Pirão facebook_news_feed_dentro

Publicado em março 2nd, 2012 | por Thiago Momm

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O MAIOR JORNAL DO MUNDO

Publisher: Mark Zuckerberg. Fundação: 2004. Leitores: 500 milhões diários, outros 350 milhões esporádicos.

Que jornal pode se orgulhar disso? Nenhum. Segundo o Guinness, em 1991, ano da queda do comunismo na Rússia, o diário Argumenty i Fakty atingiu a circulação de 33 milhões de exemplares. Hoje, o jornal japonês Yomiuri Shimbun tem 14 milhões. Online? O New York Times é o 97º site mais acessado do mundo; o portal de notícias Sina, chinês, o 17º; o Facebook, o 2º.

Só no Brasil são 35 milhões de usuários, um crescimento de 298% de audiência no último ano.

Tem quem considere a criatura de Zuckerberg apenas uma rede social. Isso é ignorar a palavra “news” em “news feed”. A escolha do termo nem precisa ter sido tão consciente. Em algum lugar da cabeça do mais invejado empresário do planeta, ali estava a sutileza que definiria o começo do século 21: qualquer acontecimento que quisermos que seja notícia será.

Os jornalistas podem definir notícia como uma quebra de expectativas etc. Não importa. Nos últimos anos, notícias também são o que publicamos e lemos no feed. A cada 20 minutos pinga 1,85 milhão delas em todos os feeds do globo, e é via Facebook que 48% dos jovens americanos procuram se informar – no sentido mais tradicional de se informar, mesmo.

Os jornalistas podem definir notícia como uma quebra de expectativas etc. Não importa. Nos últimos anos, notícias também são o que publicamos e lemos no feed.

Estou aqui com o Facebook Tribune aberto. Recebo uma notícia já compartilhada por 5 mil leitores. Sendo 130 a média de amigos de cada usuário, essa quantidade de compartilhamentos já expõe o conteúdo para 650 mil pessoas, uma marca que poucos jornais do país superam nos dias de semana (nenhuma tiragem chega perto, mas é preciso considerar a passagem de cada exemplar por várias mãos). A notícia compartilhada é a foto de uma mulher definida, um pouco musculosa, usando óculos escuro delegado, com o texto de um personal trainer abaixo explicando os benefícios de malhar. Uma boa revista de saúde talvez dissesse algo mais completo, mas a revista está naquele esquisito e distante lugar chamado banca, custa R$ 9,90 e vem repleta de assuntos que podem não interessar.

Mas se tenho uma sugestão ao Sr. Zuckerberg, seria a de que ele organizasse melhor as notícias do seu jornal eletrônico. Agora mesmo um comentário político do meu feed está logo acima da foto de um gato se espreguiçando (colunismo social), um resmungo sobre um técnico de futebol (esportes), um texto de motivação empresarial (negócios), duas sugestões de clipe (cultura), pensamentos aleatórios (crônicas), casais felizes, aniversários, auto-promoção (volta o colunismo social) e inúmeras fotos-montagem ou links engraçados (a seção de humor, provavelmente a que mais emprega profissionais, junto com a de sociedade, na redação do Sr. Zuckerberg).

De resto está perfeito. Sim, alguém pode dizer que no F. Tribune opiniões e notícias se misturam demais, já chegando fanaticamente interpretadas, mas em comparação com a Veja não é nada que cause estranheza. Também já ouvi leitores por aí criticando os repórteres de turismo do F. Tribune, dizendo que as reportagens de viagem consistem basicamente em fotos do próprio repórter na frente dos lugares com legendas pouco informativas, como “amei!”. Mas diz isso quem nunca conferiu A fantástica volta ao mundo, livro em que o jornalista Zeca Camargo, 17 países exóticos e mais de 100 mil quilômetros percorridos depois, destaca principalmente seus auto-retratos-com-o-braço-esticado, com grandes atrações turísticas ou povos pouco conhecidos em segundo plano.

Taí. Zeca Camargo para editor-chefe do Facebook.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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