Pirão curitiba

Publicado em abril 24th, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

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O PIÁ DE PRÉDIO

Em Curitiba o playboy não se chama playboy, e sim piá de prédio.

Em um sentido inverso ao do hippie Projac de Florianópolis que acreditou demais no amor à natureza e tenta te convencer que transcende naturalmente em nome do paraíso enquanto põe na boca 3 doces, o piá de prédio acreditou demais no amor ao conforto e regrediu a um estado primitivo singularmente bizarro – porque ao contrário.

Suas sinapses são confusas, em casa e sozinho, resmungando baixo com seu sotaque de colono que entendeu antes Marte do que a cidade, o piá de prédio está esperando a namorada para a transa do sábado à tarde e tenta relaxar o corpo, torneado irregularmente desde os 12 anos, com suas inúmeras loções, cremes, 3 banhos e, é claro, o fiel videogame.

Um pai inteligente poderia dizer ao piá de prédio: “Piá! Não precisa seguir tão à risca as normas de higiene da tua mãe. Relaxa um pouco, piá! Solta uns peido aí… Piá!” Ao que o piá de prédio responderia: “Mas peido eu solto, piá! Inclusive na balada.

“Esses dias ouvi até a Florlinda [nota do autor: é frequente as meninas de Curitiba terem ou um nome assim ou um astral correspondente a esse nome], ouvi até a Florlinda soltando uns no boteco. Também, piá, com o tanto de béra que nóis tomamo, piá, a Florlinda já nem se lembrava onde tava, se em Curitiba ou em Ponta Grossa!” E os dois ririam, piá pai e piá de prédio.

Mas não. O piá pai está ocupado demais com as delícias ocultas (eu ia dizer sujas, mas vocês poderiam entender que há sujeira em Curitiba) que a Londres brasileira tem a oferecer. E o piá de prédio, um poço de tensão visível em qualquer sorriso que dá no meio de qualquer canto do “Batel Soho”, seja segunda à tarde, seja domingo à noite, depois do enterro de uma tia, está esperando a namoradinha.

Então o piá de prédio tem uma ideia luminosa: “Não aguento mais. Eu vou, eu vou, eu vou!” E se tranca no quarto, para se destrancar 2 minutos depois duplamente revigorado. Então um mundo de algo que não é bem uma culpa, mas um problema logístico recai nos ombros do nosso herói: “Será que ela perceberá meus odores? Ah, tomo mais dois banhos e digo que estava treinando tênis! Aqui, na parede do quarto! Tesão, piá! Será que ainda tenho tempo? Não, acho melhor não.”

Seu treino para ser um curitibano nato evita que perceba quaisquer ondas freudianas que ousem ameaçar o edifício do seu orgulho

Então a musa deste ser, que com 25 anos passou 2/3 da vida dentro deste mesmo apartamento, situado neste tradicional emergente bairro, ser que sente calafrios toda vez que lembra das horas de horror que passou na viagem da família a Salvador, a musa do piá adentra a porta.

Vocês precisam ver: o piá de prédio é mais bom-canalha que 10 Gianecchinis. Uma aura de ternura viril, como só um piá de prédio sabe compor, aflora na recepção de Florlinda.

Florlinda poderia dizer: “Meu Gianne!” e o cobrir de beijos e acabar logo com tanta espera. Mas sorri e diz, triste: “Piá! Tu não sabe! Um maníaco olhou pros meus seios por 3 segundos em pleno Largo da Ordem! Não sei o que está acontecendo com esses homens de Curitiba, piá! Vai ver nem são daqui, são esses surfistas de Florianópolis que nunca viram parque na vida! Patati patatá patati patatá.”

Pobre piá de prédio. Nessa hora um filme passa, silenciosa, inconscientemente por sua cabeça. O piá se pergunta sem ouvir a pergunta por que realmente se sente atraído por Florinda. Mas seu treino para ser um curitibano nato até a morte evita que nosso amigo perceba quaisquer ondas freudianas que ousem ameaçar o edifício do seu orgulho, e o piá não pode se ver novamente na época em que jogava Neo Geo com um olho e com o outro permanecia atento às peripécias das Chiquititas. Com pausas para a higiene.

Mas com nossa querida Florlinda não é muito diferente. Apesar de não terem sido 2/3 de sua vida que passou dentro de um prédio e sim 2/4, um outro quarto tendo passado no colégio e o outro dentro de shoppings ou pensando em shoppings ou em lojas de calçadões e bairros emergentes que em Curitiba parecem lojas de shoppings ou em como não parecer uma menina de shopping, apesar de tudo isso, nossa querida Florlinda é bastante parecida.

Faz curso de piano e canto (você já deve ter visto alguém parecido com ela numa música sobre como em Curitiba o amor está enterrado em penteadeiras), frequenta cinemas cults uma vez a cada 6 meses, tem amigos “susse” de olho pra botar a mão em suas tetas de polaca e, de vez em quando, quase transcende no parque Barigui, olhando em direção ao shopping Barigui e pensando: “Horizonte, horizonte… O que será do meu futuro? Por que a Globo não volta a filmar algo em Curitiba?”

Para cada piá de prédio, há uma pitchula de shopping, e é assim que os dias transcorrem na inteligente e confortável Curitiba.


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



One Response to O PIÁ DE PRÉDIO

  1. rafael says:

    Sem nenhum comentario ainda, pelo visto chamar o esteriotipo do estudante floriapolitando de hisper causa mais furor que chamar o curitibano de punheteiro.

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