Pirão indignacao

Publicado em abril 8th, 2013 | por Roberta Ávila

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O QUE É SER UMA PESSOA BOA?

Depois da tragédia de Santa Maria vejo muitas pessoas espalhando por aí aquele velho bordão de que os bons são maioria. Não me entendam mal, admiro imensamente as pessoas que saíram de sua rotina e conforto para ajudar as vítimas e suas famílias, não é isso que estou questionando. Mas dizer que os bons são maioria, assim, desse jeito simplista, é muito fácil.

O que é ser uma boa pessoa, para começar? Acho que temos vários níveis de bondade e de maldade no mundo. Madre Teresa é um exemplo extremo de bondade. Os exemplos de maldade vou deixar para lá. Mas a questão é que, em geral, uma pessoa que toma conta de si e não incomoda os outros já é considerada uma boa pessoa. Não que isso seja pouco. São muitas as possibilidades da pessoa se perder por aí e virar um problema (muitas vezes sem solução) para amigos e família. Mas será que ter um emprego, uma casa e seguir a sua vida sem depender nem dar trabalho para ninguém já é ser uma boa pessoa?

É isso que eu vejo a maior parte das pessoas que conheço fazendo ou tentando fazer. Almejamos independência financeira, carreiras de sucesso, realização profissional, relacionamentos felizes e por aí vai, mas tudo isso é absolutamente egoísta.

Será que ser uma boa pessoa não significa também ser generoso? Dar de volta um pouco do tanto que a gente recebe? Será que não significa mais? Agora ser generoso é curtir no Facebook uma foto achincalhando o Marco Feliciano? Confirmar presença em passeatas virtuais?

Assinei uma petição online pedindo a cassação de Renan Calheiros, mas tenho medo de que isso não sirva de nada. Tenho medo de que estejamos tão acostumados a saber que todos os dias morrem mais de 30 no Iraque e quatro ou cinco em São Paulo e isso já não signifique nada. Mas mais ainda, tenho medo que nada mais mexa com as pessoas. Tenho medo quando percebo que assuntos cínicos e frívolos – a unha da moda, como emagrecer 5 quilos em 3 dias, como agradar seu namorado/a na cama – vendem as mesmas revistas há décadas e nada muda.

A verdade é que estamos nos contentando com o mínimo. Cuidar de si mesmo é o mínimo. Tentar fazer algo de bom pelo resto do mundo, isso é algo a mais. Isso, sim, é realmente bom.

Outro dia vi na rua um cachorro imundo e faminto, cheio de sarna, com buracos imensos no pelo. Ele é a cara de um cachorro que ganhei na infância e de quem cuidei até que ele ficasse tão velhinho que não se levantava mais. Fiquei triste e pensando que “alguém devia fazer alguma coisa sobre isso”, dei meia volta e busquei o cachorro, que trouxe para casa.

Morando em um apartamento com dois gatos, o pobre do cachorro teve que ficar confinado à varanda. No começo ele estava tão triste que nem se pronunciava sobre o confinamento. Mas agora, uma semana depois, ele quer sair, quer passear. E eu não posso levar no elevador do prédio um cachorro que ainda se recupera da sarna. Ele pode contaminar outros animais ou até crianças.

Agora ser generoso é curtir no Facebook uma foto achincalhando o Marco Feliciano? Confirmar presença em passeatas virtuais?

Eu já cansei de ver notícias horríveis sobre maus-tratos a animais. Nunca vou esquecer a notícia que dizia que um cachorro abandonado por ser gay seria sacrificado. Não consigo superar a notícia de que um homem manteve uma tartaruga num balde por 20 anos. O bichinho ficou todo deformado.

Mas a verdade é que ao trazer esse cachorro para casa eu tentei fazer uma coisa boa e o que eu consegui foi criar problemas. Problemas com os vizinhos, que com certeza vão reclamar porque agora ele está latindo. Nenhum dele vai pensar “bom, o coitado estava tão derrotado na vida, já sofreu tanto, agora está tão feliz que está latindo”. Eles vão pensar só no seu próprio sossego perturbado. Os amigos acham bonito eu ter pego o cachorro, há quem fique admirado. Mas nenhum enxerga uma maneira prática de ajudar. Não existe uma única instituição em Florianópolis que receba animais resgatados da rua. Sou eu que vou correr atrás de um dono para ele. E de um dono, que eu espero, saiba tratá-lo com respeito e com amor.

Os bons são maioria? Infelizmente, acho que não. A maioria tenta ser boa para si mesma, para sua família, quem sabe, para os amigos talvez. E só. E me desculpem, mas isso não é bom o suficiente para ser chamado de bom. Os apáticos são maioria. E os apáticos acabam sendo ofuscados pelos sem escrúpulos, sem moral, pelos cruéis.

São eles que trabalham na indústria de armas dos Estados Unidos e estão fazendo propaganda com foco em crianças. É isso aí, a indústria de armas quer vender armas para crianças. E isso é legal. E centenas ou milhares de pessoas estão envolvidas. E duvido que o publicitário que criou a maravilhosa peça que diz “peça um AR-15 de Natal” tenha se demitido. Ou que um dos diretores da fábrica tenha tentado vetar essa ideia ridícula. Será que ele sentiu peso na consciência por causa disso? Será que ele se acha totalmente isento de responsabilidade pelo que essas crianças fariam (ou farão) com as armas?

É esse o mundo dos apáticos. Um mundo em que o McDonald’s te diz para ter uma vida saudável e praticar exercícios e ninguém acha isso hipócrita. A Coca-Cola te propõe que você encontre seu nome numa latinha de refrigerante e de repente está todo mundo procurando. Por quê? Para quê? Sei lá. Não tem importância. Nada tem importância. A capacidade de indignação das pessoas parece ter se esgotado.

Ser uma boa pessoa, ou mesmo tentar, é muito difícil. Acredite, eu tento e tenho muitos problemas por causa disso. Um deles é que ainda fico indignada. Dói, cansa, incomoda e é recorrente. Mas é por bons motivos. Adoraria ficar indignada em passeata pública. Quem sabe a favor de uma instituição que ajude os animais abandonados nas ruas. Quem sabe contra Renan Calheiros, Marco Feliciano e todos esses. Tem muitas a que eu iria. Que sonho esse, de ir a uma passeata nas ruas, e não no Twitter.

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Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



5 Responses to O QUE É SER UMA PESSOA BOA?

  1. Flávio says:

    Excelente texto. Concordo com tudo que foi dito. É uma pena, por exemplo, ver tantas pessoas reclamando de uma rede de tv que beneficia políticos e, após as reclamações, todos vão assistir às novelas. Infelizmente, o nosso país não enxerga suas próprias ações.

    Postei aí também o meu blog: opinioesariscas.blogspot.com.br… é bem interessante. Também me ocorreu escrever sobre esse assunto, mas numa abordagem um pouco diferente; fique de olho ;)

  2. Jefferson says:

    Você acredita realmente na bondade de Madre Teresa de Calcutá? Com todo respeito ao seu texto, mas não podemos busca fora exemplos de bondade, ou que julgamos ser pessoas acima de qualquer suspeita e que são puras. Infelizmente Teresa de Calcutá, não parece ser Madre. Uma pequena introdução. Você pode ver o resto se quiser. http://www.youtube.com/watch?v=pvBJXw4OYjw

  3. Anderson says:

    Boa reflexão.

    O que é bom, o que é mal? Apenas palavras. A essência pouquíssimos querem alcançar, o néctar interno de cada. Está tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Ao invés disso, vivem nas sombras pela falta de atenção na vida e, principalmente, em si. Quem quer se descobrir? Ajudemos os outros, os animais, a todos, sem distinção e não visando o interesse oculto-egoístico que permeiam as ações de muitos. Dar sem esperar nada em troca. Enobrecer a si mesmo, para quê? A escada da evolução é alta, subir é difícil, descer é tombo certo. Tudo é impermanente, não levamos nada.

  4. Deisi says:

    Roberta,
    Tu podes encaminhar o cachorro para adoçao via o centro de Zoonoses da Prefeitura de Florianópolis, fica atrás do cemitério do Itacorubi, lá também consegues consultas com veterinários, castraçao, algumas vacinas e tratamentos, tudo grátis!
    Boa sorte!
    Deisi

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