Pirão image

Publicado em agosto 21st, 2013 | por Julian Brzozowski

0

O JEGUE E OS OUTROS

“… não ter muito amor pela saúde própria, mas todos concordamos que será mais difícil ignorar o vermelho correndo de seu recém-nascido.”

“Não!” ruge o crocodilo, seu debater-se encorajando o sufocante ferro a morder novas camadas de seu pulso. As grossas cordas de cânhamo prendem seu pescoço de forma a impedi-lo de dirigir seu olhar à frente, mas a inocente forma refletida nas poças formadas por sua própria urina, suor e vermelho não balança suas pequeninas pernas para fora do colo do comandante leonino de maneira diferente àquela de [FILHO]. Seu silencioso desavisado desinteresse dá espaço a chutes quando o primeiro frio lhe lambe a palma da mão.

“Que merda! Isso não tá certo! Alguém devia dar um jeito nesses leão de merda: pra cadeia sim que era bom, porque aí detento ia cair em cima: comer cuzinho desses filhos da puta dia sim dia também!” pensa o jegue aos companheiros de bar, assistindo à cena pelo buraco da fechadura. “Tinha que fazer com eles exatamente do mesmo jeito que eles faziam cos outros!”

Arquiteto-mor do antigo chefe de estado, é interrogado sobre os crimes cometidos nas últimas décadas por todos aqueles do regime próximos ao seu gabinete

Eis que os crocodilos rebelam-se contra a opressão leonina.

Arquiteto-mor do antigo chefe de estado, arrastado até as ruínas do seu Parthenon, é interrogado sobre os crimes cometidos nas últimas décadas por todos aqueles do regime próximos ao seu gabinete. Por seus olhos inchados a luz não mais penetra; das garras, no chão, só a carne.

“Bom”, anuncia o carrasco réptil, “esse aqui parece não ter muito amor pela saúde própria, mas todos concordamos que será mais difícil ignorar o vermelho correndo de seu recém-nascido.”

“Não!” ruge o leão, seu debater-se encorajando o sufocante ferro a morder novas camadas de seu pulso. As grossas cordas de cânhamo prendem seu pescoço de forma a impedi-lo de dirigir seu olhar à frente, mas a inocente forma refletida nas poças formadas por sua própria urina, suor e vermelho não balança suas pequeninas pernas para fora do colo do comandante crocodiliano de maneira diferente àquela de [FILHO]. Seu silencioso desavisado desinteresse dá espaço a chutes quando o primeiro frio lhe lambe a palma da mão.

“Que merda! Isso não tá certo!”, pensa o jegue, tirando uma de cinquenta da carteira.


Sobre o Autor

Necrófago, vigia diurno, capelão e torniquete; não enxerga diferença entre picolé de milho e margarina no palito.



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑