vista.

Inspirada na seção Tendências e Debates da Folha de S. Paulo, a Naipe começa uma série de posts-debate sobre temas que andam quicando por aí. Nesta primeira discussão, duas figuras da fauna noturna de Florianópolis dão suas opiniões: o DJ Carlos Costa e o grão-mestre (e também DJ) do muito frequentado 1007 Boite Chik, Rafael Korova.E a sessão de comentários, claro, é toda sua, leitor. Fique à vontade.

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“O público pouco espera. E quando expectativa é baixa, amigo, it´s all downhill from here”

[Por Carlos Costa*]

O começo desse papo merece um disclaimer: eu não tenho nada contra música “trash”. Quem já foi nas minhas festas sabe que sempre faço questão de mandar Jesus Cristo, hino do rei Roberto, como última música da noite. Mas, como tudo na vida, até brócolis, é preciso moderação.

Vamos ao conceito de trash: uma música que lá no seu ano de concepção (possivelmente nos 80s ou 90s) já era meio duvidosa, passou por anos obscuros de semi-aceitação, e hoje é revisitada com ares de kitsch. Isso se for antiga, caso contrário é só lixo fonográfico contemporâneo.

Tem uma grande fatia de guilty pleasure quando alguma dessas pérolas é revisitada no meio de um set “normal”. Nada como cantar a plenos pulmões alcoolizados às 3h da manhã como o pimpolho era um cara bem legal, mas só. Não gosto quando o Pimpolho convida a Valesca, a Sandra Rosa Madalena, o beija-flor do olodum, a Lady Gaga e o resto da turma pra mesma festa. Não funciona pra mim. Não posso negar toda a produção musical à qual me obrigo a me expor todos os dias entre EPs e remixes em prol do discurso do puro hedonismo.

Mas esse não é o cerne da questão. A verdade é que hoje pouquíssima gente sai pra dançar e ser surpreendido por aquela música incrível que ninguém conhece, que até te leva a perguntar o nome do artista pro DJ. A música virou pano de fundo para a extensão das cutucadas de Mr. Zuckerberg, pro vômito roxo do vinho barato consumido nos esquentas que desafiam a lei do silêncio. E então criou-se um público que pouco espera do coadjuvante dessa intrincada equação: a música. E quando a expectativa é baixa, amigo, it’s all downhill from here.

E de expectativa baixa pode ter certeza de que o novo viés eletrônico da música pop entende bem. Damos de cara com uma centena de enlatados radiofônicos, todos querendo os beats mágicos que seduzem o mundo. E olha que as vezes sai uma pérola tipo “till the world ends”, da Britney Spears (com produção dos gênios pop dr. Luke e Max Martin e letra de – pasmem – Ke$ha), de que eu realmente gosto, mas são raras.

E isso se reflete nos clubes e naquele público citado ali em cima, que não vai exigir muito de quem se propõe a tocar o óbvio. Ganha-se em números e na dita “diversão sem pretensões”, mas perde-se no caráter inovador, inerente à atividade do DJ. Agora junte isso tudo com a pressão e os custos para se manter um clube aberto, a facilidade de baixar um torrent com as top 10 do mês e temos um círculo vicioso difícil e perigoso.

Longe de mim querer parecer intolerante. Creio que tudo pode coexistir, há espaço para todos e cada festa ajuda a construir a noite alternativa da ilha. Fico feliz de saber que em Florianópolis existem esforços em outras direções. Festas como Som, Vertigo, W!ld, 8bits, Fullhouse e o projeto Sounds in da City garantem a qualidade técnica e sonora e fazem a alegria de quem quer mais que só se jogar, de quem sai de casa de cabeça aberta e disposto a ser surpreendido. Pro bem.

*Carlos Costa é designer gráfico por formação, DJ por amor e comanda o 808 Audiolab. Twitter: @garlowz
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“Não vejo um desgaste da fórmula; não tem como desgastar o que já está gasto”

[Por Rafael Korova*]

A definição “trash” é um tanto quanto subjetiva. Tem mais a ver com gosto do que com gênero ou ritmo. O que é trash pra mim pode não ser pra outra pessoa. Exemplo? Trash, ou lixo, pra mim, é Motorhead. Extremamente trash. Já para a maioria, trash é Rouge, Spice Girls, Gretchen… e até mesmo funk carioca, que eu curto.O que está na moda, e sempre estará, é olhar para trás. É o que tem acontecido na maioria das festas com temática trash: ouve-se o que se ouvia (ou não) no passado. Mas saliento mais uma vez que isso não é de hoje: Sidney Magal, por exemplo, fez sucesso, amargou anos sem reconhecimento, como brega, e aí voltou, considerado um “vintage”. O mesmo com Backstreet Boys, que tentam sem sucesso um retorno com inéditas, um novo CD, mas não conseguem: o que faz sucesso é o que se ouvia lá atrás.

Ouvir de novo, em outra fase da vida. O povo que está na pista gosta de ouvir coisas que o conecte com seus 10, 11, 12 anos, época em que a maioria não bebia, não podia sair de casa… E agora pode. Ou ainda ter a segurança (e o apoio da multidão de amigos) para ouvir algo que antes não se ouvia porque não era exatamente de bom gosto. Quando se é pré-adolescente ou adolescente, isso têm mais peso. Depois, passa a ser legal “assumir” que se gosta de algumas dessas coisas.Há uns 15 anos, a moda era fazer festa anos 70, peruca black power como fantasia, aquela coisa toda. Depois veio a moda de festa anos 80, e agora estamos nos 90 e 2000. Esses revivals sempre têm um gap de uns 15 ou 20 anos – tempo que leva para alguém crescer, sair e querer ouvir o que o irmão mais velho ouvia em casa, por exemplo.

Não acredito que o trash roube espaço de ninguém. Não há falta de opção. O movimento é geral. Essa é a “era da internet”… Cada vez mais é uma grande brincadeira, como se vestir de mulher no carnaval. O povo das baladas não procura apenas uma festinha; as pessoas estão atrás de experiências! Pode ser com aquela música ouvida o dia todo na rádio, ou aquela que há dez anos que não toca. Curtir a balada, em 50% dos casos, não tem a ver com a música que toca no lugar, e sim com o ambiente e com as pessoas. O legal do trash é que ele mobiliza tanto o público que transforma o ambiente.

Também não curto definir fronteiras geográficas. Acho que não existe mais música regional. Não acho que uma identidade musical mais forte na Ilha mudaria alguma coisa, nem sei o que seria isso. Ninguém dá a mínima pro “made in Brazil” ou “manezinho”. Até porque quem é daqui?  Floripa é um caso de lugar mais ocupado por gente de fora do que por quem nasceu na Carmela.

Ainda assim, não acho que o trash tenha esse poder todo: ele é um pedaço da coisa, uma fatia do bolo. E ele cansa. No 1007, por exemplo, dedicamos apenas uma noite no mês especialmente para ele. A gente precisa do novo. E eu não tô falando do novo como vanguarda, mas do novo que, em último caso, vai renovar o trash. Daqui a 20 anos vai ter festa trash anos 2000 com Lady Gaga no cartaz. Acho que esse é o poder do trash, ele se reinventa. Não vejo um possível desgaste na fórmula. Não tem como desgastar o que já está gasto. O legal do trash é já vir desgastado.

*Rafael Korova é sócio na Garagem Korova, grão mestre e DJ do 1007 Boite Chik. Twitter: @rafakorova
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Sobre o Autor



9 Responses to MÚSICA TRASH: ATÉ QUANDO?

  1. zuleika zimbábue says:

    Sim, festa trash vai continuar a existir porque sempre vai haver essa demanda. Nossa preocupação deve ser que as festas trash (e as eletrônicas e o sambão) sejam de qualidade, isso sim. Trash sim! Lixo não! Viva o “bom” trash!

  2. zuleika zimbábue says:

    Aí, que o buraco é mais embaixo, o mundo não é tão simples, organizado e compartimentado assim: bom ou ruim, trash ou não trash. A segunda questão é o que você faz, como você urde, “mixa”, roteiriza o seu acervo musical dentro da sua opção estética, seja trash ou eletrônica ou sambão. Já vi sets trash geniais, fiz alguns, inclusive, modéstia a parte, e outros ridículos. Assim como já ouvi sets dentro do vasto universo da música eletrônica que foram inovadores, inquietantes, extremamente conceituais e profissionais, sem deixar de ter o pop como ingrediente, eventualmente até o trash (o Alejandro Ahmed bota “Evidências” dentro do set eletrônico e é incrível e cheio de bom gosto; e “evidências” é trash, né?) E já ouvi coisas muito bem executadas coisa e tal, porém chatérrimas (pra mim); sabe aquelas que parece que ta tocando a mesmíssima coisa há duas horas?

  3. zuleika zimbábue says:

    Trash é um conceito estético e, como tal, abrange muito mais que a música. Trash não é lixo. É de gosto duvidoso, tem cores berrantes, é o “cheesy”, o “tacky”; mas não é lixo. Não é ruim, no sentido de mal feito e, evidentemente, varia de ouvido para ouvido; de manequim para manequim…

    Um set musical que se propõe a ter “musica trash”, como qualquer outra linha estética, pode ser ousado, como também pode ser óbvio. A primeira questão são as escolhas. O Richard Cheese, que leva o conceito até no nome faz um som refinadíssimo. A Britney Spears é uma bosta de cantora, mas todo o aparato ao redor dela (compositores, arranjadores, músicos, produtores) é de primeira qualidade. Jamais toquei Xuxa, acho um lixo, mas a catarse é sedutora, mas daí toco Magal, que tem uma estrutura musical digna, ao menos, e sabia cantar, (hoje, talvez, não mais); toco Locomia, que tem uma linha de baixo muito boa. E aí?

  4. Avila says:

    [quote name=”Bianchini”]Só pra constar que o lance é ter nascido na Carlos Corrêa, não na Carmela, que é coisa de quem estudou no Coração.[/quote]

    De fato!

  5. rafaela regina says:

    O problema é a generalização da coisa. Parece até preguiça. Fora que tem festas que anunciam uma coisa dosada mas, chega lá, em nome da catarse, passa a noite inteira tocando coisas do naipe de “chorando se foi…”. Enganar também não dá né. Dinheiro ta escasso poxa.

  6. Cudo says:

    se tá rolando lulu santos é porque o lance tá bom pacas!

  7. Bianchini says:

    Só pra constar que o lance é ter nascido na Carlos Corrêa, não na Carmela, que é coisa de quem estudou no Coração.

  8. Lara Guimarães says:

    Adorei o “Nada como cantar a plenos pulmões alcoolizados às 3h da manhã como o pimpolho era um cara bem legal, mas só. Não gosto quando o Pimpolho convida a Valesca, a Sandra Rosa Madalena, o beija-flor do olodum, a Lady Gaga e o resto da turma pra mesma festa.” que o Carlos Costa mandou. ri em alto em bom som, e assinei embaixo. Mas eu sou um pouquinho mais “tolerante”: até aturo e gosto de uma festa trash de vez em quando (e por de vez em quando eu quero dizer beeeem de vez em quando). o problema é que parece que toda hora é hora e todo lugar é lugar. Daí é você se distrair que tá rolando um Lulu Santos e daí é mesmo o começo do fim: pode acreditar que vai rolar pelo menos uma Xuxa. E aí ja era.

  9. Léo T. Motta says:

    Sou do tipo que, provavelmente bêbado, b) fica um pouco desgostoso mas adere à catarse coletiva ao seu redor.

    Concordo com o Korova, que a fórmula já vem desgastada e que a conexão nostálgica contam muito nesses momentos, mas acho que até esse gap de 15-20 anos tá ficando previsível demais. Não dá pra virar costume, mas o trash tem seu papel e, ao que parece, faz um bem danado às pobres almas que tiveram sua infância em idos de mil novecentos e oitenta/noventa e lá-vai-Gelockos.

    E sobre o discurso do Carlos, igualmente muito interessante, vale citar que ninguém escapa de guilty pleasures vez ou outra mas que, na condição de DJs e afins do submundo musical – e ainda mais se tratando de uma capital -, não se pode negar toda a bagagem cultural e todos os valores que permeiam a profissão/hobby.

    Boa proposta, esse post-debate.

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