Pirão criancas_teatro_dentro

Publicado em outubro 12th, 2011 | por Bárbara Dias Lino

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NA PONTA DOS PÉS

Ainda faltava cerca de meia hora para começar o espetáculo.

De dentro do teatro pude observar as crianças, que chegavam agitadas e barulhentas. Deviam ter entre três e seis anos e movimentavam-se sem parar. Desvencilhando-se do caos, uma delas, ainda do lado de fora, aproximou-se da porta de entrada. Na pontinha dos pés, fazia esforço para enxergar, por uma das janelinhas de vidro, o outro lado. Do lugar onde eu estava, podia ver apenas os olhinhos que brilhavam. Mas pela movimentação do rosto da menina dava para ver também que, enquanto olhava o hall de entrada do teatro, além de sorrir, ela mordiscava com ansiedade a madeira em volta do vidro da porta.

Era assim, cheia ansiedade e enxergando o mundo por uma janelinha e na pontinha dos pés, que eu me sentia todas as vezes que minha mãe ou meu pai me levavam ao teatro. Eu morava perto do TAC e ficava ansiosa quando percebia o cartaz grande da fachada tinha mudado. Queria logo ver que história aquele pessoal que usava roupas estranhas em cenários coloridos tinha para me contar.  Não lembro de ter me decepcionado uma única vez

Mas entreter crianças não é fácil, todos sabem disso. Arrisco dizer que o público infantil é o mais crítico e exigente de todos. É difícil manter dezenas de crianças sentadas e atentas. Tarefa para poucos.

Todos estavam agitados e, pelas regras universais do teatro, quando as luzes se apagam todos deveriam manter-se de boca fechada e olhos bem abertos. Mas os xarás Victor Hugo e Victor Hugo pareciam não saber, ou quem sabe mesmo não se importavam, com tais convenções. De costas para o palco eles puxavam assunto com os colegas das poltronas de trás. “Olha pra lá, cara! Vai ser legal!”, tentou chamar a atenção o professor, que logo recebeu a ríspida e perspicaz resposta “quando ficar legal você me avisa!

E olha que não era má vontade dos meninos, e nem posso resmungar e colocar a culpa na nova geração, no computador, videogame ou televisão. Victor e Victor são, sim, muito entendidos em questões de histórias. Falavam com desenvoltura sobre chapeuzinho vermelho e três porquinhos e até espantavam-se quando eu confessava não lembrar, ou mesmo não saber, alguns detalhes sobre as tramas. Mesmo assim, Victor e Victor não souberam dizer exatamente sobre o que era aquela história que se passava no palco e ia sendo projetada em sombras e cores muito bonitas em tons de vermelho, amarelo e azul. Só souberam dizer que estavam cansados de tanto barulho e de tanto “ver esse patinho”.

Eles se esforçaram. Riram quando o bichinho tropeçava, batiam palmas a qualquer compasso ritmado e ficavam com os olhos vidrados quando as cores ficavam um pouco mais vibrantes, mas logo voltavam a ficar indiferentes ao melancólico e monótono drama do patinho.

No final do espetáculo, quando descobriram que o pato na verdade era um cisne, as crianças já estavam ansiosas para ir embora. Riram, fizeram cara de satisfação e até disseram que gostariam de voltar outro dia, mas que agora preferiam voltar para a escola e “chutar bola”. A sorte é que crianças, além de exigentes, também são generosas e esquecem rápido o que não as agrada. Só espero que Victor e Victor voltem outras vezes para conhecer outras histórias e que a menina que vi na estrada do teatro continue olhando através do vidro com os olhos brilhando mesmo quando para isso, assim como eu, não precise mais ficar na ponta dos pés.

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Sobre o Autor

Filha, sobrinha, neta e tataraneta de comunicadores, aceitou seu carma e formou-se em Jornalismo. Apaixonada por arte e cultura, chegou a cursar um semestre de Teatro na Udesc, mas descobriu que seu lugar é na plateia.



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