Pirão hippie_projac

Publicado em maio 2nd, 2012 | por Diogo Araujo da Silva

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O HIPPIE PROJAC

Por Diogo Araújo da Silva

para Victor Bub

Há em Florianópolis um tipo global magicamente espalhado por todos os cantos: é o hippie Projac.

É incrível como às vezes a vida imita a arte: não é preciso ser bom ator para nada, nem para ser geneticamente afortunado, nem para morar num paraíso onde não se precisa fazer muita coisa (na verdade onde se deve fazer o mínimo possível) a fim de fazer o tipo de quem cultiva inúmeros amores libertários, leves, bem-resolvidos e, aos olhos do público, intensamente angelicais.

Para que o identifiquemos, basta verificarmos duas qualidades básicas do hippie Projac: uma, o alto astral, em constante sintonia com a natureza e a leveza de energias, pronto para afastar a má iluminação de quaisquer de suas amigas por meio de técnicas profissionais de interação. Duas, a delicadeza, presente nas boas maneiras e na cútis incrivelmente macia deste abençoado ser que, ainda que conserve certa pasmacera não-natural, não consegue esconder suas origens de burguês empanturrado de conforto, mochilões aéreos e incríveis boas vibrações.

Nosso hippie tem a cabeça boa. Ama a cultura brasileira com o máximo de esforço que seu personagem exige para que este amor lhe dê frutos, o que, diante de uma mãe-Terra tão abençoada e dado o caráter transcendental de seu personagem, quer dizer que nosso amigo não faz força quase nenhuma.

O que é Bom para ele é evidente, basta olhar as coisas e as coisinhas ao nosso redor. A maldade o nosso amigo evita conhecer

Repete o que aprendeu com o papai, com quem não teve que brigar para sair de casa, até porque de lá ainda não saiu nem parece que, mesmo saindo, vá um dia de fato sair: dele ouvimos desde bem articulados elogios ao discurso crítico marxista iluminista petista ecológico democrático anti-homofóbico feminista viva-Hugo-Chávez-e-Bob-Marley até o absurdo singelo mas indignante de não termos uma ciclovia em plena Lagoa da Conceição.

O que é Bom para ele é evidente, basta olhar as coisas e as coisinhas ao nosso redor. A maldade o nosso amigo evita conhecer, até porque suas namoradas só o aceitam se ele fingir que acredita que elas sabem se defender tão bem sozinhas quanto mal-acompanhadas.

Não precisaria enumerar as características de sua ideologia: o hippie Projac é contra a Coca-cola e a favor da oficina de açaí; contra o desequilíbrio espiritual e a favor do contato corporal; contra o grito para o futebol e a favor do grito para o sol; contra o sentimento apegado e a favor da apagada transcendência; a favor de tudo o que é marca boa de surfwear mas com desconto; contra a perseguição ao artesanato de seus amigos yuppies; contra o domínio da palavra e da razão e a favor da distração (dos outros); contra o calendário trabalhista e a favor das sombras hipnotizantes do calendário maia; contra o barulho das cidades e a favor da paz propícia ao estupro mútuo, voluntário, virginal e globalmente delirante.

Sobre música nosso amigo curte os clássicos: nada melhor que um samba-rock-lounge-roots saindo direto das caixas de som do seu carro do ano para animar um pôr do sol (natural) na praia Mole. Para quem não reconhece o som pela sigla, ela se refere a qualquer dessas novas bandas que tocam um samba que não é samba, um baião que não é baião, um forró que não é forró em nome da criação do novo – ou, em outras palavras, da reapresentação do som picareta, que é antiquíssimo, para o público universitário.

“Gosta de Gilberto Gil, hippie?” “Amo!” “Conhece aquela?” “Não!” “E aquela outra?” “Não!” “E esta?” “Só de nome… Pow, um minutin bródi que não tá dando pra conversar aqui, o som tá muito alto, fica no astral aí véi! Vô ali fazer a minha parte na confraternização!” E o vemos afastar-se para chegar numa roda cheia de meninas com sua melhor cara de “meu último personagem será um tarado.”

Tom Zé (o rei da tosquidão proposital) é para o hippie um maestro, o músico mais vanguarda do mundo. Hermeto, por outro lado, é perturbador, difícil, muito além para ele, que gosta mesmo é de humildade e docilidade.

Nos diálogos esse repúdio a qualquer tensão é o maior termômetro da impossibilidade de se ter uma conversa fora dos parâmetros da Malhação ou, no caso das meninas, da fúria erótica de um Marcos Palmeira com nosso amigo suave e transcendido: na primeira ironia que não entrega seu jogo, vejo meu anjo espremer o cu e sufocar todos os demônios que eu jurava que não existiam em seu ser, afastando-se de mim algo bruscamente. Talvez seja apenas para elas que o diabo não possa aparecer… Ou tenha sua hora marcada.

Nos diálogos esse repúdio a qualquer tensão é o maior termômetro da impossibilidade de se ter uma conversa fora dos parâmetros

O hippie Projac não é má pessoa: aliás, talvez por não se achar um pingo de maldade assumida neste personagem, ouvir seu papo é uma das coisas mais entediantes do planeta, para todos os que não sejam meninas universitárias loucas para experimentar as delícias quase clandestinas da liberdade sexual e do amor algo cósmico. Digo “quase clandestinas”, pois uma das muitas coisas que nosso amigo não esqueceu de trazer de seu berço de ouro é o charme da fofoca depois da fachada natural de discrição.

Quem não é feliz em Florianópolis? Apenas os que ficam de fora da nova onda, a de ser um hippie Projac e não saber que não é preciso segundas intenções (pois em tempos libertários a que era segunda pode muito bem virar a primeira, ora bolas, e a primeira sumir com um passe de mágica inca-oriental), não é preciso grandes sentimentos para acalmar o orgulho ferido de umas meninas por meio da mais suave imposição de mãos.

Volto a dizer: o hippie Projac é manso, caso contrário não seria hippie. E não faria tanto sucesso na ilha do equilíbrio. O hippie Projac tem o coração grande e chora com as meninas de quem tem que se despedir para começar outro ciclo espiritual. (O que quer dizer botar um olho numa vaguinha na novela das 6.)

Mas amor que é bom, como nos velhos tempos, com tapa na cara, desespero, erros e arrependimentos, o esplendor dos ciúmes, a fúria da assunção dos pecados, o sexo com o sabor do risco de morte, ah, isso não. Não há frase mais impossível do hippie Projac entender, mesmo que seja culto, faça Biologia ou História na universidade federal, creia no panteísmo e venda esfihas de berinjela, do que a daquele santo que ele conhece mas ainda não perdoou, o puríssimo Vinícius de Moraes: “O amor só é bom se doer.”

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



10 Responses to O HIPPIE PROJAC

  1. TJ says:

    Me desculpe Diogo, mas não curti esse festival de rotulação. Essa tendência de generalizar a própira leitura, imersa na própria imaginação de saber como é a vida e a origem de pessoas que volta e meia nos aparecem por momentos, revela muito mais sobre o autor do que sobre o tipo pretensamente analisado. Revela posições e valores adotados, perigosamente próximos ao de um tipo muito mais bem conhecido: O reacionário – que vive amedrontado de tudo e de todos.

  2. Rafael says:

    [quote name=”Débora”]Penso que uma ideia me parece + legal. Q tal escrever + e rotular menos? ?[/quote]

    …sinceramente, confundir uma análise contundente de um cenário e uma cultura com mera ‘rotulação’ não dá… não vou dizer que o texto do cara tá perfeito, mas com certeza não é um vulgar reducionismo, a não ser nos aspectos em que o próprio alvo se reduz (pq o tipinho descrito é bem reduzidinho mesmo). Sobre a conveniência de escrever o texto: talvez não convenha mesmo, mas o que convém? Política? Pra tudo tem seu tempo. Eu acho o momento apropriado para dar algumas palavrinhas sobre esse comportamento que subsiste na ilha sobretudo porque todo mundo se faz de cego pra o que ele tem de muito patético. Se isso não existe, é outra discussão… mas acho difícil

  3. diogo says:

    oi débora!

    eu sou o hippie projac.

    um abraço!

  4. Débora says:

    Penso que uma ideia me parece + legal. Q tal escrever + e rotular menos? Q tal usar o espaço midiático para debater ideias? Um artigo inteiro p descrever um determinado estilo de pessoa, sendo que, na boa, isso não existe, texto que, malgrado bem escrito, todo “cheinho de “ginga”, é de extremo reducionismo? Cada um é cada um.essa mania de estereotipar as pessoas, com ar julgador do gosto alheio (não adianta nem negar) sempre enseja preconceito, por + que o texto seja permeado de “abrandamentos” (morde e assopra seria um bom titulo para ele)…serio, perdi super meu tempo lendo.Tvz as pessoas devessem escrever + artigos se auto-analisando, ao invés de se ocupar tanto do estilo de vida alheio e em critica-lo. E o autor? qual é seu estilo? Vc também se auto limita a meia dúzia D gostos e adjetivos, como fez no seu texto? Escrevo + por tristeza em ver alguém que, a despeito de possuir o dom da palavra, ao meu ver, exponha conteúdo tão simplório.Abraços

  5. Breno says:

    Morei 2 anos na ilha da magia, assim depois de 6 meses de volta a minha cidade encontro o texto que estava entalado na minha garganta, elucidando tudo o que mais me fazia engasgar no Desterro. Disse tudo, nessa horas temos que abrir espaço para um: “Véi mando muito!”

  6. Caio Bustani says:

    Porra Diogo!
    Foi na veia
    …ainda estou me recompondo do “samba-rock-lounge-roots”, espere aí!
    .
    .
    .
    Agora sim!:)
    Não precisa acrescentar muito. fico Extasiado de saber que mais pessoas também enxergam assim!
    Que ironia, nunca tinha lido nenhum texto seu, e começo logo com esse.

    Meu parabéns.

  7. Kennya says:

    Nossa!!! tudo que estava dentro de mim sem palavras que se expressasem acabaram de ser ditas!

  8. Lucas Vollet says:

    É a segunda vez que leio esse texto, e sem reclamar de desperdício de tempo. O ritmo do estilo é perfeito, rápido, afiado e pesado. Depois, ele toca o assunto por uma diversidade de ângulos, e não deixa de ser ousado porque esse assunto se tornou delicado como os boatos sobre as supostas roupas invisíveis aos burros do rei pelado – em Florianópolis. Tanta gente investiu alma nessa encomenda absurda de curiosas vestimentas de estilo, moda, tendências e comportamento, outros tantos se deixaram enganar por ela, e ainda outras se deixaram seduzir pela promessa espúria de sua sensualidade artificial, que custará talvez a passagem de uma geração para olhar para trás com olhos limpos e dizer: “que ridículo eu era!” , ou, “como deixei esse tipinho ambicioso de luxúrias e vaidades me pegar com citações de Marx e Neruda?”.

  9. Antonio martins says:

    Esses hippies foram os yupy dos anos 80-90, e hoje são os pós hippies que dizem salvar o planeta.. ” para eles ” são lógicos e pregam a preservação ” para eles”pragmáticos. Não devemos nos esquecer que a geração hippie começou nos EUA ,na california dos anos 60,resquiço de uma tal geração beat dos anos 50, que entre outras coisas eram os lupem do ” american way life” estilo de vida americano dos rebeldes sem causa..Portanto cultivam os nichos da burguesia estatal e consomem tudo ao natural sobre o sabor cultural de uma geração que paga tudo com o crédito da familia ,pois seus pais foram o sumo de uma geração que mais ganhou grana nos anos 90..mas enfim vamos preservar a praia para eles ,a mata para eles enfim a cidade para eles.e salve as baleias ,as tartarugas e se sobrar uma esfirra de gorgonsola, me manda ..açaí não ,prefiro caçhaça….mui gracias.

  10. geo says:

    Cara, vc é a Martha Medeiros da ilha…

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