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Publicado em janeiro 30th, 2012 | por Diogo Araujo da Silva

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NA NOSSA FRENTE

Está acontecendo. Peço aos lúcidos de plantão que prestem toda atenção, pois aposto todas as minhas fichas (mais as dos distraídos) na defesa de que uma cena de música contemporânea, profissional e desafiadora começa a dar passos de gigante em Florianópolis.

As suspeitas são antigas, mas a prova cabal a tive neste sábado, 28 de janeiro, na Casa de Noca na Lagoa da Conceição. O evento era um tributo a Vinícius de Moraes a um só tempo despretensioso e absolutamente certeiro.

Pra mim foi um alívio. Há 10 anos desço a rua que chamo de “avenida Drakkar” (rua com a maior concentração de bares da Lagoa, situada no começo do centrinho) e me deparo com o grande mistério: por acaso é lei federal os músicos dos 10 bares que ali se enfileiram tocarem somente músicas da Ana Carolina, do Capital Inicial e do Bob Marley, mais ninguém? Ou trata-se de uma peça de arte abstrata em que apenas uma única música é executada simultaneamente em ambientes “diferentes”?

O que vi neste sábado foge de todo o lugar comum da música de noite feita em Florianópolis. Não havia apenas canções conhecidas e dançantes. Serei claro: as canções eram as mais conhecidas e as mais dançantes. O artista homenageado era apenas um: esta espécie de padroeiro sagrado da carne, santo do povo brasileiro, que é o gênio Vinícius de Moraes. Mas não era só isso.

Para começar os seis músicos eram Músicos. Levariam a música para onde quisessem, mas, além disso, escolhiam sempre a simplicidade, o bom gosto e a alegria. Os arranjos eram simples, mas abriam espaço para os impressionantes improvisos jazz do guitarrista (e cabeça deste e de vários outros caprichadíssimos projetos) Leandro Fortes, para a criatividade do batera virtuose Mauro Borghezan e para a energia eterna e certa das canções Canto de Ossanha, Bocoché, Odeon, Água de Beber.

Completavam a banda a cantora Jana Gularte (que eu não conhecia e que sabe ser discreta e forte, coisa raríssima em nossos tempos de excêntricos estrelatos), o baixista de jazz e professor de música Carlos Ribeiro Júnior e os inacreditáveis novos talentos das musicistas Eva Figueiredo (clarinete e grande voz) e Larissa Galvão (flauta e voz).

Em um bar despretensioso, durante um evento despretensioso uma diferença que transcende em nome da beleza aconteceu. Mas este é apenas um sinal.

De uns cinco anos pra cá muito mais que uma dezena de músicos talentosíssimos vêm dando um grito (silencioso) de basta às dificuldades para que projetos audaciosos e sofisticados também chamem a atenção dos moradores da capital de Santa Catarina.

De uns cinco anos pra cá muito mais que uma dezena de músicos talentosíssimos vêm dando um grito (silencioso) de basta às dificuldades

O duo A corda em si, por exemplo, é um dos casos mais incríveis. Formado pela cantora Fernanda Rosa e pelo baixista Mateus Costa, o projeto ousa reler clássicos de alto nível da canção brasileira misturando bom gosto, ousadia técnica e muita, muita intensidade emocional.

O músico François Muleka, crescente sucesso entre o público jovem e já chamando a atenção de músicos da velha guarda (como Alegre Corrêa e Toicinho Batera), desponta com sua incrível fertilidade, criatividade e originalidade de composições. Suas canções soam como uma síntese da profundidade de Milton Nascimento e da sensualidade rebelde de toda música jovem feita no mundo com a consciência de um rico trabalho musical que pode estar plenamente presente numa canção.

A cena de jazz quer explodir em nossa cidade. Não deveria precisar falar sobre um dos maiores bateristas do Brasil, o florianopolitano Toicinho Batera, um dos grandes artistas de todos os tempos daqui. A unanimidade nacional da bateria Nenê, maior nome do instrumento em nosso país, é fã deste artista que, além de todo seu talento, é um ser humano dos mais intensos, inteiramente entregue à violência e à comicidade da vida.

O guitarrista, jazzman fiel e professor de música Wslley Risso consegue ser mais agressivo que qualquer guitarrista de rock sem entortar uma corda ou fazer uma pose sequer. Sua técnica, paixão pelo instrumento e criatividade são impressionantes e podem ser conferidos nos inúmeros bares que toca e projetos que apóia, além de sua sensacional banda de composições, o Trio Butiá – é só conferir a agenda pelo seu perfil no Facebook.

A cantora e figura da boemia Denise de Castro gravou um disco de canções simples e belíssimas que realizou uma grande proeza: juntou a tradição de Floripa (por meio dos temas de suas letras e de vários dos músicos envolvidos), com a elegância da participação de talentos da música instrumental. O disco se chama Todas as ondas.

E tem muito mais: tem outro grande guitarrista de jazz, o ousadíssimo Fernando Bailão, um ser humano totalmente apaixonado e entregue à sua arte, tocando em vários bares da cidade (como, bastante freqüentemente, o Café del Sur). Tem o grande amigo Trovão Rocha, baixista incansável e de som forte que acompanha o François no Karibu Trio, toca no projeto de funk Funk You Too e em gigs de jazz pela cidade afora. Tem o consagrado Cravo da Terra que, pra mim, é uma das grandes bandas do Brasil, sem sombra de dúvida. E isto é só o que eu, um mero ouvinte de música não-profissional, posso acompanhar.

Endossando a opinião dos meus amigos Gilberto Caldat (filósofo e cancioneiro) e Xandão (grande baixista, membro do Trio Butiá) acredito piamente que o velho Vinícius iria se sentir em casa em Florianópolis, mais especificamente na Lagoa da Conceição. Cerveja, mulheres apaixonantes e fortes e música feita com paixão não faltam e não faltarão por aqui.

Não foram poucas as pessoas que já ouvi comparando nossa cidade ao Rio de Janeiro de tantas décadas atrás. Talvez, para que a comparação de fato vingue, falte apenas um pouco de valorização pelo que de particular acontece aqui, mais algum detalhe que faça explodir tantos talentos trabalhando em puro silêncio.

A arte está acontecendo, e só pode acontecer, na nossa frente; pois é vida.

Ouçamos sua música!

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



4 Responses to NA NOSSA FRENTE

  1. Ericson Demarchi says:

    Parabéns Diogo!

    Uma descrição organizada de forma muito criativa e agradável do quadro artístico musical pintado pelos talentosos e amigáveis agentes e lugares descritos
    no decorrer do afável texto.

    Abraço Grande e

    Sucesso!!

  2. martins says:

    Texto legal.

  3. Diogo says:

    Obrigado monxtro!!!

    Um abraço,
    Diogo

  4. A.R.T. Project says:

    Melhor de tudo é saber que tem gente atenta à isso na Ilha e ouvindo a todos nós.
    Muito bom e pertinente teu post!

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