Pirão o amor condensado

Publicado em março 12th, 2014 | por Nathan Mattes Schäfer

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O AMOR CONDENSADO

O velho acabava de entrar na livraria.

Empurrara a pesada porta de madeira verde-musgo, pulara o desnível entre ela e o piso também amadeirado e via, à frente do nariz aquilino, prateleiras apinhadas. Pensou que Hemingway estivera ali, talvez mirando estantes parecidas, e sorriu. Pensou também no romance que jamais escreveria, nos contos por acabar, na viuvez e nas saudades de Ester, para então tornar ao autor predileto, a vida mais intensa do que jamais se imaginou — e o sorriso se foi.

Quem sabe buscando um respirar mais fácil, abriu o segundo botão da camisa de flanela e ali deixou ficar o indicador direito. Detrás das lentes, olhos verdes e judiados percorriam estantes sem fixar-se em nenhum exemplar. O velho buscava esvaziar a cabeça; concentrava-se no cheiro de papel envelhecido, no perfume adocicado de moças tão mais jovens quanto inacessíveis, no preguiçoso virar de páginas que vinha de quando em vez.

Seguia compenetrado em pequenos prazeres quando percebeu o som do piano. Feito peixe fisgado por anzol, saiu no encalço das primeiras tercinas de uma melodia agridoce, vinda do sótão. Vigiado por caricaturas de escritores célebres, venceu degraus estreitos e deparou-se com um rapaz magro, o capuz de lona quase engolindo a cabeça, tocando o que parecia — pela simplicidade — composição própria. Os acordes iniciais eram trêmulos, desajeitados, mas o desempenho até que melhorava conforme se achegavam ouvintes. O velho decidiu aproximar-se, na intenção de acompanhar visualmente os dedos magros, dançando sobre o marfim amarelado.

 Meu deus, a menina é a cara de Ester, pensou. Podia ver os mesmos olhos grandes e esverdeados, cabelos muito escuros, a pele branquíssima. Se bem que, disse para si, ela tem traços mais bonitos. Ester não tinha dentes assim, nem o contorno do rosto proeminente, definido.

Ao cambiar de posição, pode ver o que a enorme estante de livros raros sonegara: o rapaz tocava para uma moça. Meu deus, a menina é a cara de Ester, pensou. Podia ver os mesmos olhos grandes e esverdeados, cabelos muito escuros, a pele branquíssima. Se bem que, disse para si, ela tem traços mais bonitos. Ester não tinha dentes assim, nem o contorno do rosto proeminente, definido. Tentando parecer alinhado, fechou o botão da camisa. Sorriu na direção da moça. Ela assentiu com a cabeça, consciente do efeito que causava em velhos desleixados. Talvez instintivamente, a moça que parecia Ester ajeitou-se na poltrona, inclinou o corpo na direção do pianista e repousou a mão esquerda, em que reluzia pequeno anel dourado, no pescoço escondido do rapaz. Ele sorriu, atrapalhou-se no tempo e inverteu duas notas na ponte — a mesma que tocava quando o velho entrara no cômodo.

Correram alguns segundos. Os dedos pararam; o pianista deixou o piano e recebeu alguns aplausos. A moça o abraçou, beijou seu cachaço, alisou-lhe os lábios escurecidos e repetiu o que fizera no pescoço. Em resposta, ele disse algo em língua desconhecida pela maioria dos ouvintes — e pelo velho, agora escorado na poltrona em que a moça estivera.

O casal se foi, a moça que parecia Ester sorrindo um sorriso de iluminar vilarejos. Dele, para ele, com ele: não sabia. Sabia sim encher-se da paz que jamais havia carregado. Desceu as escadas, apanhou um livro qualquer, pagou os oito euros pela edição de bolso.

Fora da livraria, viu a moça e o pianista, abraçados. O velho atravessou a rua, não sem antes cumprimentá-los com espécie de continência, e na esperança de reencontrar Ester, atirou-se no Sena.

Àquela altura, a moça e o pianista encontravam-se ainda abraçados, o trânsito de Paris seguia em seu ritmo caótico e o piano abrigava já novo dono.

[Foto: Hryck.]


Sobre o Autor

Escreve em cadernos sem pauta, remendando até não poder mais. Acredita na salvação em Pedro Páramo e na vida como caminho ondulante: "sube o baja según se va o se viene. Para el que va, sube; para él que viene, baja."



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