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Publicado em agosto 8th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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O PATRIOTISMO É UM PRAZER BREVE

Os deuses são apátridas. (Murilo Mendes)

Em meu texto anterior aqui no Pirão,Filosofia à brasileira, fiz inúmeros elogios ao Brasil. Aqui quero desenvolver o porquê desta minha investida “patriótica” em pleno 2011.

Em primeiro lugar tendo 26 anos me considero sendo ainda tão jovem quanto alguém de 15. Não sei se por algum defeito de apreensão do mundo ou não percebo a juventude inteira como uma geração.

Tenho um grupo de amigos que tem em média, generosamente, seis anos a mais do que eu. Há seis anos, quando nos conhecemos, éramos todos jovens. Agora os encaro como “quase-quarentões”. Para provocar, perto deles faço propaganda de um novo e grande talento musical: Mallu Magalhães. Eles se descabelam.

Para ir direto ao ponto, pensar assim me coloca como contemporâneo de todos os últimos acontecimentos, não importa quais: do surgimento do Restart à morte da Amy Winehouse, para falar só da música. O pop também morre e, muito provavelmente, sempre foi uma ode à liberdade de morrer. Isto o que meu tempo me diz, enquanto jovem.

Quando o conhecidíssimo e pop filósofo alemão Friedrich Nietzsche diz “Amo somente os prazeres breves” ele está abrindo as portas para toda a arte do século XX, ou seja, está dando autoridade estética absoluta para a juventude.

O “prazer breve” é muito mais do que uma constatação cronométrica da duração de um êxtase estético: é o fenômeno que, quando visto de perto, muito tocou e modificou todas as manifestações de luta pela liberdade ao longo do século passado – e continua neste.

Afinal, a expressão traz consigo uma espécie de “ética da finitude”, ou seja, uma postura que passa da constatação de que tudo morre, para a compreensão de que só porque morrem é que as coisas acontecem e que as podemos amar.

Passar da constatação de um abismo para abraçar, sem estigma e peso, este mesmo abismo, continuando a nomear a graça da vida, porém, é um grande desafio – que o Ocidente ainda não conseguiu superar.

A palavra “finitude” quer dizer “aqui nada é eterno”, mas também implica “tudo está aberto, encarnamos a própria eternidade. O eterno é feito de carne.” Não superar a descoberta da finitude, do prazer breve, significa estagnar na primeira das definições, “nada é eterno”, ou seja, é ter uma visão ainda negativa do fenômeno da morte.

Mas a juventude envelhece e morrer com 27 anos se tornou, finalmente, uma escolha. O rock e o pop (que são uma coisa só, lição cortante de Pixies e Sonic Youth, as duas grandes bandas do rock alternativo) sempre foram anti-místicos ou, melhor dizendo, mais a favor do riso do que ao próprio diabo.

Homens e deuses

Elogio o Brasil porque somos um país criança. E a criança é a rainha do prazer breve. Trago o nome de Oswald de Andrade tantas vezes nestes escritos por perceber que nada do que se coloca por aí como “obstáculo à liberdade” seria problema para ele. Sua visão leva muito mais além o limite entre dor e prazer da vida e os obstáculos se tornam outros. Podemos rir e gozar, abertamente, com eles.

Um exemplo. Em seu livro de memórias Um homem sem profissão, sobre os ídolos de massa, de Stálin a Pelé, Oswald falou: “Apenas, os homens querem ver de perto seus deuses.”

Isto nos faz entender não só a morte “prematura” (eu diria livre e leve) desta artista esplendorosa que é Amy Winehouse, como a grandiosidade de um Salvador Dalí ou um Bob Dylan, ou como a facilidade de mobilizar multidões passando ao largo de todo cinismo de um Victor e Léo. Apenas os homens querem ver de perto seus deuses.

Por que os fenômenos de massa ainda nos chocam? A arte sempre foi popular. A distância entre “blasfemar” ante o Axé ou Giordano Bruno é insignificante.

Penso que esperar posturas prontas vindas dos EUA e da França (aquele ainda exercendo enorme influência sobre a juventude daqui, esta ainda sobre a intelectualidade brasileira) é dizer um grande Não aos prazeres breves. Penso que cultuar Lou Reed sem nunca ter prestado atenção em Caetano Veloso ou Egberto Gismonti é uma grande patetice. Os três são grandes artistas, geniais.

Tudo o que o Charlie Sheen pode dizer no auge de sua histeria cansada de frente para uma jornalista que evidentemente aceita tudo como violência não vai passar de molho agridoce vencido perto de qualquer verso de Carlos Drummond de Andrade.

E o Funk Carioca está aí, garantindo que a putaria está só começando. Por um mundo em que o tabu, ou seja, o medo, a covardia, o verdadeiro anti-cristianismo, a espera, o cinismo de adolescentes tontos que ainda não se perceberam como surrealistas de novela das seis, se converta em totem: o êxtase da morte, o orgasmo, o vinho, o silêncio sensual, a coragem de poder morrer a qualquer instante pleno de felicidade.

É isto que está acontecendo na nossa frente.

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



6 Responses to O PATRIOTISMO É UM PRAZER BREVE

  1. diogo says:

    Caríssimo anônimo:

    A palavra é o último Deus.

    Pense bem sobre esta frase de efeito.

    Diogo

  2. Anônimo says:

    Texto pseudo intelectual, cheio de frases de efeito…
    E “A arte sempre foi popular”??

  3. diogo says:

    Thiagão

    Esses comentários sarcásticos que se fazem ao Nietzsche às vezes são bons: apontam nesse caso alguns dos pontos essenciais de sua atualíssima filosofia como estando cada vez mais abertos. Nessa abertura há a possibilidade de crítica e de apontamento para novos caminhos.

    Eu particularmente admiro muito a paixão, o começo de amor à carne em seu pensamento. Por outro lado, amo meu tempo e, se sinto que ele precisa de sua ontologia e que sua ontologia possa pela primeira vez ser todas as ontologias, nessa intuição de síntese, milagro-brasileira, acabo me afastando justo de todos os “desconstrutores” radicais alemães: Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, Wittgenstein

    Todos estes no fundo são também positivos, construtores: mas olhar a cruz de frente e ter na carne esta cruz é outra história. Chama-se Brasil.

    Viva qualquer coisa!

  4. Thiago Momm says:

    Me convençam que esse mau humor com o Nietzsche é mais que o velho ranço ao pop. Li ontem, por acaso, o aforismo 610 de “Humano, demasiado humano”, sobre se viver a segunda metade da vida como uma má rima da primeira. Enfim, algo portentoso, que não deve a Proust e que tais. Para mim, o bigode chegou ao teto do que se pode chegar ainda sendo entendido por mais de 340 pessoas num país – mas, como o Diogo me disse, na Filosofia ele é tido como “adolescente” perto de outros. Não seria petulância, Diogo, vocês virarem as costas para o estandarte mais visível de vocês?

  5. diogo says:

    Caro Braz,

    Pra mim, o Brasil é o inferno.

    E o inferno é infernal.

    Eu acredito mais na TV do que no IBGE. Mais no congresso de art déco que no Ruy Castro. Mais na Sandy que no Nietzsche. Mais no milagre do que no santo.

    Belíssimo comentário.

    abraço forte,
    Diogo

  6. braz moulin says:

    Diogo.26,
    aos 27, o corpo humano começa a morrer. isso, nos últimos 2 milhões de anos (sem contar o da sandy, é claro!). quando um futuro mito do rock morre aos 27, é coisa da máfia do entretenimento. o brasil era criança, lá no meu tempo. agora, lobo meio bobo, o ibge diz que já tá véio. hoje, quando leio sobre o alemão bigodudo, penso logo na sandy. sandice. na rádio, bem cedo, o ruy castro malhou o oscar, pra falar do 11º Congresso Mundial de Art Déco. o funk carioca não se manifestou. a sandy disse que tá só “começano”.

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