Pirão O bicho prosa

Publicado em novembro 8th, 2013 | por Nathan Mattes Schäfer

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O BICHO DA PROSA

[Para meu avô que sabia das coisas.]

O velho fazia o mesmo, todos os dias.

Finda a sesta, abria a porta de tons amadeirados e vencia sem pressa os quatro degraus de mármore, adornados por pedras coloridas. Tomava, então, o rumo da portela. Levava, espremida entre o braço esquerdo e algumas costelas, a banqueta de madeira. Ajeitava-se no jardim, as laranjeiras protegendo-lhe o cocuruto da soalheira vespertina; fazia como que uma reverência ao espalmar as mãos e acertava o traseiro no couro cor de carmim da inseparável banqueta. Cumprido o ritual, sacava um bloco do bolso frontal da camisa e punha-se a escrever. Largava a lapiseira apenas para correr os dedos pela barba ou espiar o movimento da calçada, em olhar semelhante ao de padre Inácio na partilha da hóstia.

Mustafá, o velho, passava tardes e tardes assim. Eu achava graça naquele senhor, barba e pele muito escuras, observando seu quinhão de Rua Argentina, rabiscando o tempo todo. Eram indissociáveis: banqueta; ele; os blocos.

Lembro de perguntar a meu avô, por que Mustafá olha tudo e escreve, olha tudo e depois escreve, vô? E meu avô respondeu que ele havia, desde muito jovem, sido picado pelo bicho da prosa. Desconhecendo a palavra, mas sem querer parecer ignorante — coisa que meu avô abominava —, calei-me. O termo, porém, me perseguiu. Tentei escanteá-lo; imaginei muitíssimas definições. Acabei resignado: era burro.

Antes, perguntei a minha mãe, assim, enviesadamente:

— Quando alguém é picado por um bicho, o que acontece?

— Venha cá, menino. Que bicho te picou? Onde picou? Bem que eu disse pra não brincar no terreno do Valdez, ali tem coisa que até deus duvida, no meio daquele matagal.

Estava fissurado pelo bicho que não era bicho da goiaba, nem bicho-de-pé ou bicho carpinteiro. Tanto preocupei que perdi a fome. Como resultado, enfraqueci e caí de cama, enfurnado em cobertas.

Após livrar-me do exame minucioso, expliquei: era curiosidade. Ela disse, enquanto untava com manteiga a forma do bolo:

— Que susto, menino! Bom, depende. Tem picada que só dói, picada que dá alergia, doença com cura e sem cura. Depende, são muitas. Mas, por que isso?

Não expliquei. Dando pouca importância ao futuro bolo, corri para a casa de meu avô. Lá, permaneci no carpete felpudo da sala de televisão por horas. Inerte, matutando — embora desconhecesse a expressão —, tentando entender o que e quem era o danado do bicho da prosa. Minha prima, sempre imersa em tarefas, incomodou-se. Repreendeu minha aparente preguiça na frase que mais se repetiria nos dezesseis anos seguintes:

— Seis anos de idade e sem vontade pra nada.

A reprimenda não teve efeito. Afinal, não pensava em outra coisa senão no bicho da prosa. Tentei esquecer, ocupar a cabeça com o quebra-cabeça novo. Montei legos, cobrei pênaltis imaginários e desenhei histórias que acabavam no terceiro traço.

Passaram-se dias e a agonia permaneceu. Estava fissurado pelo bicho que não era bicho da goiaba, nem bicho-de-pé ou bicho carpinteiro. Tanto preocupei que perdi a fome. Como resultado, enfraqueci e caí de cama, enfurnado em cobertas.

Quando soube que eu estava doente, meu avô largou os afazeres e veio me visitar, acompanhado de Mustafá. O velho era médico. Aposentado, mas ainda médico. Mustafá conferiu minha temperatura; auscultou meu peito; disse que eu estava bem: “só fraqueza. Este menino precisa de comida, mais nada”; se foi.

Meu avô permaneceu. Sentado na beirada da cama, escutou a pergunta que me apertava a garganta sair numa rajada de metralhadora:

— Que é o bicho da prosa?

Ele riu de mim por muito tempo, e isso me irritou. Talvez tenha ligado os pontos e entendido a razão de meu adoecimento. Não posso saber. O que sei é que saiu do quarto para retornar com um livro grande, a capa azul-marinho. Disse que toda vez que houvesse alguma dúvida, o primeiro lugar a buscar era aquele. E me ensinou a usá-lo:

— Está tudo muito bem ordenado. Veja bem: a letra P de prosa está aqui, então primeiro virão todas palavras com p, seguidas do a. E depois de e, e assim até terminar as vogais. Se alguma consoante estiver entre elas, é só seguir a ordem do alfabeto, entendeu?

Fiz que sim. Observado pelos olhos atentos de meu avô, deslizei os dedos ainda inseguros pelas páginas. Me perdi inúmeras vezes, é verdade. Avancei; parei; retrocedi e tornei a avançar. Demorei, mas acabei encontrando o que precisava:

Prosa: adj. e s.f. Maneira usual de o homem exprimir-se através da linguagem falada ou escrita. Basicamente, é qualquer expressão linguística escrita ou falada que não seja poesia. Em prosa são escritos romances, peças de teatro, contos, artigos, relatos jornalísticos e ensaios. Quando os homens falam entre si, normalmente fazem-no em prosa./ Conversa informal./ Fig. Lábia, bazófia, prosápia./ Adj. Diz-se de um indivíduo pedante, contador de vantagens, cheio de si, enfatuado: sujeito prosa.

O que não entendia, meu avô explicava na fala vagarosa que hoje partilhamos. Compreender o tal bicho da prosa me fez sentir alegria incontrolável, um comichão saindo das unhas dos pés e vencendo o último fio de cabelo cacheado: eu não era burro, o mundo é que usava palavras difíceis.

Daquele dia em diante e por muito tempo, o dicionário foi minha leitura predileta. As tardes eram o carpete, leite com achocolatado, mais ele. Em algumas ocasiões eu estava vestido de Batman — para desagrado de minha avó.

— Um menino tão bonito usando máscara com guampas e deitado o dia todo.

Meu avô não ligava para o rosto coberto. Sabia que o pequeno patriota, como me chamava, não era nem seria bonito. Mas, imagino, identificava no neto o mesmo nariz adunco, as mesmas olheiras, o mesmo olhar miúdo, caído. Às vezes, eu quase podia flagrá-lo escorado no batente da porta, me espiando por cima do Standard aberto.

Talvez, no intercalar a vista entre jornal e carpete, meu avô percebesse que seria aquele cisco de gente, feito Mustafá dos blocos, também uma grave vítima de tal bicho, o bicho da prosa.

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Sobre o Autor

Escreve em cadernos sem pauta, remendando até não poder mais. Acredita na salvação em Pedro Páramo e na vida como caminho ondulante: "sube o baja según se va o se viene. Para el que va, sube; para él que viene, baja."



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